O Direito de Matar (1950)

O DIREITO DE MATAR (Justice Est Faite, 1950 – FRANÇA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 20 de Setembro de 1950

SINOPSE: Elsa está sendo julgada no tribunal de justiça de Versailles por eutanásia, depois de matar seu marido em estado terminal. Os sete jurados têm que responder a uma pergunta essencial: ela o matou para aliviar o sofrimento dele, como ela diz, ou por interesse pessoal, tendo se apaixonado por outro homem?

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Digitalizado pela Gaumont, com uma qualidade invejável, este filme nos leva à cinematografia de 1950 e nos surpreende com o alto nível de discussão, àquela época, sobre dois temas ainda muito atuais: a eutanásia e os percalços nefastos de como é feita a justiça. Construído com diálogos primorosos e precisos, assim como cortes de cena impecáveis, até seria um filme dos nossos dias caso o linguajar, os modos e as cores fossem os atuais.

Feita a justiça ao filme, cabe mencionar que o título no Brasil – O Direito de Matar – trai, de forma candente, a ignorância da instância que o escolheu, pois da mensagem do que ele traz, nada entendeu. Porém, com isso, essa instância ganhou participação especial, fazendo o papel de mais um jurado mergulhado em preconceitos.

Após a morte do diretor André Cayatte em 1989, o jornal Le Monde, ao discorrer sobre o legado do cineasta, publicou: “Todo o seu trabalho é um longo apelo para que a justiça seja mais humana, seguindo menos cegamente regras e ritos que às vezes a tornam impiedosa, senão inepta”. Com “O Direito de Matar”, ganhador do Leão de Ouro em Veneza e do Urso de Ouro em Berlim, dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica mundial, Cayatte conquistava suas maiores glórias da carreira e consolidava o tal viés jurídico-humanitário de sua filmografia, identificado perfeitamente pelo jornal francês. Fazer qualquer tipo de análise sobre a obra sete décadas após o seu lançamento leva à óbvia constatação que o filme envelheceu e perdeu um pouco de sua atratividade, mas isso tem explicação: hoje em dia, suas temáticas já se encontram exaustivamente abordadas, para não dizer exauridas, pela sétima arte, pois foram exibidas em filmes que alcançaram sucesso absoluto e conquistaram premiações importantíssimas, como por exemplo, “Mar Adentro” (2004) e “Menina de Ouro” (2004), sobre eutanásia, e “12 Homens e Uma Sentença” (1957), sobre júri e julgamento. Entretanto, é inquestionável que o filme possui qualidades suficientes para figurar no rol de melhores filmes sobre tais assuntos. Segue abaixo uma breve análise sobre o ousado e profundo filme em tela.

Já começo com uma observação: há duas revelações bombásticas que jogam contra a ré no tribunal e podem interferir na percepção dos jurados sobre o caso apresentado. Vou omiti-las desta análise para não dar spoillers e não estragar as surpresas do espectador/leitor.

Um homem pede que sua companheira o mate por não querer definhar até o fim pela sua doença incurável. Trata-se de uma narrativa controversa por natureza, assim como as leis que discorrem sobre eutanásia ao redor do mundo, que apresentam diferenciações entre um país e outro. Todos temos que convir que é um assunto espinhoso, que causa polêmica pela simples presença em qualquer contexto – e não é diferente em uma obra cinematográfica. E para potencializar a polêmica, há as tais duas revelações citadas mais acima, que colocam em xeque a nobreza, a misericórdia e até o amor identificados no ato de Elsa. Portanto, “O Direito de Matar” possui diversas variáveis a serem consideradas e lança mão de uma abordagem original e pertinente para contar a sua história, quando poderia facilmente percorrer simplesmente um caminho padrão e recorrente. Cayatte manipula o significado da palavra justiça através do desnudamento das vidas dos sete jurados, deixando até os aspectos legais em segundo plano, pois confronta a todo momento um dos atributos mais importantes do conceito, a imparcialidade. Como se pode depreender pela observação dos personagens, há um esforço para deslegitimar a letra fria da lei, e transformar o ato de fazer justiça em um produto de convicções pessoais e experiências de vida, no intuito de mostrar que sua implementação denota os mais variados graus de discricionariedade. Não se pode considerar que a narrativa é utópica, afinal há as chamadas brechas legais em qualquer conjunto normativo, que abrem espaço para interpretações distintas sobre um mesmo assunto. No entanto, julgar motivações é sempre algo discricionário, pois emana da mente de uma pessoa, o julgador, mesmo havendo regras em lei que tipificam certa ação como criminosa ou não. É bom salientar que a eutanásia sempre foi considerada como crime até os dias de hoje na França, mas, para todos os efeitos, como mostrado no filme, fazer uma justiça “completa” significa simplesmente e friamente uma absolvição ou uma condenação com a consideração de atenuantes ou não.

De certa forma, o filme trata da fraqueza do sistema de júri na França, mesmo com a ré, Elsa, apresentando-se resignada ao longo de todo o julgamento, como se aceitasse qualquer punição que por ventura lhe fosse imposta. Um exemplo bem claro dessa fraqueza é mostrado após o resultado do julgamento, quando um dos jurados recebe uma notícia que o faria mudar seu voto – e, com essa mudança, o veredito teria sido outro (achei um tanto quanto forçada essa cena, mas é relevante). Considero que o debate profundo sobre a vida dos jurados, e não sobre a vida da ré – como qualquer espectador poderia esperar -, faz o filme funcionar perfeitamente bem por manter sempre em evidência uma série de dilemas morais. E funciona mais ainda por introduzir a variável que mais mexe com qualquer público, o amor, cuja identificação da sinceridade no contexto poderia representar a diferença entre a absolvição ou a condenação de Elsa.

O desfecho é propositalmente um tanto quanto “aberto”, a despeito de exibir um veredito objetivo, para coadunar com tudo o que foi semeado durante o filme. Pessoalmente, achei impecável, pois coloca a justiça com um nível perfeito de abstração, sem considerar, por exemplo, o sentido padrão da palavra que é normalmente considerado pelo cidadão comum, que denota sempre como objetivo da justiça condenações severas e até a pena de morte, como era o caso para os supostos crimes cometidos por Elsa. Justiça é justiça, e, independentemente de qualquer coisa, após um julgamento regido pela legislação vigente, ela está meramente feita, consumada, estabelecida – e ponto final. Assim proclama “O Direito de Matar” – péssima “tradução” do título original, diga-se de passagem.

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DIREÇÃO: André Cayatte
ROTEIRO: André Cayatte(screenplay), Charles Spaak(dialogue)
GÊNERO: Drama, Mistério
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 1h 45min
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ELENCO PRINCIPAL:
Michel Auclair … Serge Cremer
Antoine Balpêtré … Le président du tribunal
Raymond Bussières … Félix Noblet – le 5ème juré
Jacques Castelot … Gilbert de Montesson – le 1er juré
Jean Debucourt … Michel Caudron – le 7ème juré
Jean-Pierre Grenier … Jean-Luc Flavier – le 3ème juré
Claude Nollier … Elsa Lundenstein
Marcel Pérès … Évariste Nicolas Malingré – le 2ème juré
Noël Roquevert … Le commandant en retraite Théodore Andrieux – le 6ème juré
Valentine Tessier … Marceline Micoulin – le 4ème juré


Fontes de Pesquisa/Textos: IMDb, Filmow, Cineminha Zumbacana (Adriano Zumba).

2 comentários

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