TRILOGIA DE BILL DOUGLAS

Bill Douglas é quase uma lenda entre os cineastas britânicos. Lindsay Anderson considerou-o “poeta do cinema britânico”, enquanto que o crítico Philip French considerou a sua trilogia como “uma das obras mais heroicas do cinema britânico”. Mas quem é Bill Douglas? Apesar de algumas pessoas já terem ouvido falar no seu nome, poucas eram as que tinham visto os seus filmes. Pelo menos até ao lançamento do DVD pelo British Film Institute. Os seus filmes marcavam-se por uma série de características: sempre mostrados em preto e branco (embora tenham sido filmados a cores), com atores amadores e um estilo visual austero (usando câmera estática, takes longos, e sem trilha sonora musical). Como os títulos sugerem, os filmes são baseados na educação de Douglas na cidade mineira de Newcraighall, nos anos depois da Segunda Guerra Mundial, e é uma história sobre pobreza e infelicidade. Em 1940, Newcraighall era um lugar desolado e azedo, mas esta era a visão de Douglas desde a sua infância (no filme ele chama-se Jamie), e também uma visão muito pessimista da classe trabalhadora escocesa.

“My Childhood” (1972) apresenta-nos a vida solitária e carente de Jamie, quando ele vive com a sua avó e o primo Tommy sendo obrigado e defender-se sozinho. Encontra uma figura paterna num prisioneiro de guerra alemão, que logo desaparece quando a guerra acaba. Bill Douglas teve oportunidade de começar a fazer a trilogia quando Mamoun Hassan, o chefe do Conselho de Produção do BFI, leu um argumento inicial para “My Childhood” e ficou surpreendido com o que encontrou. O realizador e crítico Lindsay Anderson também ficou muito impressionado, e aconselhou Douglas a continuar com o seu projeto, e ao conseguir apoio e financiamento do BFI o projeto de Douglas começou. Os filmes foram feitos com um orçamento bastante reduzido, e um elenco constituído principalmente por atores amadores. Bill conheceu Stephen Archibald (Jamie) e Hughie Restorick (Tommy) num encontro casual num estacionamento, e Stephen Archibald  interpretaria o seu personagem até o fim da trilogia.

Por vezes, os momentos mais comoventes da trilogia são quando a dureza da realidade dão lugar a raros exemplos de alegria e bondade. Em “My Childhood” Jamie despeja água fervendo numa caneca e antes de a recolocar no lugar passa para as mãos da avó para a aquecer. Em “My Ain Folk” os potes de geleia tornam-se o tesouro mais valioso, pois podem ser trocados por bilhetes de cinema. Em “My Way Home” Robert implora a Jamie que se “entusiasme” e “esteja vivo”, dando a Jamie o primeiro momento de esperança para o futuro.

Com poucos diálogos e poucos movimentos de câmera, os filmes da trilogia foram muitas vezes comparados com os do cinema mudo, e o próprio Bill foi o primeiro a explicar que as suas obras não tinham uma “narrativa convencional”, mas sim uma “narrativa emocional”. Sobre o tema de “My Ain Folk” ele explica que o filme não é, em primeiro lugar, uma questão de compreensão…mas uma questão de sentimento. Para que o filme tenha sucesso, a narrativa emocional deve vir em primeiro lugar.”  A trilogia recebeu muitos elogios quando da estreia e diversos prêmios de cinema pelo mundo fora, e tornou-se numa obra de culto.

MINHA INFÂNCIA (My Childhood, 1972 – UK)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 27 de agosto de 1972

SINOPSE: Primeira parte da influente trilogia de Bill Douglas que remete à sua miserável infância na Escócia dos anos 40. Sua única fuga foi o cinema, ele pagou esse filme com o dinheiro que conseguiu vendendo potes de geléia. No primeiro dos três, ele conta a história de sua vida enquanto criança de oito anos de idade, vivendo na penúria com seu meio-irmão e avó doente em um pobre vilarejo de mineração.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Uma pequena obra-prima do cinema. Um dos filmes mais doloridos que já assisti. “Minha Infância” do diretor Bill Douglas. Putz! Não tem nem o que falar. O filme é inspirado nas memórias do diretor e para conseguir realizá-lo, ele vendeu potes de geleia durante um tempo. Mas nem é preciso saber de nada disso, pq tá tudo lá. Impresso. Marcado a ferro e fogo. Em brasa. Ardendo. Queimando. Naqueles dois meninos. Naquela miséria. Ausência de tudo. Afeto. Comida. Passado. Presente. Futuro. Tudo faltou. Falhou. Deu errado. A vida come a vida. Espanta-se o narrador de “A Hora da Estrela” lá pelo finalzinho do livro. Também eu me esqueci desse detalhe. E assombrou-me diante da verdade inexorável desse filme. Não chorei. Nenhuma gota de lágrima caiu de meus olhos. Não consegui. Só restou-me o espanto. O assombro. Como pode um filme ser tão desgraçado e ainda sim exalar uma poética toda própria e desvelar nossa própria humanidade perdida? Não sei. Juro que não sei. “Minha infância” é a primeira parte de uma trilogia. Vou assistir os dois próximos filmes urgentemente. Quero saber o que acontecerá com Jamie e seu meio-irmão. Ficará complicado abandonar esses dois essa noite. Como esquecer o olhar de pura melancolia e desamparo do ator mirim Stephen Archibald? Impossível.

DIREÇÃO: Bill Douglas
ROTEIRO: Bill Douglas
GÊNERO: Biografia, Drama
ORIGEM: UK
DURAÇÃO: 46min
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ELENCO PRINCIPAL:
Stephen Archibald … Jamie
Hughie Restorick … Tommy
Jean Taylor Smith … Grandmother
Karl Fieseler … Helmuth
Bernard McKenna … Tommy’s Father
Paul Kermack … Jamie’s Father
Helena Gloag … Father’s Mother
Ann Smith … Jamie’s Mother
Eileen McCallum … Nurse
Helen Rae … Bus Conductress
James Eccles … Man Singing


MEU PRÓPRIO POVO (My Ain Folk, 1973 – UK)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 6 de dezembro de 1973

SINOPSE: No segundo filme da trilogia, acompanhamos a vida de Jamie com seu pai e avó paterna. Acossado e reprimido, sua vida prossegue de forma melancólica e incerta.

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SOBRE O FILME: O filme tem um certo tom de neo-realismo italiano, e algumas vezes pode até nos lembrar de Kes, do Ken Loach, ou de alguns recursos de um certo cinema independente inglês. Mas acontece que Douglas é mais radical: a forma lírica e dura como esse espaço físico entra no filme e a precariedade dos recursos do 16mm entram em total harmonia com o clima de incomunicabilidade e solidão presentes em todo o filme. Além disso, é impressionante a forma simples e expressiva como Jamie é interpretado por Stephen Archibald, o que enche todo o filme de um sentimento indizível.

DIREÇÃO: Bill Douglas
ROTEIRO: Bill Douglas
GÊNERO: Biografia, Drama
ORIGEM: UK
DURAÇÃO: 55min
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ELENCO PRINCIPAL:
Stephen Archibald … Jamie
Hughie Restorick … Tommy
Jean Taylor Smith … Grandmother
Bernard McKenna … Tommy’s Father
Mr. Munro … Jamie’s Grandad
Paul Kermack … Jamie’s Father
Helena Gloag … Father’s Mother
Jessie Combe … Father’s Wife
William Carroll … Father’s Son
Anne McLeod … Father’s Girlfriend
Robert Hendry … Soldier
Miss Cameron … Schoolteacher
John Downie … Undertaker


MEU CAMINHO PARA CASA (My Way Home, 1978 – UK)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 19 de setembro de 1978

SINOPSE: Na terceira e última parte da trilogia, Jamie sai do internato e tenta convencer a família de que quer ser um artista. Visto com desprezo, ele acaba indo para o exército, onde encontra um amigo que o influenciará para o resto da vida, figura muito importante para o amadurecimento de Jamie.

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SOBRE O FILME:  A narrativa é contida nas suas possibilidades melodramáticas pela austeridade do diretor, com planos de câmera parada, silêncios expressivos (apesar de, em geral, o filme não ter muitos tempos largos) e pela enorme expressividade das locações, que compõem todo um mundo que fala tanto ou mais que os personagens. É nesse espaço indizível (i.e atraves de uma mise-en-scene) entre esse espaço físico e emocional dos personagens que Bill Douglas reflete de forma simples mas bastante comovente e contundente toda a sua vida, todo o seu sentimento em relação ao absurdo que é para uma criança sobreviver.

Mas a trilogia de Bill Douglas não é um cântico de lamentação sobre a vida. Sua maturidade está em observar as contradições dos personagens (o pai de Tommy, o desequilíbrio da avó de Jamie em My Ain Folk, etc.). Na consciência dessa dificuldade está a possibilidade de sobrevivência de Jamie que, na última parte da trilogia, está justamente na possibilidade da amizade e na arte, no processo de criação.

O que nos faz lembrar no final que, após tudo isso, Bill Douglas pegou sua experiência de vida e, de forma simples, transformou isso num filme: um dos filmes mais humanos e honestos sobre a infância que eu já presenciei no cinema.

DIREÇÃO: Bill Douglas
ROTEIRO: Bill Douglas
GÊNERO: Biografia, Drama
ORIGEM: UK
DURAÇÃO: 1h 11min
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ELENCO PRINCIPAL:
Stephen Archibald … Jamie
Paul Kermack … Jamie’s father
Jessie Combe … Father’s wife
William Carrol … Their son, Archie
Morag McNee … Father’s girl friend
Lennox Milne … Grandmother
Gerald James … Mr. Bridge
Andrew … Boy in home
John Young … Shop assistant
Ian Spowart … Schoolboy
Sheila Scott … Foster mother
Rebecca Haddick … Salvation Army woman
Archie … Down and out
Joseph Blatchley … Robert
Radir … Egyptian boy


Fontes de Pesquisa/Textos: IMDb, Filmow, My Two Thousand Movies, Cine Casulofilia.

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