CLINT EASTWOOD | Os Primeiros 30 Anos da Carreira

CLINT EASTWOOD nasceu em São Francisco, Califórnia, em 31 de maio de 1930. Na Oakland Technical High School, Eastwood se interessava mais pelo atletismo e não se preocupava com as aulas de arte dramática da escola. Eastwood recorda que, quando criança, a família se mudava muito, à procura de trabalho. “Eu, então, me interessava mais pelo dia de hoje do que pelo de amanhã. Não tinha mesmo planos de me tomar ator”. Depois que se formou na escola secundária, o rapaz magricela viveu no Oregon, ao norte, onde trabalhou como madeireiro. No Exército, foi designado para Serviços Especiais, deu aulas de natação, conheceu muitos atores que o ajudaram a ter gosto pela vida artística.

Ao completar o serviço militar, mudou-se para o Sul da Califórnia e entrou na Los Angeles City College. Enquanto tentava se encaminhar na carreira artística, sustentava-se em diversos trabalhos, foi empregado de posto de gasolina, bombeiro florestal e administrador de edifício de apartamento . Trabalhando em um caminhão que fazia entregas nos Estúdios Universal, teve o primeiro contato com o mundo do Cinema. Um companheiro de exército, empregado do estúdio, conseguiu-lhe um teste cinematográfico, o que lhe valeu um contrato de 75 dólares por semana.

Durante esse contrato — de 18 meses — na Universal, obteve prática em uma série de filmes de baixo orçamento, tais como A Revanche do Monstro/The Revenge of the Creature/1955, Francis na Marinha/Francis in the Navy/1956 (FOTO ACIMA), O Suplício de Lady Godiva/Lady Godiva/1956 e Tarântula/Tarantula/1956. o primeiro e o último são filmes de horror, dirigidos por Jack Arnold.

Também apareceu com Rock Hudson, em Nunca Deixei de te Amar/Never Say Goodbye/1956. Quando o contrato terminou, conseguiu trabalhar em Lutando só Pela Glória/Lafayette Escadrille/1958 e em Emboscada/Ambush at Cimarron Pass/1958. Sobre os filmes dessa época, Eastwood afirma não sentir muito orgulho deles, “mas existem e não posso eliminá-los”. E completa: “Levando em conta que eles foram feitos em menos de duas semanas com pouco dinheiro, acho até que eram bons. Para mim, pessoalmente, me ajudaram a sobreviver e me deram uma oportunidade de aprender a trabalhar em Cinema. Mas me lembro de que fui ver um desses filmes e, quando saí do cinema, pensei que se isso era o melhor que eu podia fazer, então era preferível largar e achar outro trabalho”.

A seguir, veio o estrelato nacional, quando assinou contrato para ser o cowboy Rowdy Yates (FOTO ACIMA), na série de televisão, Rawhide, da CBS, que obteve enorme sucesso e durou de 1959 a 1966. Durante um intervalo de filmagem entre a sétima e a oitava temporadas de Rawhide lhe veio a oportunidade de passar de ator popular da televisão americana a superastro internacional . Foi quando recebeu convite para estrelar um filme europeu. (Mais tarde, Eastwood afirmou que, na época, ele pensou ser esta a única boa forma de conhecer a Europa com todas as despesas pagas.) O filme, Por um Punhado de Dólares/Per un Pugno di Dollari/1964 — era dirigido por Sergio Leone e foi rodado na Espanha, por apenas 200 mil dólares.

Ninguém ainda ouvira falar em spaghetti western até a exibição de Por um Punhado de Dólares, um estouro de bilheteria na Europa e, pouco depois, nos Estados Unidos e no mundo inteiro. O personagem de Eastwood — O Homem-Sem-Nome, lacônico, cínico, vingador, e mascando ruidosamente um charuto — aproxima-se do clássico personagem de western.

No ano seguinte, repetiu o papel em Por Uns Dólares a Mais/Per Quelche Dollari Più/1965, outro sucesso de bilheteria. Em 1966, mais um estouro de bilheteria, de Sergio Leone, Três Homens em Conflito/Il Buono, il Brutto, il Cativo. O ator já se tornara uma presença no Cinema mundial. Nos filmes da trilogia, Clint Eastwood falava pouco, pensava muito, matava cruel e rapidamente, vestia um poncho, usava um chapéu preto e fumava um charuto negro. Em 1967, voltou a filmar nos Estados Unidos — A Marca da Forca/Han’em High (direção de Ted Post), conhecido na história daquele estúdio como o filme que mais rapidamente se pagou. Era uma recriação norte-americana do seu sucesso europeu.

No final da década de 60, Eastwood fez três filmes — Meu Nome é Coogan/Coogan’s Bluff/1968 (surgido da observação do diretor Don Siegel de que um dos aspectos mais fascinantes dos personagens de Eastwood era a perplexidade expressa pelo ator diante do que lhe acontecia ao redor, e resolveu transportar esse tipo de personagem para um ambiente urbano, a cidade de Nova York, com igual carga de violência e complicação a ser solucionada), O Desafio das Águias/Where the Eagles Dare/1968 e Os Guerreiros Pilantras/Kelly’s Heroes/1970. Os dois últimos são ótimas aventuras passadas na Segunda Guerra Mundial, ambos dirigidos por Brian Hutton. Entre eles, em 1969, o mesmo Hutton dirigira o ator, com menor sucesso, no estranho e violento musical Os Aventureiros do Ouro/Paint Your Wagon, em que também trabalha Lee Marvin.

Clint Eastwood e Telly Savalas durante as filmagens de Kelly’s Heroes (1970).

Em 1970, filmou Os Abutres Têm Fome/Two Mules for Sister Sara, em que faz o papel de um cowboy que se apaixona por uma freira (Shirley MacLaine). Depois de trabalhar em O Estranho Que Nós Amamos/The Beguiled/1971, dirigiu o primeiro filme — Perversa Paixão/May Misty For Me/1971, de enorme sucesso. Nesse filme, ele também atua: é um disc-jockey que se torna objeto da atenção indesejável de uma ouvinte. No filme, Jessica Walter chamava a atenção. O novo diretor foi uma notável surpresa.

Em 1971, ainda, Clint Eastwood criava o personagem Dirty Harry ou Harry Callahan, em Perseguidor Implacável/Dirty Harry, um inexorável policial de São Francisco, que trabalha sozinho, tal como um xerife de fronteira. Esse filme, dirigido por Don Siegel, fez um drama policial se transformar em ótima bilheteria e, como aconteceu à trilogia de westerns, ajudou Eastwood a redefinir os rumos do Cinema como comércio.

Depois de aparecer em Joe Kidd/Joe Kidd/1972, dirigiu e estrelou O Estranho Sem Nome/High Plains Drifter/1973. A seguir, dirigiu — sem aparecer — Interlúdio de Amor/Breezy/1973, uma tocante história de amor com William Holden e Kay Lenz. Em Magnum 44/Magnum Force/1973, outro enorme sucesso de bilheteria, Eastwood foi dirigido por Ted Post e trabalhou com Hal Holbrook. Outra nova aventura do Inspetor Harry Callahan, o Dirty Harry.

A seguir, apareceu em O Último Golpe/Thuderbolt and Lightfoot/1974 e dirigiu e trabalhou em Escalado Para Morrer/The Eiger Sanction/1975. Em 1976, apareceu em dois filmes — Josey Wales, o Fora-da-Lei/The Outlaw Josey Wales (FOTO ABAIXO), que Eastwood também dirigiu e marcou a primeira participação da atriz Sondra Locke, que passou a trabalhar em praticamente todos os filmes de Clint, cujo personagem, segundo a publicidade do filme, é um homem que vale por um exército, e Sem Medo da Morte/The Enforcer (terceiro filme da série de Harry Callahan, dirigido por James Fargo).

Em 1977, estrelou e dirigiu Rota Suicida/The Gauntlet, em que Sondra Locke também atua. Em 1978, trabalhou em apenas um filme — Doido Para Brigar… Louco Para Amar/Every Which Way But Loose, com direção de James Fargo, com a participação de Sondra Locke e da maravilhosa Ruth Gordon. Em 1979, trabalha em um filme, Alcatraz: Fuga Impossível/Escape From Alcatraz.

Começa a década de 80 e ele dirige Bronco Billy/Bronco Billy, filme totalmente diferente dos de sua carreira, passado num show de faroeste, novamente com Sondra Locke, e Punhos de Aço/Any Which Way You Can (direção de Buddy Van Horn, com Sondra Locke, Ruth Gordon e Clyde, um simpático orangotango). Em 1982, dois filmes — dirigiu e estrelou A Raposa de Fogo/Firefox (a música de Maurice Jarre pontua a aventura de um piloto especialmente escolhido pelos órgãos de informação americanos e ingleses para roubar um avião soviético que está anos à frente de tudo o que a OTAN tem em preparação) e Honkytonk Man, A Última Canção/Honkytonk Man/1982.

Neste último filme, Eastwood faz o papel de um cantor de country music, tuberculoso, ao lado do filho Kyle Eastwood. Em 1984, dirigiu, pela primeira vez, um filme da série Harry Callaghan, Impacto Fulminante/Sudden Impact, em que novamente vive a personalidade do inspetor e tem como companhia feminina a atriz Sondra Locke, tudo com a música envolvente e dinâmica de Lalo Schifrin.

Em 1985, foram lançados no Brasil dois filmes seus do ano anterior — Cidade Ardente/City Heat (direção de Richard Benjamin ) e Um Agente na Corda Bamba/Tightrope (direção de Richard Tuggle, com a filha Alison Eastwood), e um de 1985 — O Cavaleiro Solitário/Pale Rider (direção de Clint, FOTO ABAIXO), primeiro faroeste depois de Josey Wales, o Fora-da-Lei. Ainda em 1985, o Museu de Arte Moderna de Nova York fez uma retrospectiva de seus filmes. Em 1968, profundamente absorvido com a produção dos filmes em que trabalhava, Clint Eastwood resolveu fundar a Malpaso Productions. Em Carmel, cidade da Califórnia, é dono de um restaurante muito popular, o Hog’s Breath Inn.

O CAVALEIRO SOLITÁRIO (Pale Rider, 1985 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 28 de junho de 1985

SINOPSE: No Velho Oeste, o inescrupuloso LaHood tenta expulsar os humildes mineradores que exploram uma jazida de ouro da região. Depois de um dos ataques dos homens do vilão, no qual sua cachorrinha foi morta, uma garota reza a Deus por um milagre, que parece chegar na forma de um padre misterioso e rápido no gatilho, que resolve proteger os mineradores explorados.

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SOBRE O FILME: Quando os anos 80 começaram, mesmo considerando que 1980 trouxe Cavalgada dos Proscritos, de Walter Hill, o faroeste de verdade estava praticamente morto como gênero. Mesmo assim, a exata metade da década viu o lançamento de duas obras que, de suas próprias maneiras, tornar-se-iam clássicos: Silverado, um western “limpo” lembrado por seu elenco formado de futuras estrelas do Cinema e O Cavaleiro Solitário, que marca o retorno de Clint Eastwood ao seu tipo mais famoso de personagem, o pistoleiro misterioso, calado e brutalmente eficiente. Uma das maiores bilheterias daquele ano, o filme protagonizado e dirigido por Eastwood pode até não ter sido responsável pelo renascimento do gênero em si, mas é até hoje um filme que mostra muito claramente que o faroeste sempre tem boas histórias para serem contadas.

Mais ainda do que um faroeste elegante e de altíssima categoria, O Cavaleiro Solitário é uma prova cabal de que o uso de clichês não é, por si só, algo ruim como muita gente costuma apregoar. O clichê – ou seja, aquele artifício ou caracterização usada infinitas vezes nas mais variadas obras das mais diferentes naturezas – pode ser a base, a fonte de inspiração para a criação de obras cinematográficas de peso, bastando, para isso, que haja cuidado no roteiro e na direção, além de nas demais peças que fazem uma obra audiovisual funcionar de maneira azeitada. Afinal, o longa de Eastwood é uma sucessão dos mais reconhecíveis clichês possíveis do gênero: o pistoleiro durão, misterioso, invencível e carismático chegando do nada para salvar um grupo de pessoas (Os Sete Samurais está aí para provar que essa base narrativa é imortal), os mineradores oprimidos por uma grande e inescrupulosa corporação, o grupo de pistoleiros contratados para eliminar o “problema” e assim por diante, inclusive duelos sensacionais no meio da rua única das cidades típicas da época, som destacado das esporas quando os pistoleiros caminham e muito “foco Sergio Leone” no rosto encardido dos personagens.

Vou além ainda. Eastwood não usa apenas clichês do gênero faroeste, mas sim, mais especificamente, os clichês que caracterizaram a longeva carreira do cineasta e ator como pistoleiro em faroestes. O misterioso Pastor que aparece em um assentamento minerador depois que a jovem Megan Wheeler (Sydney Penny) pede ajuda divina é, sem tirar nem por, o “Homem Sem Nome” da inesquecível Trilogia dos Dólares protagonizada por Eastwood, com quase os mesmos elementos sobrenaturais que vemos em O Estranho sem Nome, o primeiro longa de faroeste protagonizado e dirigido por Eastwood, tudo isso embalado em uma estrutura que, muito mais do que apenas tangenciar Os Brutos Também Amam, parece homenagear o grande marco do gênero dos anos 50, inclusive repetindo, de sua própria maneira, o icônico final em que Shane vai embora da cidade que “limpou”, apesar dos chamados de uma criança.

O roteiro de Michael Butler e Dennis Shryack é, portanto, uma aula magna de como construir um texto em cima de alicerces de um gênero e, mais especificamente, olhando para o ator principal e usando tudo o que sempre o caracterizou para lapidar tais alicerces. Com isso, o espectador já começa a experiência em um local mental absolutamente confortável e reconhecível, especialmente considerando que, à época, esse filme não só marcaria o retorno de Eastwood ao gênero (de verdade, pois desconsidero, para fins desses comentário, seus faroestes modernos, passados contemporaneamente) desde Josey Wales, o Fora da Lei, quase 10 anos antes, como também seria seu penúltimo filme dessa natureza, já que ele encerraria essa faceta de sua longeva e variadíssima carreira em seu ponto mais alto com o magnífico Os Imperdoáveis, sete anos depois.

Aproveitando-se da fotografia em locação nas montanhas geladas de Idaho e na cidade histórica de Columbia, na Califórnia, a fotografia de Bruce Surtees, que já havia trabalhado com Eastwood como diretor desde O Estranho sem Nome (e antes ainda com Eastwood apenas ator), é essencial para a narrativa evocadora dos clássicos do gênero. As tomadas em planos gerais de uma fronteira selvagem, mas que já começa a sofrer interferência humana funcionam para criar a perfeita oposição entre os mineradores clássicos, que usam o rio, peneiras e muito suor para achar ouro com a mineração industrial comandada pelo inescrupuloso magnata Coy LaHood (Richard Dysart) e seu filho Josh (Chris Penn), algo que marca o começo da obra com o silêncio da natureza sendo interrompido pela cavalgada dos empregados de LaHood para aterrorizar o assentamento.

O lado sobrenatural é, em larga escala, muito bem trabalhado, sem as obviedades de O Estranho sem Nome, mas nem sempre acertando na discrição. Se os tiros nas costas do Pastor já dão um bom sinal sobre quem ele é, a citação bíblica que usei para abrir a presente crítica dita por Megan exatamente na hora em que ele chega ao assentamento exagere um pouco na obviedade, ainda que sem dúvida seja um toque interessante. Mais interessante, ainda, é a forma como o Pastor hipnotiza todos os mineiros com sua valentia primeiro ao salvar Hull Barret (Michael Moriarty) e, depois, ao enfrentar o gigantesco Club (Richard Kiel, o Jaws de 007), especialmente as duas mulheres que vivem sob a proteção de Hull, Sarah (Carrie Snodgress) e sua filha Megan, de 14 anos. Existe uma ousada tensão sexual em relação às duas que o roteiro consegue resolver de maneira muito elegante, com Eastwood usando apenas imagens indiretas que evitam quebrar toda a magia que o filme faz renascer.

O Cavaleiro Solitário é, sem dúvida alguma, um marco tardio do gênero e um bem-vindo retorno de Eastwood ao tipo de personagem que impulsionou sua prolífica carreira. Irresistível do começo ao fim, com soluções narrativas básicas, mas muito eficientes que quase sempre mantém o espectador em sua zona de conforto, o longa é definitivamente a prova de que o faroeste sempre tem excelentes histórias para serem contadas, mesmo quando elas são uma estupenda reunião de diversas outras clássicas histórias.

DIREÇÃO: Clint Eastwood
ROTEIRO: Michael Butler, Dennis Shryack
GÊNERO: Western
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 55min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Preacher
Michael Moriarty … Hull Barret
Carrie Snodgress … Sarah Wheeler
Chris Penn … Josh LaHood
Richard Dysart … Coy LaHood
Sydney Penny … Megan Wheeler
Richard Kiel … Club
Doug McGrath … Spider Conway
John Russell … Stockburn
Charles Hallahan … McGill


CIDADE ARDENTE (City Heat, 1984 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 5 de dezembro de 1984

SINOPSE: EUA, anos 30. Um ex-policial transformado em detetive particular de métodos próprios arma uma intrincada trama para colocar em choque dois poderosos chefões da máfia e vingar a morte de seu parceiro. Mas um velho colega dos tempos de polícia começa a suspeitar de que ele possa estar ajudando os criminosos para tirar proveito da situação e lucrar com negócios ilegais.

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SOBRE O FILME: Existem filmes que, por serem muito bons ou muito ruins, são destinados a serem lembrados para sempre, reservando um lugar de destaque, para o mal ou para o bem, na mente do espectador. Há outros – e que infelizmente não são poucos – que mal registram no radar cinéfilo a não que haja uma razão exógena não relacionada com a obra em si, como a “primeira vez que alguém foi ao cinema” ou “como conheci minha futura esposa”. Essa segunda categoria de filmes, diria, é a pior delas, pois é apenas capaz de causar indiferença e apatia, destinando a obra ao mais completo esquecimento. Chega ao ponto de a classificação acima ser enganosa, pois o filme não é exatamente ruim, nem bom. Ele apenas é…

E, mesmo que contra todas as probabilidades, esta é a situação de Cidade Ardente, um filme que tinha absolutamente tudo para ser lembrado como um marco qualquer, mas que muito provavelmente sequer é lembrado. Mas porque “contra todas as probabilidades”, afinal? A resposta é muito simples: Clint Eastwood e Burt Reynolds, na época de sua produção, eram dois dos mais importantes astros de Hollywood e sua reunião, pela primeira – e que acabou sendo única – vez em tela, em uma longa de época escrito e dirigido por ninguém menos do que Blake Edwards, responsável pela franquia da Pantera Cor-de-Rosa e sucessos como Um Convidado Bem TrapalhãoMulher Nota 10 e Vítor ou Vitória? era como aquele alinhamento astral perfeito que determinava seu sucesso imediato ou, na pior das hipóteses, um fracasso tão retumbante que marcaria a Sétima Arte como o execrado Portão do Paraíso, de 1980.

No entanto, o que acabou chegando às telonas foi um longa dirigido pelo burocrático e sem graça Richard Benjamin, depois que Blake Edwards foi demitido ainda em pré-produção – dizem as más línguas que por pressão de Eastwood – que o levou ao ponto de sequer querer ter seu nome ligado ao filme, substituindo-o por Sam OBrown (S.O.B., sigla de “filho da p%t@” em inglês e também título de seu longa de 1981, o que muito claramente demonstra seus sentimentos com a coisa toda) no roteiro, com direito, ainda, a Burt Reynolds quebrar a mandíbula durante as filmagens, levando à paralisação geral da produção por mais de um mês, seu emagrecimento radical que levou até mesmo a suspeitas sem fundamento de que teria contraído AIDS, legando-o um vício em remédios contra dor que duraria anos. Ou seja, o alinhamento astral que mencionei foi de outra completamente oposta natureza.

Mas o pior nem está nos bastidores, pois esse tipo de celeuma nem é algo tão raro assim na máquina hollywoodiana. O problema do filme é que, muito, mas muito longe de ser “ardente” com seu título dá a entender, está mais para morno, quase frio, como uma daquelas sopas sem gosto servidas em hospitais (e provavelmente em prisões). É o famoso “não fede, nem cheira” com uma história de gângsteres rivais que correm atrás de um MacGuffin de posse de Dehl Swift (Richard Roundtree, mais conhecido por seu icônico Shaft) que acaba envolvendo o vigarista boa vida Mike Murphy (Reynolds), parceiro dele em uma agência falida de detetives e o detetive durão Speer (Eastwood), ex-parceiro, mas agora inimigo de Murphy em uma trama que não sabe muito bem se descamba para o pastelão ou se é apenas um drama leve, que ocasionalmente tenta ser engraçado, falhando fragorosamente.

Em outras palavras, é Reynolds sendo Reynolds e Eastwood sendo Eastwood novamente, com a diferença que não há qualquer química entre eles e que seus personagens são tão genéricos e rasos que sequer conseguimos direito lembrar de seus nomes. Fica muito evidente que tudo é construído ao redor das duas celebridades para que elas brilhem por si só e carreguem o filme nas costas até a linha de chegada, mas que eles não parecem lá muito interessados em entregar performances que sequer possam ser chamadas de divertidas. Muito ao contrário, a dupla está no automático, sem esforço visível para fazer seus respectivos personagens parecem mais do que Reynolds e Eastwood caracterizados com figurinos dos anos 30 atirando e socando todo mundo. Em momento algum há o necessário mergulho na trama, que envolve mortes e sequestros, e em momento algum realmente nos importamos com o que está acontecendo.

E olha que visivelmente houve investimento no design de produção, com uma boa e eficiente recriação da Kansas City durante a Lei Seca em uma atmosfera que a fotografia de Nick McLean faz de tudo para pegar emprestado os cacoetes noir. Mas cenários, por melhores que sejam, sempre serão apenas cenários se a história não desposta como minimamente interessante e, mais ainda, se o elenco atua com a mesma profundidade dramática de bonecos de teste de impacto automobilístico. A conclusão não é que o dinheiro foi bem investido na reconstrução de época, mas sim completamente desperdiçado em um longa que é a encarnação perfeita da mais completa apatia e displicência.

Se pelo menos Cidade Ardente caísse na categoria do “tão ruim que é bom”, o longa teria algo a que poderíamos nos abraçar. Mas não. A produção existe em um limbo em que acompanhamos sem emoção o desenrolar banal da trama e, quando passamos pela experiência, não sentimos nada, seja alegria, tristeza, asco ou irritação. O que fica é o vazio e, claro, o arquivamento da obra na região do cérebro destinada a eliminar memórias que só ocupam espaço, sem ter qualquer outra função maior que isso.

DIREÇÃO: Richard Benjamin
ROTEIRO: Blake Edwards (story), Joseph Stinson
GÊNERO: Ação, Comédia, Crime
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 33min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Lieutenant Speer
Burt Reynolds … Mike Murphy
Jane Alexander … Addy
Madeline Kahn … Caroline Howley
Rip Torn … Primo Pitt
Irene Cara … Ginny Lee
Richard Roundtree … Dehl Swift
Tony Lo Bianco … Leon Coll
William Sanderson … Lonnie Ash
Nicholas Worth … Troy Roker


UM AGENTE NA CORDA BAMBA (Tightrope, 1984 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 17 de agosto de 1984 

SINOPSE: Em Nova Orleans o detetive Wes Block (Clint Eastwood) é colocado no caso de um serial killer que tem como vítimas mulheres jovens e belas, as quais ele estupra e mata. As mortes assumem um caráter pessoal quando o criminoso escolhe pessoas conhecidas de Wes como vítimas, sendo que até mesmo suas filhas estão na mira do assassino. Paralelamente Wes, que é divorciado, se envolve com Beryl Thibodeaux (Geneviève Bujold) e ela também se torna uma provável vítima.

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SOBRE O FILME: Entre 1978 e 1982, Clint Eastwood conseguiu fugir de papeis de pistoleiros ou policiais, fazendo com que seu retorno para a franquia Dirty Harry em 1983, com Impacto Fulminante, tenha sido triunfal. Em Um Agente na Corda Bamba, seu filme seguinte, o ator mais uma vez retornou a viver um policial, mas, desta vez, subvertendo todas as expectativas em um papel não só diferente, mas também em um filme de atmosfera peculiar que se passa em uma cidade incomum em sua filmografia, a suja e escura Nova Orleans. O resultado é um filme marcante, o primeiro de apenas dois dirigidos por Richard Tuggle que, antes, apenas escrevera o roteiro de Alcatraz: Fuga Impossível, mesmo que, segundo consta, Eastwood tenha basicamente tomado o filme para si mesmo.

Seja como for, o primeiro aspecto interessante é como o roteiro investe tempo na construção da personalidade do detetive Wes Block, vivido por Eastwood. É feito um esforço grande para afastar o ator de seu estereótipo clássico, ainda que, claro, Eastwood sempre vá ser Eastwood. O ponto é que, aqui, Block é pai de duas meninas (uma delas, a mais velha, vivida pela filha verdadeira do astro, Alison Eastwood em seu terceiro papel em filmes do pai e primeiro creditado), cuidando delas a maior parte do tempo depois que se separou da esposa e adotando todos os cachorros de rua que elas querem. Alguns podem ver isso como uma maneira forçada de afastar o ator de sua caracterização de durão infalível, mas a verdade é que esse contraste existe com uma função bem definida dentro do próprio filme. Block pode ser um pai maravilhoso durante o dia, mas, à noite, vemos ele sucumbir a sexo cada vez mais pervertido com prostitutas, outro aspecto que torna o longa bem diferente do que acostumamos a ver na filmografia do ator.

Essa dualidade do policial é muito bem explorada pelo roteiro que, logo na abertura, estabelece a existência de um estuprador e assassino em série que, claro, Block precisa investigar. O objetivo, lógico, é tornar a “vida dupla” dele como lenha na fogueira das suspeitas. Seria Block o assassino? Teria ele algum distúrbio mental que vai além de sua predileção por sexo “quente”? Essas perguntas são mantidas sem respostas por boa parte da duração do longa, ainda que o roteiro não queira exatamente escondê-las, apenas mantê-las como possibilidades a serem aos poucos reveladas em um processo lento e que cria dúvida até mesmo em Block sobre o que está afinal acontecendo. Mesmo que alguns possam alegar previsibilidade, essa característica não detrai da progressão do filme sendo, ao contrário, um atestado de que o roteiro realmente funciona e tem lógica interna.

A fotografia de Bruce Surtees (que trabalhou diversas vezes com Eastwood em longas como Perseguidor Implacável e Raposa de Fogo) é um ás na manga da produção. A atmosfera tumultuada, suja e decadente da noite de Nova Orleans é amplificada por um trabalho soberbo que, seguindo a escola dos filmes noir, usa as sombras e a escuridão para envelopar os personagens e suas ações, bombardeando o escuro com fachos de luz coloridas que mais desnorteiam do que clareiam. Assim como a dupla personalidade de Block sendo dividida entre dia e noite, a fotografia emula essa condição amplificando os dois lados. A trilha sonora jazzística de Lennie Niehaus, que começa nesse filme uma prolífica parceria com Eastwood que iria até Gran Torino dá o tom da obra, torna toda a ambientação ainda mais fluida, usando o ritmo da cidade para embalar a ação que, como já disse, não tem pressa em engrenar, mas que mantém um bom ritmo constante e, acima de tudo, o mistério que naturalmente carrega pouco usuais – para Eastwood – elementos de erotismo.

Um Agente na Corda Bamba trafega eficientemente entre dois polos narrativos distintos, entregando um papel bem diferente e complexo a Eastwood que, por seu turno, consegue convencer ao criar fragilidades para esse seu policial que é ao mesmo tempo pai amoroso e um homem com apetite sexual pouco comum. Foi sem dúvida um risco que o ator correu considerando seus papeis-padrão, mas um risco que sem dúvida alguma valeu a pena.

DIREÇÃO: Richard Tuggle
ROTEIRO: Richard Tuggle
GÊNERO: Crime, Mistério, Thriller
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 54min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Wes Block
Geneviève Bujold … Beryl Thibodeaux
Dan Hedaya … Det. Molinari
Alison Eastwood … Amanda Block
Jenny Beck … Penny Block
Marco St. John … Leander Rolfe
Rebecca Perle … Becky Jacklin
Regina Richardson … Sarita
Randi Brooks … Jamie Cory
Jamie Rose … Melanie Silber


IMPACTO FULMINANTE (Sudden Impact, 1983 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 8 de dezembro de 1983 

SINOPSE: Harry Callahan (Clint Eastwood) é um policial de São Francisco que é criticado por seu método, no qual mata diversos criminosos em seu trabalho. Assim é mandado em uma missão na Califórnia, enquanto a situação se acalma. Entretanto lá uma artista, Jennifer Spencer (Sondra Locke) foi atacada sexualmente juntamente com a irmã, que enloqueceu. Assim ela jura vingança e começa a eliminar os homens que a violentaram, fazendo com que Callahan tenha que evitar que ela continue matando.

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SOBRE O FILME: Filme Policial da franquia Dirty Harry. Abordando vários temas relevantes e uma forte critica social contra o sistema judiciário, onde começamos com duas tramas em paralelo, uma com Clint mostrando toda sua insatisfação com os novos tempos,a impunidade das leis, e como seu jeito de agir esta sendo contestado pelos seus superiores, mas ele continua com seu impeto de Vigilante e faz justiça com as próprias mãos.

Na outra trama temos a vingança,onde a vitima volta ao local onde foi abusada por marginais no passado, e começa uma caça de um por um. As duas tramas se encontram e da uma boa elevada na trama,com muita violência e mortes, sem rodeios, onde conseguimos entender as motivações e os traumas causados.

Destaque para a bela atuação de Sandra Locke (Jennifer) e Clint Eastwood ,sendo um Dirty Harry mais sociável em alguns momentos e menos super herói, que até leva umas porradas no filme. Os efeitos sonoros, bem “oitentistas” e que dão um clima de suspense e terror ao filme são um destaque a parte.

Um filmaço ,dirigido e interpretado pelo Clint, que até pode ter seus clichês já vistos nos filmes anteriores da franquia, mas que retrata bem o quanto foi boa esta década de 80 para os filmes do gênero Policial.

DIREÇÃO: Clint Eastwood
ROTEIRO: Harry Julian Fink, Rita M. Fink (characters), Joseph Stinson (screenplay)
GÊNERO: Ação, Crime, Thriller
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 57min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Harry Callahan
Sondra Locke … Jennifer Spencer
Pat Hingle … Chief Jannings
Bradford Dillman … Captain Briggs
Paul Drake … Mick
Audrie Neenan … Ray Parkins
Jack Thibeau … Kruger
Michael Currie … Lt. Donnelly
Albert Popwell … Horace King
Mark Keyloun … Officer Bennett


HONKYTONK MAN, A ÚLTIMA CANÇÃO (Honkytonk Man, 1982 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 1982

SINOPSE: Na década de 30, durante a terrível depressão americana, somente uma coisa era capaz de garantir a sobrevivência de um homem: seus sonhos. Red Stovall, um apaixonado pela música e pelo Whisky, decidiu correr as estradas empoeiradas atrás de uma chance para se tornar um grande cantor country. Junto com seu fiel sobrinho, cuja função era manter longe de problemas, eles seguiram de Oklahoma até Nashville vivendo aventuras e decepções em nome de seus sonhos.

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SOBRE O FILME: A Última Canção (1982) foi o segundo filme de tom fortemente nostálgico e solene dirigido por Clint Eastwood. Em sua experiência anterior nesta seara, com Bronco Billy (1980), ele havia visitado o western por um viés de representação, através do meio artístico. Aqui em Honkytonk Man, a arte novamente se faz presente, mas dessa vez não é o circo e sim a música que serve como guia da história, que se passa nos anos 1930, durante os anos da Grande Depressão.

Clint Eastwood (que aqui trabalha ao lado do filho Kyle) vive Red Stovall, um músico que tem tuberculose e está nas semanas finais de sua vida. A perspectiva da morte aqui é ressaltada pelo roteiro de Clancy Carlile como um caminho para o legado do protagonista, que a seu modo, tenta ensinar música e coisas da vida para o sobrinho, criando um laço improvável, com alguns alguns momentos de explosão emocional do mais velho, mas ainda assim, cheio de amor, cuidado e admiração.

O ponto de partida para o maior contato entre tio e sobrinho se dá a partir de uma tragédia, com uma tempestade de areia que coloca fim à plantação de algodão e força a família a se mudar da fazenda para a Califórnia. O cenário de crise está por todo o lado, tanto no discurso quanto no motivo da mudança, mas apensar disso há um laço muito bonito construído entre esses indivíduos. Como a intenção do roteiro é focar nas aventuras de Red e o jovem Whit na estrada, não há muito desenvolvimento para os outros membros da família, que é representada no molde condizente com a época em que o filme se passa, o que talvez pareça um tanto estranho para alguns espectadores. Isso, porém, é o bastante para criar um amigável cenário e nos fazer sentir o peso das diversas separações que aqui ocorrem.

Dos muitos destinos que o roteiro explora — encaminhando para diferentes lugares os estereótipos das velhas famílias do Oeste –, temos o drama do avô que vive se lembrando de grandes eventos do passado e quer morrer na sua cidade natal; temos o drama da família que, mais uma vez, busca uma “terra dos sonhos” para começar uma nova vida e, de forma paralela, o drama do artista até então itinerante, lembrando consideravelmente o tipo de homem que o cineasta vivera em Bronco Billy, mas dessa vez com muito mais rudeza e preocupação, enfrentando sem medo o seu sabido destino final, ao mesmo tempo que deixa registrado o seu talento e passa adiante aquilo que ele tem de melhor.

As atuações aqui carregam um tom de sofrimento e amor, transmitindo facilmente para o público a linha que costura os destinos dos personagens, pontuando cada revés com uma forte nota de esperança e possibilidade de aventura, primeiro na relação de aprendizado entre tio e sobrinho, e depois, com o encerramento através de uma atmosfera lírica e solene, considerando aquilo que Red deixou no mundo. As músicas escolhidas representam bem esse Universo, fortalecendo a aparência de faroeste letárgico (da chamada “2ª Travessia do Deserto”), dando a oportunidade de Clint Eastwood brilhar em mais uma área, com sua voz surpreendentemente doce e sentimental, e trazendo momentos de pura alegria, aprendizado e sensação de conexão, mostrando o fim da jornada da vida para um homem… e dando a oportunidade de outro formar-se a partir do que ficou, construindo, ele próprio, a sua jornada.

DIREÇÃO: Clint Eastwood
ROTEIRO: Clancy Carlile (novel)
GÊNERO: Comédia, Drama, Música
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 2h 2min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Red Stovall
Kyle Eastwood … Whit
John McIntire … Grandpa
Alexa Kenin … Marlene
Verna Bloom … Emmy
Matt Clark … Virgil
Barry Corbin … Arnspriger
Jerry Hardin … Snuffy
Tim Thomerson … Highway Patrolman
Macon McCalman … Dr. Hines


FIREFOX, RAPOSA DE FOGO (Firefox, 1982 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 18 de junho de 1982 

SINOPSE: Mitchell Gant (Clint Eastwood) é um piloto americano aposentado, que foi abatido e se tornou prisioneiro na Guerra do Vietnã, lhe gerando traumas de guerra. Por ser filho de russos recebe como missão roubar o “Firefox”, o mais avançado caça já fabricado e criado pelos soviéticos. Ele é enviado para a Rússia, mas há um problema: as ordens para comandar a aeronave são dadas por pensamento, mas é necessário que se pense em russo.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Em seus aspectos principais, Raposa de Fogo lembra muito Escalado para Morrer, também dirigido e estrelado por Clint Eastwood. Lá, como aqui, um profissional é retirado da aposentadoria para um serviço que envolve infiltração e espionagem e lá, como aqui, o filme se perde em dois longos terços de enrolação que servem como armação para todo o propósito de sua existência: as respectivas e incomuns sequências finais de ação. Pelo menos Raposa de Fogo consegue manejar um pouco melhor seu começo, sem as bizarrices do filme de escalada de Eastwood, ainda que seu “grande momento” seja inferior aos stunts do ator/diretor na obra de sete anos antes.

Figurinha fácil da televisão aberta brasileira dos anos 80, o longa é baseado no romance homônimo de Craig Thomas de 1977 que, como tantos outros, se beneficia do clima paranoico trazido pela Guerra Fria e de inspiração no episódio real da defecção do piloto Viktor Belenko, que trouxe ao ocidente informações mais detalhadas sobre o MiG-25. No filme, o major Mitchell Gant (Eastwood), piloto durante a Guerra do Vietnã que sofre de transtorno do estresse pós-traumático que o paralisa em momentos de crise e que largou a força aérea para uma aposentadoria idílica no Alasca, é arrancado de seu pequeno paraíso e convocado a roubar um moderníssimo avião soviético que não só consegue chegar a Mach 6, como é invisível ao radar e tem um sistema de armas que funciona com o pensamento do piloto, pensamento esse que, claro, precisa ser em russo, justificando a escolha de Gant apesar de seu distúrbio, já que ele tinha mãe russa e fala a língua com fluência desde o berço.

Começa, então, o treinamento do ex-piloto e a revelação dos detalhes da infiltração, que começa com ele assumindo a identidade de um traficante de drogas americano procurado pela KGB. Durante pelo menos 70 minutos de projeção, o filme é praticamente composto de estratagemas de fuga em plena Moscou, com constante trocas de identidades e um Gant completamente perdido na arte da espionagem, mais parecendo um senhor de idade com Alzheimer tendo que ser lembrado do que precisa fazer a cada segundo, algo que fica ao encargo de Pavel Upenskoy (Warren Clarke), dissidente soviético que odeia a KGB.

O roteiro de Alex Lasker e Wendell Wellman (o primeiro em seu primeiro texto e, o segundo, em seu único) não sabe muito bem o que fazer e investe tempo demais nesse jogo de gato e rato que, porém, carece não só de verossimilhança, como não consegue criar tensão alguma. Eastwood, na direção, também não parece saber construir uma narrativa sólida e deixa o filme correr solto entre perseguições noturnas a pé e de carro e uma infiltração na base soviética que ocorre tão facilmente que chega a ser engraçada. É como se toda a equipe técnica não estivesse muito interessada nos momentos anteriores ao roubo do avião, mas precisava esticar o filme já que o orçamento não permitiria muito tempo de perseguições aéreas.

Quando o grande momento chega – o roubo – ele é completamente anticlimático e mais uma vez cheio de conveniências que cansam um pouco o espectador e fazem gato e sapato da suspensão da descrença. Mas, como em Escalado para Morrer, quando finalmente a ação principal começa, o filme muda quase que completamente. Claro que as peripécias de Eastwood sem dublê no monte Eiger são mais impressionantes do que ele sentado o tempo todo no cockpit de um avião, mas a tecnologia à época inédita usada para fotografar o avião em voo – uma espécie de chroma key invertido – impede aquela impressão visual ruim de objetos destacados do fundo, criando uma razoavelmente perfeita integração (para 1982, claro!).

No entanto, quando a novidade se esgota e o espectador percebe que ainda faltam alguns bons minutos para o longa acabar, fica visível mais uma vez que o roteiro não tinha muita história para contar e Eastwood acaba usando tomada atrás de tomada para mostrar as habilidades do avião, mas que, curiosamente, jamais enfatizam justamente suas características únicas: a hipervelocidade, a invisibilidade a radar e o sistema de armas acionado pelo pensamento. Para começar, Gant permanece voando em velocidade razoavelmente baixa o tempo todo, jamais alcançando o mítico Mach 6. Além disso, a invisibilidade é patética, pois o avião é mantido sob os olhos soviéticos o tempo todo, seja pela assinatura de som e de calor das turbinas, seja usando a tecnologia do “olhômetro” mesmo. Finalmente, as “sensacionais” armas acionadas pelo pensamento não só são mostradas em câmera com Gant falando seu pensamento, o que automaticamente elimina a velocidade com que tudo deveria acontecer, como em momento algum isso é trabalhado como uma vantagem na prática. Já que estamos falando de Rússia, então cabe citar que Eastwood tinha não só uma, mas três “armas de Tchekhov” e ele não usa nenhuma delas corretamente… Pelo menos o transtorno traumático de Gant ganha relevo ao longo do filme, sendo usado em momentos-chave, mas com resolução constantemente simples demais.

Apesar de ter marcado sua época, Raposa de Fogo é um filme que em momento algum faz verdadeiro uso do potencial inato de sua história. Não consegue ser bem sucedido como um filme de espionagem e não consegue ser bem sucedido como filme de ação ou thriller. Ainda tem seus momentos divertidos e as tomadas do avião em voo e, depois, reabastecendo, são bem trabalhadas, mas não muito mais do que isso.

DIREÇÃO: Clint Eastwood
ROTEIRO: Alex Lasker, Wendell Wellman (screenplay), Craig Thomas (novel)
GÊNERO: Ação, Aventura, Thriller
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 2h 16min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Mitchell Gant
Freddie Jones … Kenneth Aubrey
David Huffman … Captain Buckholz
Warren Clarke … Pavel Upenskoy
Ronald Lacey … Semelovsky
Kenneth Colley … Colonel Kontarsky
Klaus Löwitsch … General Vladimirov
Nigel Hawthorne … Pyotr Baranovich
Stefan Schnabel … First Secretary
Thomas Hill … General Brown


PUNHOS DE AÇO: UM LUTADOR DE RUA (Any Which Way You Can, 1980)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 17 de dezembro de 1980 

SINOPSE: Traz novamente Clint Eastwood como o caminhoneiro beberrão e lutador de rua Philo e seu Orangotango Clyde. Philo está ficando cansado. Sua namorada e sua mãe lhe criam problemas. Até mesmo Clyde parece estranho desde que arrumou uma namorada. Ele não quer mais lutar. Mas quando a máfia decide fazer mais um combate, ele não tem como discutir.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Considerando o enorme sucesso de bilheteria de Doido para Brigar… Louco para Amar, uma continuação era mais do que esperada e, dois anos depois, ela veio na forma de Punhos de Aço: Um Lutador de Rua, mais uma vez focado no lutador Philo Beddoe (Clint Eastwood), seu irmão/primo Orville (Geoffrey Lewis) e o orangotango Clyde (C.J. e Buddha), além de sua mãe/tia Zenobia ‘Ma’ Boggs (Ruth Gordon) e, claro, sua paixão Lynn Halsey-Taylor (Sondra Locke). Se o elenco principal retorna intacto (até John Quade como Cholla, líder da gangue de motoqueiros Viúva Negra, está de volta), o mesmo não se pode dizer do diretor e roteirista, já que Buddy Van Horn e o responsável pelo roteiro de Stanford Sherman substituíram James Fargo e Jeremy Joe Kronsberg.

No entanto, as mudanças atrás das câmeras não fizeram bem à franquia que já não era lá nada especial. Marinheiros de primeira viagem em suas respectivas cadeiras, Van Horn (dublê transformado em diretor) e Sherman (este especificamente estreando em roteiro de longa-metragem, pois já havia trabalhado para a televisão) entregam um mais do mesmo pouquíssimo inspirado e inacreditavelmente vazio, com piadas que se resumem a repetições de gags do primeiro filme ou criação de novas que funcionam de maneira simplória da primeira vez e que, depois, são recauchutadas sucessivamente ad nauseam.  E o pior é que muitas delas se resumem a um foco extraordinário em Clyde, o orangotango, com direito a escatologia, desmanche de carros, sexo com símia em cama de motel e, claro, socos e mais socos. Considerando que o primeiro filme tornou-se conhecido também por maus tratos ao símio Manis, que era adestrado na base de chicote e spray de pimenta, na continuação a coisa foi pior ainda, já que um dos dois símios usados para viver Clyde, Buddha, foi espancado por seu treinador até a morte. Em outras palavras, o que já não tinha graça alguma ganha um contorno de brutalidade que azeda de vez a narrativa.

Mas, mesmo “esquecendo” da violência contra animais, o filme não funciona nem com muita boa vontade. A trama é um fiapo de história em que um magnata organizador de lutas seduz financeiramente Philo para enfrentar o campeão de lutas de rua Jack Wilson (William Smith). E só. Ao redor dessa premissa básica, a narrativa se contorce para manter coesão, mas acaba não sendo muito mais do que uma sucessão episódica de gags envolvendo polícia, sequestro, a gangue de motoqueiros, uma amizade improvável de Philo com Jack, a conveniente reunião de Philo com Lynn, que desfaz uma das poucas coisas boas da primeira parte, e uma longa sequência de sexo simultâneo – mas em quartos separados – entre quatro casais que só é engraçada para adolescentes imberbes ou adultos extremamente nostálgicos que não viram o filme recentemente e, portanto, baseiam-se apenas no que lembram quando viram Punhos de Aço como adolescentes imberbes.

O que segura a fita é o carisma usual de Eastwood – que até se pendura em um lustre – e a conexão do ator com o simpático canastrão William Smith (que faria uma ponta como o pai do pequeno Conan em Conan, o Bárbaro, dois anos depois), formando uma boa, mas muito mal aproveitada dupla de amigos/inimigos. Além disso, a esperada sequência final de luta, apesar de a luta em si ser razoavelmente burocrática e desapontadora, contém um surpreendentemente bom exemplo de coreografia de extras, com um verdadeiro exército de gente, incluindo todo o elenco principal, congregando-se ao redor da pancadaria de diversas maneiras diferentes, começando com crianças curiosas olhando pela janela de um celeiro até um milionário literalmente dirigindo um jatinho pelas ruas da cidade. Em termos de proeza técnica, essa é de longe a melhor coisa de todo o filme.

Punhos de Aço: Um Lutador de Rua também fez sucesso na bilheteria, mas consideravelmente menos do que seu antecessor, tendo custado o triplo, realmente mostrando que ele apenas deve seus números – e sua própria existência – ao inexplicável sucesso de Doido para Brigar… Louco para Amar. O bom é que Eastwood certamente percebeu isso e nunca mais voltou a esse seu personagem, evitando, também, que outros símios sofressem maus tratos.

DIREÇÃO: Buddy Van Horn
ROTEIRO: Stanford Sherman, Jeremy Joe Kronsberg (characters)
GÊNERO: Ação, Comédia
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 56min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Philo Beddoe
Sondra Locke … Lynn Halsey-Taylor
Geoffrey Lewis … Orville
William Smith … Jack Wilson
Harry Guardino … James Beekman
Ruth Gordon … Ma
Michael Cavanaugh … Patrick Scarfe
Barry Corbin … Fat Zack
Roy Jenson … Moody
Bill McKinney … Dallas


BRONCO BILLY (Bronco Billy, 1980 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 11 de junho de 1980

SINOPSE: Ex-vendedor de sapatos compra um circo especializado em números do Velho Oeste e se transforma no caubói Bronco Billy, que faz muito sucesso com as crianças. Mas ele tem uma ajudante muito atrapalhada que provoca grandes confusões. O circo mambembe “Bronco Billy’s Wild West Show” viaja pelo interior dos Estados Unidos, apresentando números artísticos de faroeste. O proprietário e a principal atração, Bronco Billy McCoy, “o gatilho mais rápido do Oeste”, está com problemas para conseguir uma assistente. As duas últimas se deram mal na apresentação e abandonaram McCoy. Os demais artistas também estão irritados porque não recebem salários há meses. Em uma parada numa cidadezinha, Bronco conhece a herdeira milionária Antoinette Lilly. Ela foi abandonada pelo marido e encontra-se momentaneamente sem dinheiro. Bronco lhe oferece o cargo de assistente e ela se sai bem. Apesar de mimada e irritada, Lilly aos poucos vai se afeiçoando ao grupo e descobre que nenhum deles é o que aparenta ser no picadeiro: Bronco era um ex-vendedor de sapatos que resolveu montar um show e o artista que se apresenta com laços é um desertor da Guerra do Vietnã, por exemplo. As viagens e os problemas continuam, até que a crise mais grave ocorre quando um incêndio destrói a grande tenda do circo.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Depois de abordar o faroeste através de um plot sobrenatural, mítico, lendário, tendo a vingança como foco em O Estranho sem Nome, e depois de dar a esse foco um outro ângulo, o da maturidade e mudança de perspectiva do mundo em Josey Wales, o Fora da Lei, Clint Eastwood deslocou o Homem do Oeste para o interior dos Estados Unidos e o colocou em um cenário de faz-de-conta, um circo de atrações com temática western, gerenciado pelo “gatilho mais rápido“, o grande Bronco Billy.

Escrito por Dennis Hackin, que um ano antes tinha feito o mesmo exercício satírico com o gênero em Wanda Nevada, de Peter Fonda, Bronco Billy explora a difícil relação entre os personagens vividos por Clint Eastwood e Sondra Locke, ambos muito certos do que querem para suas vidas (ou assim eles pensavam), mas não necessariamente dispostos a ceder um pouco, nem mesmo para permitir que algo muito benéfico para os seus próprios planos entre em cena e torne tudo mais fácil.

O roteiro brinca o tempo inteiro com a atração imitando o Velho Oeste, ao passo que ressalta com muita inteligência o momento do gênero naquele início de década, o momento que segue o apogeu do western clássico e primeiramente passa a representar as “temáticas de decadência ou crepusculares” e termina naquilo que os teóricos do gênero chamam de Era dos Finais Sem Glória, que abarca mais ou menos o período de 1971 a 1980. Todos os personagens aqui possuem um passado que gostariam de esquecer ou ressignificar, e para isso acabam se entregando a uma outra figura, a uma persona que viveu em outro tempo, um tempo que a Amárica ocupada da atualidade já se esquecia e que só uma atração meio brega e nostálgica como esta poderia lembrar.

De certa forma, trata-se de um filme solene. Por mais que o humor tenha uma grande atenção do texto e o romance entre Bronco Billy e Antoinette Lily costure a narrativa, é na amizade dessa família meio maluca e muito fiel onde tudo repousa, e as dificuldades do mundo moderno servem como uma ponte dramática para mostrar o que sobrou e o que se pode reconstruir no presente. Escolhe-se aqui os momentos em que a convivência, o respeito e uma série de outros valores pessoais e familiares eram pedras angulares dos relacionamentos, da vida em sociedade. E a preocupação de Bronco Billy com as crianças mais a forma como ensina a elas tais valores faz dele um elo importante entre as raízes da América e o futuro.

É claro que a visão exposta pelo diretor aqui retira de cena a problematização e críticas àquele mundo. A proposta da obra, no entanto, não é trazer isso à tona. Por ser um filme de memória, de representação de um momento feliz, Eastwood se utilizou muito bem de uma outra forma de arte (o circo), para lidar com arquétipos simpáticos do Velho Oeste, como alguém que se lembra de algumas pessoas (índios, bêbados, desertores, Doutores não autorizados, engraxates, escritores não publicados) e de algumas cenas (briga de saloon, assalto ao trem, reconstrução de um empreendimento após uma grande tragédia, “busca pelo ouro”) com um grande carinho e um sorriso no rosto.

Um espetáculo que consegue nos encantar com grande facilidade, e mesmo que não acerte em todos os tons e em todas as escolhas para ligar o mundo moderno ao passado recriado, logra fazer desse material uma ótima sátira. Nem que se restrinja apenas ao imaginário, à farsa que vive na estrada, contando histórias de outros tempos de cidade em cidade, certos períodos históricos, modos de vida e comportamentos de um povo jamais morrerão.

DIREÇÃO: Clint Eastwood
ROTEIRO: Dennis Hackin
GÊNERO: Ação, Aventura, Comédia
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 56min
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ELENCO PRINCIPAL:
Clint Eastwood … Bronco Billy
Sondra Locke … Antoinette Lily
Geoffrey Lewis … John Arlington
Scatman Crothers … Doc Lynch
Bill McKinney … Lefty LeBow
Sam Bottoms … Leonard James
Dan Vadis … Chief Big Eagle
Sierra Pecheur … Lorraine Running Water
Walter Barnes … Sheriff Dix
Woodrow Parfrey … Dr. Canterbury


Fontes de Pesquisa/Textos: IMDb, Filmow, Plano Crítico.

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