COMO OS ZUMBIS MUDARAM O CINEMA

Zumbis parecem ser o frenesi da atualidade. Nada de errado com isso. Trata-se de um processo natural que ocorre com os subgêneros do terror a cada década ou duas. Nos anos 1970 e 1980 era o gênero slasher – em que um assassino sai matando um a um determinado grupo de pessoas. Nos anos 1980 e 1990 os filmes de monstro ressuscitaram sua popularidade da era de ouro do cinema, agora com conteúdo mais explícito e abusando dos maravilhosos efeitos práticos da época. No início dos anos 2000, o diretor Wes Craven reviveu o subgênero que ajudou a criar e, com “Pânico” (1999), tornou o slasher popular novamente.

Hoje os zumbis estão em alta, influenciados em grande parte pela inconstante série de televisão The Walking Dead (baseada nas incríveis HQs de Robert Kirkman) e por games como Resident Evil e filmes como “Madrugada dos Mortos” (2004) e “Zumbilândia” (2009). O que nem todos sabem é o que o gênero começou por acaso, em um pequeno filme independente que mudou a história do cinema.

A NOITE DOS MORTOS VIVOS

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Em 1968,o diretor George A. Romero dirigiu, escreveu e custeou do próprio bolso, ao lado de inúmeros colaboradores, seu primeiro filme “A Noite dos Mortos-Vivos”. A trama, de abordagem e conteúdo inusitado para a época, trazia um casal de irmãos que ia ao cemitério visitar o túmulo de seu pai e acabava sendo atacado por uma criatura meio-homem, meio-defunto. O que aconteceu a seguir é uma luta pela sobrevivência que acaba extrapolando a briga com o sobrenatural e criando uma discussão sobre a própria natureza humana. Uma analogia interessante, nunca aferida diretamente por Romero, mas nem por isso menos válida, é com os movimentos pelos direitos civis que aconteciam nos EUA à época. Em uma decisão inusitada tanto para o período quanto o gênero, o diretor escalou um ator negro, Duane Jones, para ser o protagonista da fita. Ver um negro inteligente e ponderado discutir com um pai de família branco e intempestivo em meio a noticiários dizendo que o país foi tomado por uma onda de atentados criminosos encheu de relevância social o que muitos acharam ser um filme de monstros bobinho. Para enfatizar ainda mais essa interpretação, o ativista Martin Luther King ainda foi morto a tiros em um atentado pouco antes da estreia do filme, deixando ainda mais tênue a relação ficção/realidade – e quem conhece o destino do personagem de Jones sabe do que estou falando.

Interessante que uma produção independente, barata, em preto e branco – décadas depois da popularização do cinema colorido – e sem nenhum nome conhecido, tenha sido responsável pelo que hoje se convenciona como zumbi. Claro que criaturas de características similares já existiam antes na sétima arte, vide “Zumbi Branco” (1932), com Bela Lugosi, e é possível encontrar raízes até no sonâmbulo do clássico expressionista “O Gabinete do Doutor Caligari” (1920), mas nunca antes retratados como uma praga de devoradores de carne humana. Outra convenção clássica, criada por Romero ao lado do roteirista John Russo, foi a maneira de destruir os mortos-vivos. Enquanto desenvolviam o script, a dupla percebeu que as criaturas precisavam de um ponto fraco, assim como os lobisomens tem a bala de prata e os vampiros a estaca de madeira. Jocosamente, Russo sugeriu que eles fossem mortos ao se atirar tortas em suas caras – o que inspirou a famosa cena do subsequente “O Despertar dos Mortos” (1978). Segundo Romero, foi que isto deu a idéia, apresentada ao final do filme, de que os mortos-vivos só podem ser mortos se acertados fortemente na cabeça, seja com um tiro ou um golpe, e que faz parte do cânone do gênero até hoje.

Mas “A Noite dos Mortos Vivos” é muito mais do que a gênese dos zumbis, é uma peça fundamental para entender a evolução do terror no cinema. Antes disso, o terror vivia uma era de descrédito, nunca tendo provado de grande aprovação crítica, e boa parte dos cineastas ainda se prendia às convenções góticas provenientes do expressionismo alemão nos anos 1920, que acabou gerando o film noir e o ciclo de terror da Universal nos EUA. Mesmo as coloridas e viscerais fitas da Hammer Studios, que faziam sucesso na época, ainda se prendiam ao teatralismo e à hierarquia de estúdio predominantes na era muda.

Mas isso mudou com “A Noite dos Mortos Vivos”. Fazendo uso de um estilo mais documental, Romero deu um tom mais realista à ameaça que persegue Ben, Barbra e companhia. Outra mudança foi a ausência de uma introdução que estabeleça o perigo que os personagens corre. Os personagens são atacados já na primeira cena, sem qualquer explicação de por que os mortos estão voltando à vida. É verdade que durante o filme as reportagens na TV dão a entender que isso pode estar relacionado com uma sonda trazida de Vênus, mas a verdade nunca é esclarecida. “A Noite dos Mortos Vivos” é uma obra que não se explica, que não se preocupa com convenções e que não se importa com a resposta do público. E é isso que faz dela tão relevante, independente de ter criaturas comedoras de gente ou não.



Texto elaborado por Stefano P., jornalista de formação, roteirista e cineasta amador.

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