UM DOMINGO COM KUROSAWA

Um conto sobre esperança e as desilusões da vida no arrasado Japão pós-guerra. Antes do sucesso absoluto com fitas samurai como “Rashomon” (1950) e “Os Sete Samurais” (1954), o mestre Akira Kurosawa já capturava a essência do povo oriental em filmes de menor orçamento, com histórias simplistas e cotidianas.

Em “Um Domingo Maravilhoso” (1947) – “Subarashiki Nichiyôbi”, no original – acompanhamos um jovem casal de namorados durante o único dia da semana em que se encontram: o domingo. Yuzo (Isao Numasaki) é um ex-soldado que vive assolado por sua própria instabilidade financeira, castigado pelo fato de que não tem sequer dinheiro para aproveitar o dia com a namorada. Já Masako (Chieko Nakakita), é uma garota esperançosa, que gosta de fazer planos para o futuro e tenta, de toda maneira, tirar Yuzo da depressão – tanto financeira quanto sentimental.

Assista o filme clicando no player acima. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

Driblando a censura do governo norte-americano, que tomou controle da mídia japonesa após sua vitória na Segunda Guerra Mundial, Kurosawa aborda de maneira realista e tenra as fragilidades da classe trabalhadora e as angústias, sociais e culturais, desta reprimida geração de jovens. Para viabilizar a produção, o diretor seguiu as recomendações dos censores que demandavam que o novo cinema nipônico mostrasse os veteranos de guerra sendo reintegrados na sociedade. Mas numa manobra esperta, Kurosawa fez de Yuzo um herói impotente, incapaz de encontrar novas oportunidades fora do campo de batalha.

A trama segue os dois protagonistas, com apenas 35 yenes somados no bolso, tentando ajustar seu apertado orçamento às atividades que planejam para seu domingo. Enquanto o casal cogita alugar um apartamento juntos ou tenta ir a um concerto, o dia se torna uma montanha russa de emoções, onde cada gota de alegria é rechaçada por uma tempestade de realidade.

E quando finalmente o arrasado Yuzo está para perceber que, na realidade, tudo que necessita para ser feliz é a companhia de sua amada Masako, seu esforço definitivo para ver a vida desta forma se torna um grande desafio.

Ao se deparar com um anfiteatro abandonado, o rapaz decide dar um salto de fé fingindo liderar uma orquestra invisível, tendo a namorada como única audiência. No entanto, a sua incapacidade de ouvir a música acaba devolvendo-o ao mundo frio e ventoso que a sociedade lhe impôs. Ao final, numa tentativa desesperada de ressuscitar a esperança de Yuzo, a jovem Masako apela para as cadeiras vazias, pedindo que o aplaudam para que ele acredite no impossível. Numa jogada inusitada de Korusawa, a moça acaba quebrando a quarta parede da ficção, dirigindo seu suplício ao próprio público e pedindo que mesmo em suas poltronas de cinema os espectadores acreditem no futuro do casal e iniciem uma rodada de aplausos – um gesto bonito e ousado do diretor.

Isto não é dizer que este é um filme perfeito. O ritmo da produção é um pouco lento e a história tão cotidiana que pode soar banal, então, basicamente, tem de se estar no humor certo para assistir “Um Domingo Maravilhoso”. No entanto, a direção consegue preencher todos os vazios possíveis com seu trabalho de câmera e a força de seus personagens. Como na cena final do filme, tão simples e poderosa, fica claro que o esperançoso Akira Kurosawa é o verdadeiro maestro, driblando adversidades culturais e conduzindo nossas emoções como uma orquestra invisível – mesmo para aqueles que não consigam vê-la. E, nesse caso, o aplauso é mais do que merecido.


Texto elaborado por Stefano P., jornalista de formação, roteirista e cineasta amador.

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