O Silêncio do Mar (1949)

O SILÊNCIO DO MAR (Le Silence de la Mer, 1949 – França)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 22 de Abril de 1949

SINOPSE: 1941. Numa pequena vila francesa, à época da dominação alemã, um oficial desse país, o Tenente Werner (Vernon), recusa o castelo que lhe foi oferecido, e prefere ocupar um cômodo na casa de um senhor de meia-idade (Robain), que divide a morada com sua jovem e bela sobrinha (Stéphane). Tio e sobrinha decidem ignorar Werner, que desfia longos monólogos sem que nenhum dos dois reaja verbalmente. Amante da cultura francesa, Werner se sente em desvantagem quando o grupo de oficiais alemães afirma que a dominação sobre a França se dará igualmente pela cultura, não mais permitindo obras literárias de autores franceses. Quando chega sua hora de partir, Werner se despede à véspera. Na manhã de sua partida, há um trecho de Anatole France selecionado pelo dono da casa que faz referência a necessária desobediência de ordens criminosas. Werner reflete por um momento, mas segue adiante.

Assista o filme clicando no player acima. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Esse longa de estreia de Melville se trata de uma adaptação primorosamente pouco ortodoxa em termos de um enfrentamento com o texto escrito talvez mais próximo do universo de Bresson (Diário de um Pároco de Aldeia lhe é praticamente contemporâneo) que das banais ilustrações cinematográficas da literatura que eram a tônica dominante do cinema francês do período. Sua recusa do drama convencional se dá pelo voltar-se contra o uso do recurso fácil dos diálogos. Os três maiores dínamos expressivos do filme são os monólogos de Werner, a narração over do tio e, em menor intensidade, a própria decupagem, com os raros primeiros planos da sobrinha traduzindo sua inquietação com a partida de Werner. A voz over, aliás, traz uma tônica mais de crônica do cotidiano que possibilita respiros para os monólogos desabusadamente literários. Se o tratamento do oficial alemão nazista, numa época em que relativamente poucas ficções sequer ousavam se deter sobre traumas tão recentes é grandemente incomum em sua complexidade, o filme tampouco se dobra a concessões sentimentais, ao contrastar o discurso de Werner com sua decisão final, desfazendo qualquer idealismo apressado tão a gosto de um cinema que abordou temas similares por um viés de longe mais convencional (Um Canto de Esperança, A Lista de Schindler para se citar apenas dois exemplos). Ou seja, há uma alma de apreciador do humanismo, que é apaixonado pela literatura e pelo pensamento francês, assim como da música alemã, executando inclusive uma tocata de Bach, mas essa não obnubila motivações práticas e o seu lugar dentro de uma instituição, a militar, em um momento histórico muito preciso.

Cultura e barbárie andam juntas com Werner, numa quase exemplificação de que não são necessariamente contraditórias – o oficial alemão chega a comentar sobre o quão etérea, desumana e impessoal é a música de Bach, em uma das melhores ocasiões para se perceber que estamos longe do lugar-comum e até mesmo da apropriação predominante que grandes nomes do cinema fizeram de temas do compositor (a exemplo de Tarkovski). Se a ausência de diálogos e quase inexistência de situações dramáticas ressaltam e agudizam o pequeno movimento nessa direção ao final, a modéstia de sua produção faz o uso de uma iluminação limitada, comandada pela estreia igualmente do longevo fotógrafo Decaë, e uso de locações que, juntamente com a recusa dos apelos dramáticos convencionais, fascinaria os futuros realizadores da Nouvelle Vague (Godard, por exemplo, em seu filme de estreia, Acossado, chama Melville para uma ponta). Se o silêncio pode ser observado numa dimensão tanto literal quanto alegórica, a ausência de nomes aos personagens de tio e sobrinha talvez sejam um reforço desnecessário ao alegórico.

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DIREÇÃO: Jean-Pierre Melville
ROTEIRO: Vercors (conto), Jean-Pierre Melville (adaptação)
GÊNERO: Drama, Guerra, Romance
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 1h 27min
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ELENCO PRINCIPAL:
Howard Vernon … Werner von Ebrennac
Nicole Stéphane … A sobrinha
Jean-Marie Robain … O tio
Ami Aaröe … Noiva de Werner
Georges Patrix … L’ordonnance
Denis Sadier … L’ami


Fontes de Pesquisa/Textos: IMDb, Filmow, Cine Players Magia do Real (Cid Vasconcelos).

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