JAMES STEWART (1908-1997) | Galeria de Estrelas

Alto, magro, com um modo de falar lento e hesitante, James Stewart foi um dos astros mais queridos pelos fãs de Cinema do mundo inteiro. Ele teve a sorte de trabalhar com vários diretores de primeira linha – Clarence Brown, Henry King, William Wellman, John Cromwell, Frank Borzage, George Stevens, Ernst Lubitsch, George Cukor, Otto Preminger, Billy Wilder, John Ford, Robert Aldrich -, destacando-se, particularmente, as colaborações com Frank Capra nos anos 30/40 e Anthony Mann e Alfred Hitchcock na década seguinte, quando sua reputação artística e popularidade atingiram o auge. Na fase inicial de sua carreira cinematográfica, criou a imagem de jovem tímido, desajeitado, de caráter íntegro e idealista; principalmente depois do encontro com Mann e Hitchcock, seus personagens passaram a irradiar força, tenacidade, angústia e uma boa dose de cinismo. Em todos os papéis, soube comunicar as emoções com naturalidade, como se não fizesse o menor esforço para interpretá-los, conquistando a admiração do público que sempre o respeitou como um dos maiores atores da tela.

James Maitland Stewart nasceu a 20 de maio de 1908, em Indiana, Pennsylvania, Estados Unidos, filho de Alexander Maitland e Bessie Jackson. Após cursar a Mercersburg Academy, formou-se arquiteto pela Universidade de Princenton, mas logo ao receber o diploma, em 1932, rumou para West Falmouth, Massachussetts, e, seguindo sua verdadeira vocação, uniu-se a Joshua Logan no grupo teatral University Players, onde também estiveram os amigos Henry Fonda e Margaret Sullavan. Nos anos posteriores, ele subiu ao palco interpretando modestos papéis e, depois de ser reprovado num teste para a Fox, Hedda Hopper o recomendou à Metro, com a qual firmou um contrato, em 1935, de 350 dólares semanais.

James Stewart em The Murder Man (1935).

No seu filme de estréia em Culver City, ENTRE A HONRA E A LEI (The Murder Man, 1935), dir.: Tim Whelan, thriller policial estrelado por Spencer Tracy, fez um repórter, e, no ano seguinte, o irmão de Jeanette MacDonald, foragido da justiça, em Rose Marie (Rose Marie, 1936), dir.: W. S. Van Dyke, segunda opereta do estúdio reunindo a cantora e Nelson Eddy. Emprestado à Universal, a pedido de Margaret Sullavan, para o drama romântico Amemos Outra Vez (Next Time We Love, 1936), dir.: Edward H. Griffith, tomou novamente os traços de um jornalista, merecendo da Time este comentário: “Stewart é natural, espontâneo e, de um modo geral, excelente”.

James Stewart e Jean Harlow em Wife vs. Secretary (1936).

A prova de fogo aconteceu mesmo na comédia CIÚMES (Wife Vs. Secretary, 1936), dir.: Clarence Brown, em que contracenou com Clark Gable, Jean Harlow e Myrna Loy. Gable era um editor casado com Myrna e Harlow sua secretária. Stewart, num papel comparativamente pequeno, como o noivo de Harlow, conseguiu chamar tanta atenção quanto os três campeões de bilheteria da MGM. Noutra fita do mesmo ano, Garota do Interior (Small Town Girl), dirigido por William A. Wellman, envolvido num triângulo amoroso com Janet Gaynor e Robert Taylor, ele se impôs mais uma vez ao lado de grandes astros, ganhando a oportunidade de encabeçar o elenco de uma produção classe B, VOLANTE CICLONE (Speed, 1936), com direção de Edwin L. Marin, como um piloto de provas.

Speed é um filme de ação da Metro-Goldwyn-Mayer de 1936, estrelado por James Stewart em seu primeiro papel como protagonista, e Wendy Barrie.

Retornando ao cast de apoio, foi um dos admiradores de Joan Crawford em Mulher Sublime (The Gorgeous Hussy, 1936), de Clarence Brown, drama histórico-biográfico sobre o escândalo do Presidente Andrew Jackson (Lionel Barrymore) com a garçonete Peggy Eaton. A participação no musical NASCI PARA DANÇAR (Born to Dance, 1936), de Roy Del Ruth, com score de Cole Porter e tap-dancing de Eleanor Powell, compensou mais. Numa cena, o marujo James Stewart entoava “Easy to Love” com razoável afinação, mas o melhor número vinha no final, quando, tendo como pano de fundo um encouraçado de teatro de revista, Frances Langford cantava “Swinging the Jinx Away” e Eleanor sapateava como nunca.

Frances Langford, Buddy Ebsen, Eleanor Powell, James Stewart, Una Merkel e Sid Silvers, em Born to Dance, 1936.

Animada com o êxito de Nasci Para Dançar, a MGM resolveu utilizar Stewart em papéis mais diversificados. No seu último filme de 1936, A Comédia dos Acusados/After the Thin Man (dir.: W. S. Van Dyke), segundo exemplar da série inaugurada com A Ceia dos Acusados/The Thin Man, Elissa Landi e outros suspeitos poderiam ter cometido um assassinato mas, no desfecho, o casal de detetives amadores (William Powell e Myrna Loy) descobre o verdadeiro criminoso: James Stewart.

Já em Sétimo Céu/Seventh Heaven/1937 (dir.: Henry King), refilmagem pela Fox do clássico silencioso com Janet Gaynor e Charles Farrell, colocaram-no (em substituição a Tyrone Power) como varredor de ruas parisiense ao lado da francea Simone Simon, autêntico miscasting. No melodrama criminal O ÚLTIMO GÂNGSTER/The Last Gangster/1937 (dir.: Edward Ludwig), ele volta a ser jornalista (de bigodinho), secundado por Edward G. Robinson e Rose Stradner (foto acima), e em Juventude Violenta/Navy Blue and Gold (dir.: Sam Wood) forma com Robert Young e Tom Brown um trio de inseparáveis aspirantes à Marinha, treinando no time de futebol de Annapolis.

James Stewart, Beulah Bondi, e Walter Huston em Of Human Hearts (1938).

Somente em INGRATIDÃO/Of Human Hearts/1938 (dir.: Clarence Brown) Stewart teve melhor incumbência. Pintura consistente da América rural do século dezenove, com esplêndida foto em exteriores de Clyde de Vinna, a fita mostra-o como filho de um pregador religioso (Walter Huston), que se torna cirurgião durante a Guerra Civil, esquece as raízes e afinal se redime graças a um sermão de… Abraham Lincoln (John Carradine).

VIVACIOUS LADY – 1938. Com Ginger Rogers.

A qualidade dos filmes do ator continuou a melhorar com QUE PAPAI NÃO SAIBA/Vivacious Lady/1938 (dir.: George Stevens), no qual encarna um professor de botânica que se casa com uma cantora de boate (Ginger Rogers) e tenta convencer o pai, professor catedrático (Charles Coburn), e a mãe, hipocondríaca (Beulah Bondi), de que sua noiva é uma boa garota. O diretor Stevens fez a seguinte observação a respeito dele: “Seu segredo é talento. Stewart carrega absoluta convicção em todas as cenas”.

Depois de demonstrar aptidão para a comédia, exercitou sua veia dramática em O ÚLTIMO BEIJO/The Shopworn Angel/1938 (dir.: H. C. Potter), refilmagem de uma fita com Gary Cooper e Nancy Carroll, assumindo as feições de um vaqueiro do Texas que se alista em 1917 e se enamora de uma atriz (Margaret Sullavan). Esta tem um caso com seu empresário (Walter Pidgeon) mas concorda em casar com o rapaz na véspera de sua partida para a frente de batalha. Os dois trocam correspondência e ele vem a ser morto pouco antes do armistício. Os desempenhos de Stewart e Sullavan comoviam o público, enquanto o especialista Slavko Vorkapich providenciava um montage sensasional de cenas da Primeira Guerra.

James Stewart, Jean Arthur, Dorothy Babb, Gloria Browne, Roland Dupree, Joe Geil, e Marion C. Rotolo em You Can’t Take It with You (1938).

Veio então o primeiro dos três filmes com Frank Capra, DO MUNDO NADA SE LEVA/You Can’t Take it With You/1938, comédia na linha clássica do cineasta, iniciando a colaboração preciosa na carreira do astro. O filme, roteirizado por Robert Riskin a partir da peça de George S. Kaufman e Moss Hart, focaliza uma família amalucada, os Vanderhoss, cuja filha (Jean Arthur) se apaixona pelo filho de um milionário (James Stewart), acontecendo deliciosas confusões e a “recuperação” do ricaço para os prazeres simples da vida. Alguém resumiu assim sua atuação: “Hoje em dia nenhum ator consegue aparecer na tela com mais naturalidade que Mr. Stewart”. Do Mundo Nada se Leva obteve o Oscar de melhor filme e direção.

Antes de rodar novamente com Capra, vieram três fitas. Em NASCIDA PARA CASAR/Made for Each Other/1939 (dir.: John Cromwell), produção independente de David O. Selzinick, ele e Carole Lombard passam da comédia ao drama como dois jovens que se casam, têm um filho, enfrentam problemas domésticos, se separam e tornam a se unir quando a criança corre risco de vida (foto acima).

Em Folia no Gelo/Ice Follies of 1939/1939 (dir.: Reinhold Schunzell), musical rotineiro da Metro, ele e Joan Crawford dão uma de artistas da patinação; e em QUE MUNDO MARAVILHOSO/It’s a Wonderful World/1939 (dir.: W. S. Van Dyke), gostosa comédia no espírito screwball então em voga, com roteiro de Ben Hecht, ele de detetive e Claudette Colbert de poetisa seguem a pista de um criminoso e caem nos braços um do outro. Van Dyke sintetizou o charme do galã com duas palavras: “invulgarmente comum”.

Capra convocou-o à Columbia para A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington/1939, fantasia política a um tempo corrosiva e comovente. O cineasta pretendia usar Gary Cooper no papel do idealista Senador em cruzada contra a corrupção, mas ele já tinha um compromisso. Stewart o substituiu e, ao lado de Jean Arthur, expressou admiravelmente as virtudes do bom moço americano, atingindo excepcional eloqüência nas cenas finais, quando discursa por horas a fio, recebendo sua primeira indicação ao Oscar (ganho pelo Robert Donat de Adeus Mr. Chips/Goodbye Mr. Chips) e o prêmio dos Críticos de Nova York. Em 1977, convidado a recriar o papel de Claude Rains na refilmagem modernizada, Billy Jack Goes to Washington, dirigida e interpretada por Tom Laughlin, não aceitou e Pat O’Brian pegou a vaga.

Marlene Dietrich e James Stewart em Destry Rides Again (1939).

Na sua estréia no faroeste, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA/Destry Rides Again/1939 (dir.: George Marshall), refilmagem pela Universal de uma fita de Tom Mix de 1923, baseada na novela de Max Brand, Stewart é o xerife desarmado e filósofo chamado a “limpar” uma cidade. Western satírico de ritmo trepidante, marcou uma saudável mudança de gênero para Marlene Dietrich, que canta naquele seu modo inconfundível e se engalfinha com Una Merkel numa das mais memoráveis brigas de mulheres no Cinema.

James Stewart, Ernst Lubitsch, e Margaret Sullavan em The Shop Around the Corner (1940)

Em A LOJA DA ESQUINA/The Shop Around the Corner/1940 (dir.: Ernst Lubitsch), comédia sentimental com o célebre toque do genial cineasta berlinense, Stewart e Margaret Sullavan conseguem, apesar de tipicamente americanos, se passar muito bem por empregados de uma loja de Budapeste. Logo depois, ambos se encontrariam pela quarta e última vez em Tempestades d’Alma/The Mortal Storm/1940, propaganda antinazista, conjugada com um terno romance, visualizada com a sensibilidade habitual de Frank Borzage.

A Vida é Uma Comédia/No Time for Comedy/1940 (dir.: William Keighley), rodado na Warner, com roteiro dos irmãos Julius J. e Philip G. Epstein, extraído da peça de S. N. Behrman, reuniu Stewart e Rosalind Russel como um teatrólogo e a atriz com quem se casa, repetindo nas telas os papéis defendidos nos palcos da Broadway por Laurence Olivier e Katherine Cornell. No mesmo ano, o ator conseguiria outro triunfo através do enorme sucesso de Núpcias de Escândalo/The Philadelphia Story (dir.: George Cukor).

Com Katharine Hepburn em The Philadelphia Story.

A princípio visto como um veículo aos talentos de Katherine Hepburn (que estrelara, secundada por Joseph Cotten e Van Heflin, a peça de Philip Barry), acabou rendendo a Stewart o Oscar por sua interpretação como um colunista de mexericos imiscuindo-se nas desavenças matrimoniais de milionários. Em 1956, na refilmagem musical Alta Sociedade/High Society (dir.: Charles Walters), Frank Sinatra herdou o papel, enquanto Grace Kelly e Bing Crosby retomavam os de Hepburn e Cary Grant.

Ironicamente os três filmes que se seguiram ao Oscar não lhe proporcionaram oportunidades à altura. Na comédia Perde-se um Marido/Come Live With Me/1941 (dir.: Clarence Brown), Stewart é um escritor que se casa com a imigrante austríaca Hedy Lamarr a fim de garantir a permanência da moça na América. No musical Ouro do Céus/Pot O’Gold/1941 (dir.: George Marshall), toca harmônica, interessa-se por Paulette Goddard e tenta levar a orquestra de Horace Heidt para o programa de rádio do tio. Em O Mundo é um Teatro/Ziegfeld Girl/1941 (dir.: Robert Z. Leonard), também musical, com doses maiores de drama e luxo, namora Lana Turner, perdendo-a no final para Ian Hunter.

Brig. Gen. James M. Stewart.

A 22 de março de 1941, Stewart foi o primeiro astro de Hollywood a se alistar. Desde a infância tinha entusiasmo pela aviação e, assim, ingressou na Força Aérea. Cumprindo cerca de 25 missões sobre a Alemanha, como piloto de bombardeiro, chegou até o posto de Coronel e, em 1959, o Senado aprovaria sua promoção a General-brigadeiro da reserva.

Finda a guerra, seu contrato com a MGM expirara, e Stewart preferiu não renová-lo, alinhando-se na Liberty Films, a companhia independente formada por Frank Capra, George Stevens, William Wyler e Samuel Briskin. O projeto inicial (e único concluído pela Liberty), A FELICIDADE NÃO SE COMPRA/It’s a Wonderful Life, assinala o derradeiro encontro com Frank Capra, que retomava em grande estilo a atmosfera das famosas fitas da época do New Deal de Roosevelt. Como o homem simples cujo suicídio é evitado pela ação de um anjo, Stewart esteve formidável, ganhando uma indicação ao Oscar (conferido ao Fredric March de Os Melhores Anos de Nossa Vida/The Best Years of Our Lives).

James Stewart e Donna Reed em It’s a Wonderful Life (1946).

Seu filme subseqüente, Cidade Encantada/Magic Town/1947, embora dirigido por William Wellman, tem algo a ver com as comédias populistas de Capra (inclusive o roteitista Robert Riskin), recheada por bons momentos de sátira social. Stewart é um pesquisador de opinião pública e Jane Wyman uma editora de jornal que se apaixonam, enquanto brigam.

Construído como filme em episódios, A Miracle Can Happen, depois reintitulado On Our Merry Way/1948 (no Brasil, NO NOSSO ALEGRE CAMINHO ; dir.: King Vidor e Leslie Fenton), mobilizou um elenco de caras conhecidas: Paulette Goddard, Burgess Meredith, Fred MacMurray, além de Charles Laughton, cuja participação foi eliminada na sala de montagem. No esquete de Stewart (escrito por John O’Hara e, ao que consta, dirigido, sem crédito, por George Stevens e John Huston, ele tinha a chane de contracenar com o velho amigo Henry Fonda.

A essa altura, Hollywood voltava-se para fitas realistas, como Sublime Devoção/Call Northside 777/1948 (dir.: Henry Hatthaway). Absorvente drama criminal, narrado no estilo semindocumentário da escola de Louis de Rochemont, traz Stewart como um repórter que luta incansavelmente para inocentar um homem (Richard Conte) cumprindo 11 anos. À medida que a personalidade do ator amadurecia na tela, diversificavam-se os papéis, como prova o professor de filosofia cujos alunos (Farley Granger e John Dall) levam a sério suas teorias sobre a superioridade de alguns homens, no experimental clautrofóbico e macabro thriller FESTIM DIABÓLICO/Rope/1948, de Alfred Hitchcock, com quem faria alguns de seus melhores filmes nos anos 50.

James Stewart, John Dall, e Farley Granger em Rope (1948).

Enquanto isto, em A Conquista da Felicidade/You Gotta Stay Happy/1948, comédia dirigida por H. C. Potter, ele vivia um ex-piloto militar metido em transporte de carga e com uma rica herdeira (Joan Fontaine), e na biografia esportiva Sangue de Campeão/The Stratton Story/1949 (dir.: Sam Wood), entrando no lugar de Van Johnson, personificava Monty Stratton, o jogador de beisebol acidentado em 1938 que, apoiado pela esposa (June Allyson), retornava aos estádios. Por essa época, ao completar 41 anos, Stewart casou com Gloria Hatrich McLean, acolhendo os dois filhos da esposa e tendo com ela as gêmeas Kelly e Judy, mantendo o matrimônio indissolúvel até hoje.

Depois de Malaia/Malaya (dir: Richard Thorpe), sua última fita de 1949, onde surgiu como um correspondente de guerra auxiliando o ex-sentenciado Spencer Tracy a roubar borracha dos japoneses, Stewart irrompe a década de 50 com WINCHESTER 73/Winchester 73, clássico western contendo todos os ingredientes do gênero. Ele marca o momento mais importante da sua carreira no período, pois a partir daí o astro começa a receber participação nos lucros de seus filmes, precipitando a dissolução do tradicional sistema de contratos de trabalho de atores dos poderosos estúdios e inicia uma frutuosa colaboração com o diretor Anthony Mann.

James Stewart em The Man from Laramie (1955).

Incluídos no total de oito produções com o cineasta, estão outro quatro faroestes soberbos: E o Sangue Semeou a Terra/Bend of the River/1952, O Preço de um Homem/The Naked Spur/1953, Região do Ódio/The Far Country/1955 e UM CERTO CAPITÃO LOCKHART/The Man From Laramie/1955 (seu preferido do lote Mann), em que sobressaem a perfeição da mise-en-scène, a beleza das composições plásticas e a densidade humana dos personagens. Transportado para violentas situações de western nas quais é sempre um solitário em busca de vingança ou redenção. Stewart troca os ingênuos bons-moços por homens amargurados, raivosos, dotados de forte determinação, obsessivos mesmo, cujos nomes permanecem inesquecíveis: Lin McAdam, Glynn McLyntock, Howard Kemp, Jeff Webster e Will Lockhart.

James Stewart em Harvey (1950).

Entretanto, após Winchester 73, antes de realizar outro filmes com Mann, Stewart participou de Flechas de Fogo/Broken Arrow/1950 (dir.: Delmer Daves), ótimo western tratando o índio por um ângulo simpático; Radiomania/The Jackpot/1950 (dir.: Walter Lang), divertida comédia sobre as atribulações de um ganhador de prêmios em programa de rádio; MEU AMIGO HARVEY/Harvey/1950 (dir.: Henry Koster), versão da peça de Mary C. Chase; Na Estrada do Céu/No Highway in the Sky/1951 (dir.: Henry Koster), adaptação de uma novela de Nevil Shute, como um matemático alarmado com a segurança do avião a bordo do qual ele e Marlene Dietrich se encontram; O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA/The Greatest Show on Earth/1952 (dir.: Cecil B. de Mille), superprodução em ambiente de circo, como um médico que se disfarça de palhaço para escapar da justiça por ter cometido eutanásia.

James Stewart em The Greatest Show on Earth (1952).

Destes, o mais significativo, do ponto de vista de interpretação, é Meu Amigo Harvey, que lhe valeu outra indicação ao Oscar (ganho por José Ferrer de Cyrano de Bergerec). Stewart substituíra Frank Fay nos nos palcos da Broadway e recria na tela o papel de Elwood P. Dowd, o excêntrico amigo de um gigantesco coelho invisível. Em 1970 e 1975, ele voltaria a viver Dowd no teatro e, em 1972, na televisão.

Os outros filmes com Anthony Mann são: Borrasca/Thunder Bay/1953, aventura nos campos de petróleo da Louisiania; Música e Lágrimas/The Glenn Miller Strory/1954, fluente cinebiografia do famoso band-leader, e Comandos do Ar/Strategic Air Command/1955, propaganda militar com boas cenas aéreas coloridas, os dois últimos ao lado de June Allyson. Entre um e outro, estrelou Dupla Redenção/Carbine Williams/1952 (dir.: James Thorpe), sobre o prisioneiro inventor da carabina adotada pelas tropas dos Estados Unidos na Segunda Guerra.

E A JANELA INDISCRETA/Rear Window/1954, novo desafio técnico de unidade espacial vencido por mestre Hitchcock, com Grace Kelly e Thelma Ritter como companheiras de espionagem caleidoscópica do protagonista. Sob as ordens de Hitchcock, ele faria também O Homem Que Sabia Demais/The Man Who Knew Too Much/1956, refilmagem do thriller inglês de 1934, e UM CORPO QUE CAI/Vertigo/1958, obra-prima do cineasta, na qual teve uma de suas melhores atuações como “Scottie” Ferguson, o detetive acrófobo em delírio romântico por Kim Novak (substituindo Vera Miles), acompanhado pelos acordes fantásticos de Bernard Hermann.

Kim Novak e James Stewart em Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)

Ainda nos anos 50, Stewart foi cogitado, com Grace Kelly, para Teu Nome é Mulher/Designing Woman/1957, mas, quando a atriz se afastou do Cinema, Gregory Peck e Lauren Bacall entraram nos seus lugares. Filmou, ainda, A Águia Solitária/The Spirit of St. Louis/1957 (dir.: Billy Wilder), crônica acerca do vôo épico de Charles Lindbergh; A Passagem da Noite/Night Passage/1957 (dir.: James Neilson, substituindo Anthony Mann), faroeste com desfecho agitado, co-estrelado por Audie Murphy; Sortilégio do Amor/Bell, Book and Candle/1958 (dir.: Richard Quine), comédia sobre feitiçaria, valorizada pela inventida fotografia do craque James Wong Howe; Anatomia de um Crime/Anatomy of a Murder/1959 (dir.: Otto Preminger), ácido drama de tribunal com cenas ousadas para a época, que lhe deu a quinta indicação ao Oscar (perdido para o Charlton Heston de Ben-Hur), o prêmio de melhor ator em Veneza e o dos críticos de Nova York, e A História do FBI/The FBI Story (dir.: Mervyn LeRoy), publicidade biográfica do Federal Bureau of Investigation.

A década de 60 reservaria a Stewart a satisfação do encontro com um dos seus diretores favoritos, John Ford. Os três filmes que fizeram juntos se encaixam perfeitamente no clima de desilusão presente à fase final da extensa filmografia do cineasta. Em Terra Bruta/Two Rode Together/1961, Stewart é um xerife pago para localizar crianças brancas sequestradas por índios; em O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA/The Man Who Shot Liberty Valance/1962, um senador cuja carreira se deve a uma fama injusta, e em Crepúsculo de Uma Raça/Cheyenne Autumn/1964, um Wyatt Earp bem diferente do usual. A colaboração fordiana permitiu a Stewart desenvolver uma das linhas da sua persona, o cinismo.

James Stewart em The Flight of the Phoenix (1965).

O restante do decênio é dividido entre os westerns A Conquista do Oeste/How the West Was Won/1963 (episódio de Henry Hathaway), Shenandoah, o Vale Heróico/Shenandoah/1965, Raça Brava/The Rare Breed/1966, O Preço de um Homem/Bandolero!/1968 (os três de Andrew V. McLaglen) e O Último Tiro/Firecreek/1968 (dir.: Vincent McEveety); as comédias familiares As Férias do Papai/Mr. Hobbs Takes a Vacation/1962 (prêmio de melhor ator no Festival de Berlim), Papai Não Sabe Nada/Take her She’s Mine/1963 e Minha Querida Brigitte/Dear Brigitte/1965 (todas de Henry Koster) e os dramas O Homem Que Destrói/The Mountain Road/1960 (dir.: Daniel Mann) e O Vôo do Fênix/The Flight of the Phoenix/1966 (dir.: Robert Aldrich). Com excessão de Shenandoah (um sólido faroeste) e O Vôo do Fênix (atraente abordagem de um grupo de sobreviventes de um desastre aéreo), todos de nível artístico apenas razoável.

A partir dos anos 70, Stewart espaçou bastante suas intervenções cinematográficas, dedicando-se também às séries de tevê Jimmy Stewart Show/1971-72 e Hawkins/1973-74. Um momento marcante foi a homenagem ao amigo John Wayne em O Último Pistoleiro/The Shootist (dir.: Don Siegel), a despedida deste outro gigante das telas, como o médico que diagnostica o câncer do herói, numa cena pungente, por motivos óbvios. Outro encontro nostálgico aconteceu em Right of Way/1983 (dir.: George Schaefer), confeccionado para tevê a cabo, em que figura, pela primeira vez, ao lado de Bette Davis.

A 28 de fevereiro de 1980, o American Film Institute conferiu-lhe o Life Achievement Award (foto abaixo). Um dos critérios para se agraciar um ator com este prêmio é que a sua obra tenha sido “testada pelo tempo”. Com uma carreira se prolongando há mais de 50 anos, a maioria dos quais como grande astro, pode-se dizer que James Stewart passou muito bem no teste.

FIEVEL VAI PARA O OESTE (An American Tail: Fievel Goes West, 1991 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 22 de novembro de 1991

SINOPSE: A família do ratinho Fievel está triste, vivendo numa casinha humilde, sendo perseguida pelos gatos que os maltratavam na Europa. Fievel sonha em ser um destemido xerife como seu herói Wylie Burp. Surge, então, um gato trapaceiro que usando um ratinho marionete convence a família a ir para o Velho Oeste. Todos partem, mas entre tiroteios, cowboys e eletrizantes cavalgadas, Fievel descobre que o plano do gato vigarista é transformar toda a família em ratobúrgueres.

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SOBRE O FILME: Mais divertido e ousado que o primeiro filme. Toda desenhada à mão, essa sequência tem um ritmo mais ágil e um estilo mais descolado. Adoro as cenas mostrando as movimentações e interações dos ratos “figurantes”, que contém vários detalhes engraçados. O gato Tigre está hilário, principalmente nas cenas em que é treinado por Wylie Burp.

Apesar de não ter atingido tanto sucesso quanto a música “Somewhere Out There” do primeiro filme, “Dreams to Dream” recebeu uma indicação ao Globo de Ouro. As duas canções são interpretadas por Linda Ronstadt. “Fievel Goes West” foi a primeira produção da Amblimation, extinto estúdio criado por Steven Spielberg.

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Phil Nibbelink, Simon Wells
ROTEIRO: Flint Dille (screenplay), Charles Swenson (story), David Kirschner
GÊNERO: Animação, Aventura, Família
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 15min
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ELENCO PRINCIPAL:
Phillip Glasser … Fievel (voice)
James Stewart … Wylie (voice)
Erica Yohn … Mama (voice)
Cathy Cavadini … Tanya (voice)
Nehemiah Persoff … Papa (voice)
Dom DeLuise … Tiger (voice)
Amy Irving … Miss Kitty (voice)
John Cleese … Cat R. Waul (voice)
Jon Lovitz … Chula (voice)


North and South, Book II (1986 – TV Mini Series)
Miles Colbert


Direito de Morrer (1983 – TV Movie)
Teddy Dwyer


Mr. Krueger’s Christmas (1980 – TV Movie)
Mr. Krueger


Afurika monogatari (1980)
Old Man


General Electric’s All-Star Anniversary (1978 – TV Special documentary)
Mark Twain


A MAGIA DE LASSIE (The Magic of Lassie, 1978 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 2 de agosto de 1978

SINOPSE: Lassie está tentando achar o caminho de casa. Ela terá que correr todo o caminho de Colorado para a Califórnia. Seu amado dono está procurando por ela também. Um milionário implacável reivindica o cão pequeno adorável que vive feliz em um vinhedo de Califórnia com um homem idoso que tome de seus dois netos órfãos. Quando o empresário poderoso consegue levar Lassie para o Colorado, uma das crianças embarca em uma viagem em busca do cão. Enquanto isso, Lassie também escapou e tenta chegar em casa. Ambos vão viver aventuras arriscadas e conhecer personagens extraordinários.

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FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Don Chaffey
ROTEIRO: Robert B. Sherman, Richard M. Sherman (story), Jean Holloway (screenplay)
GÊNERO: Drama, Família, Musical
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 40min
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ELENCO PRINCIPAL:
Mickey Rooney … Gus
Pernell Roberts … Jamison
Stephanie Zimbalist … Kelly Mitchell
Michael Sharrett … Chris Mitchell
Alice Faye … The Waitress (Alice)
Gene Evans … Sheriff Andrews
James Stewart … Clovis Mitchell
Mike Mazurki … Apollo
Robert Lussier … Finch
Lane Davies … Allan Fogerty


A ARTE DE MATAR (The Big Sleep, 1978 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 13 de março de 1978

SINOPSE: Detetive particular americano grisalho na Inglaterra investiga um caso complicado de chantagem que se transformou em assassinato envolvendo um rico mas honesto idoso, suas duas filhas socialites soltas, um pornógrafo e um gângster.

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SOBRE O FILME: Escrito e dirigido pelo cineasta Michael Winner, “A Arte de Matar” é um filme produzido em 1978 pelas empresas ITC Entertainment e Winkast Film Productions. Na direção,  Winner realiza um trabalho apenas razoável. Aliás, na área técnica, o que mais me chamou atenção foi a fotografia assinada por Robert Paynter. No elenco, o maior destaque foi Richard Boone, no papel de Lash Canino, seguido pelas boas atuações de Harry Andrews e Joan Collins. Enfim,  “A Arte de Matar” é um filme bem inferior à primeira versão, a cargo de Howard Hawks, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall, que no Brasil recebeu o nome de “À Beira do Abismo”.

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Michael Winner
ROTEIRO: Michael Winner (screenplay), Raymond Chandler (novel)
GÊNERO: Crime, Drama, Mistério
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 39min
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ELENCO PRINCIPAL:
Robert Mitchum … Philip Marlowe
Sarah Miles … Charlotte Sternwood
Richard Boone … Lash Canino
Candy Clark … Camilla Sternwood
Joan Collins … Agnes Lozelle
Edward Fox … Joe Brody
John Mills … Inspector Carson
James Stewart … Gen. Sternwood
Oliver Reed … Eddie Mars
Harry Andrews … Norris


Laugh-In (1978 – TV Series)
Guest Performer


AEROPORTO 77 (Airport ’77, 1977 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 11 de março de 1977

SINOPSE: Em uma viagem para Palm Beach, onde vai inaugurar um museu composto de peças da sua coleção particular, Philip Stevens (James Stewart), um magnata, transporta em seu jumbo sua coleção de arte, tendo seus amigos como convidados. Mas um desastre provocado por seqüestradores faz o avião cair no mar.

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SOBRE O FILME: Aqui a franquia “Aeroporto” começa a afundar – literalmente. A fórmula do desastre aéreo já se encontra desgastada e as cenas do resgate no fundo do mar, ainda que bem filmadas, causam mais tédio do que tensão. Nomes como Jack Lemmon, Olivia de Havilland, Christopher Lee e James Stewart chamam a atenção, bem como George Kennedy que funciona como o elo de ligação entre este filme e os demais da série. Mas nem o elenco estelar consegue mudar o fato de seus personagens serem tão desinteressantes a ponto de sua sobrevivência ser completamente irrelevante para o espectador.

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Jerry Jameson
ROTEIRO: Arthur Hailey (novel “Airport”), Michael Scheff, David Spector (screenplay)
GÊNERO: Ação, Drama, Thriller
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 54min
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ELENCO PRINCIPAL:
Jack Lemmon … Don Gallagher
Lee Grant … Karen Wallace
Brenda Vaccaro … Eve Clayton
Joseph Cotten … Nicholas St. Downs III
Olivia de Havilland … Emily Livingston
Darren McGavin … Stan Buchek
Christopher Lee … Martin Wallace
George Kennedy … Joe Patroni
James Stewart … Philip Stevens
Robert Foxworth … Chambers
Robert Hooks …Eddie
Monte Markham … Banker


O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 21 de Julho de 1976

SINOPSE: J.B. Brooks, talvez o pistoleiro mais famoso do oeste, abre mão de sua vida de fora-da-lei e de seus métodos cruéis e se estabelece na pacata Carson City, pois sabe que está gravemente doente. Entretanto, a cidadezinha está sendo aterrorizada por bandidos, fazendo com que o pistoleiro volte a pegar em armas, desta vez por uma boa causa, mesmo que seja a última vez.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: É praticamente impossível, para um apreciador do western, desgostar de O Último Pistoleiro. Don Siegel, que à época já havia nos trazido os clássicos Vampiros de Almas e Perseguidor Implacável (Dirty Harry), realiza uma verdadeira homenagem ao gênero do faroeste e um de seus maiores ícones, John Wayne. A obra, além do teor dramático de sua narrativa, ganha um caráter ainda mais melancólico e, é claro, histórico – este foi o último trabalho de Wayne, que morreria apenas três anos depois, em 1979, graças ao câncer em seu estômago, condição que o seu personagem deste filme compartilha.

Esse tom que beira a retrospectiva já se faz visivelmente presente nos minutos iniciais da projeção. Somos contados, rapidamente, a história de J.B. Books (John Wayne), um lendário pistoleiro do Velho Oeste e, agora, um dos poucos que permanece com vida. A cena utiliza planos de antigos filmes estrelados por Wayne, dentre eles Rio Vermelho Onde Começa o Inferno, já fortemente apelando para o saudosismo dos fãs do gênero. Tais dias, contudo, estão no passado e partimos para um Books mais velho em seu cavalo. Mas sua idade não significa o término de sua habilidade com o revólver, como logo aprendemos.

Ao chegar na pequena cidade de Carson City, J.B. prontamente procura o médico, velho conhecido seu, Dr. Hostetler (James Stewart), para descobrir a origem de uma dor que vem o incomodando faz algum tempo. Para sua desolação, o pistoleiro descobre que se trata de um câncer e que ele tem apenas alguns dias de vida. Sabendo disso, Books decide procurar um lugar tranquilo para passar seus dias finais e encontra a morada de Bond Rogers (Lauren Bacall), onde aluga um quarto. A partir daqui, a narrativa assume uma estrutura fragmentada em dias, nos mostrando a crescente e silenciosa angústia do cowboy enquanto sua doença avança. John Wayne nos entrega uma figura que não esconde toda a glória de seu passado – a mantém pelo seu porte e forte personalidade – mas que cuja condição acaba revelando, pouco a pouco, sua idade já avançada.

Um dos pontos mais interessantes da obra é justamente observar essa mudança do personagem, que se reflete perfeitamente através não só de sua aparência física, como das roupas que veste. Wayne, por mais que se mantenha no típico strong silent type, demonstra nuances de sua impotência em relação à morte. Sua relação com Bond e o filho dela, Gillom (Ron Howard) é organicamente construída pelo roteiro e, através da direção de Don Siegel, consegue nos convencer do princípio ao fim, nos trazendo momentos verdadeiramente dramáticos que deixam qualquer um com um coração mole.

Por outro lado, a já mencionada, estrutura fragmentada da obra acaba quebrando, em determinados momentos, nossa imersão. O filme acaba soando como uma narrativa episódica, que encerra algumas situações de maneira levemente apressada. É claro que temos a linha principal sendo seguida – o avanço da condição do protagonista – mas isso não consegue nos tirar a percepção de que estamos diante de diversas situações distintas unidas sem uma maior coesão. Essa característica afeta, principalmente, o desfecho da obra, que nos parece mal-construído, perdendo, portanto, grande parte de seu impacto.

As distintas sequências do longa ainda contam com um agravante: transições demasiadamente bruscas. Apesar de estarmos falando de um cinema tipicamente clássico americano, o encadeamento de diversas cenas nos causa um estranhamento, em especial levando em consideração a edição do som, que acaba dispensando uma maior harmonia. Felizmente, tal fator se limita a alguns momentos apenas, não prejudicando o filme inteiro.

Porém, mesmo com esses problemas, O Último Pistoleiro nos deixa com um triste sorriso, ao passo que atua como uma ótima despedida para John Wayne. Don Siegel pode não nos trazer um dos melhores westerns já feitos – longe disso – contudo, acaba nos entregando um filme a ser lembrado, parte pela história em si, parte pelos eventos que ocorreriam três anos após a sua estreia.

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Don Siegel
ROTEIRO: Glendon Swarthout (novel), Miles Hood Swarthout, Scott Hale (screenplay)
GÊNERO: Western
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 40min
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ELENCO PRINCIPAL:
John Wayne … J.B. Books
Lauren Bacall … Bond Rogers
Ron Howard … Gillom Rogers
James Stewart … Dr. Hostetler
Richard Boone … Sweeney
Hugh O’Brian … Pulford
Bill McKinney … Cobb
Harry Morgan … Marshall Thibido
John Carradine … Beckum
Sheree North … Serepta


CREPÚSCULO DE UMA RAÇA (Cheyenne Autumn, 1964 – USA)
(Filme Completo / Legendas em Português)
Data de Lançamento: 3 de outubro de 1964

SINOPSE: Em 1878, o governo deixa de entregar os suprimentos necessários à tribo indígena Cheyenne, levando centenas de índios a sairem da reserva em Oklahoma até o Wyoming, local onde sempre viveram. Thomas Archer, Capitão da Cavalaria, tem a missão de conter os índios mas, durante o percurso, passa a respeitar os índios e decide ajudá-los.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME: Em 1917, John Ford dirigiu o seu primeiro faroeste, O Furacão. Mesmo que sua longa e prolífica carreira o tenha permitido experimentar diversos gêneros, o diretor se notabilizou por dois deles: filmes de guerra e westerns, tendo como uma de suas marcas as cenas no Monument Valley. Seguindo a onda de seu tempo histórico e da indústria que representava os índios sempre como inimigos selvagens, demorou 47 anos para que o diretor assumidamente fizesse um “filme de redenção” para com os povos indígenas, filmando um projeto inicialmente apresentado a ele por Richard Widmark e prontamente rejeitado. Anos mais tarde, quando um argumento que escrevia ao lado de seu filho Patrick Ford precisou de maior impulso (até então, a base para o texto era o livro The Last Frontier, de Howard Fast), o material antes apresentado por Widmark veio à tona, pois estava relacionado ao grande êxodo Cheyenne, um dos temas do argumento. Neste momento da pré-produção foi que o livro Cheyenne Autumn de Mari Sandoz entrou em cena e deu o contorno dramático necessário para o roteiro que seria escrito por James R. Webb.

A trama se passa em 1878, em um momento de crise entre os índios Cheyenne (interpretados por Navajos) e o governo, que fez um acordo temporário e não cumpriu, ou seja, prover de água, alimentos e remédios os índios rendidos até que a reserva no território de Oklahoma fosse transferida para terras prósperas. Sem o cumprimento do acordo por parte dos brancos e com o povo já morrendo, os Cheyennes resolvem iniciar sua longa jornada para as terras do Wyoming, seu local de origem tardia. O governo classificou essa movimentação como “rebelião” e o Capitão da Cavalaria, Thomas Archer (ótimo personagem de Richard Widmark), deveria impedir a marcha. Mas nem tudo sairia como inicialmente planejado.

Como dito anteriormente, este filme foi pensado por Ford para ser um marco diferencial em sua carreira, mostrando, em um enredo pensado especialmente para isso, os índios de uma maneira bem diferente do que ele estava acostumado. Quatro anos antes, em Audazes e Malditos, o cineasta havia feito a mesma coisa com os negros, e aqui, em Crepúsculo de uma Raça, explora esse novo olhar em um épico de 2h30 que abarca o sofrimento de um povo, a mudança de mentalidade no tratamento entre etnias e momentos da História dos Estados Unidos que o roteiro se dá a liberdade de brincar um pouco, tanto na tragédia ou melancolia, quanto na comédia, esta, majoritariamente representada por uma sequência que nem deveria estar no filme: a sequência em Dodge City. Criada para servir de intervalo (o que não funcionou, porque houve o corte de todo esse bloco, após a primeira exibição do longa), a sequência protagonizada por James Stewart e Arthur Kennedy é o verdadeiro elefante branco da fita.

O choque para o andamento narrativo é imenso. Nós passamos de uma jornada heroica (nativa e colonizadora), onde as condições do espaço geográfico são duras e diferentes objetivos deixam civilizações preparadas para um conflito mortal, para uma sequência onde não há nada a que o espectador se apegue. Mesmo que a direção seja muito boa e tenhamos James Stewart em cena, a distração e a nulidade de conexão da sequência de Dodge City com o resto do filme tem um grande peso na obra. E mesmo que alguém saia em defesa do ato, citando os vaqueiros texanos que visitam o saloon onde Wyatt Earp está jogando pôquer, é importante lembrar que nem os vaqueiros, Earp ou Doc Holliday protagonizam algo verdadeiramente importante para o filme. A cena serve mesmo ao propósito de “intervalo”, mas talvez fosse mais sábio colocá-la como um curta-metragem levemente alinhado ao filme. Assim, a obra ficaria até mais curta e não sofreria o peso de uma grande quebra para uma sequência que não serve verdadeiramente ao tema da película.

Sob a fotografia de William H. Clothier (que no mesmo ano trabalhou com Raoul Walsh, também em seu último westernUm Clarim ao Longe, igualmente revendo a relação entre brancos e vermelhos), acompanhamos a cavalgada de Cheyennes e soldados americanos por uma gama de fantásticas paisagens, bem ao gosto de John Ford, que aqui também apresenta um de seus filmes mais cuidadosos em termos de figurinos, assinados por Frank Beetson Jr. e Ann Peck. O grande esforço de aproximação entre etnias e os impasses históricos, políticos e ideológicos vão pouco a pouco se dissipando e vemos não só personagens mudarem de opinião (às vezes rápido demais), mas também a exploração dramática de uma situação de crise para destacar a obediência cega de alguns militares, como ocorre com o personagem de Karl Malden, obedecendo ordens a despeito da humanidade dele, de seus soldados e dos nativos.

Embora seja estranhamente desigual em seus atos e sua representação dos índios não seja exatamente uma unanimidade em termos de revisão histórica (Marlon Brando chegou a dizer que era “um dos mais racistas” dos diretor, pela maneira como expunha os nativos, à guisa de fazer as pazes com eles) Crepúsculo de Uma Raça é uma elegia com os pés no chão. O texto mostra civilizações diferentes lutando para manter suas tradições e garantir o seu lugar naquela terra. É um filme até certo ponto realista, com figurinos historicamente bem fieis e uma brilhante trilha sonora de Alex North (cujo último western havia sido Os Desajustados), destacando o porte épico da jornada Cheyenne e mostrando que, em todos os povos, em todos os momentos, existem pessoas e situações boas e ruins. O desafio desses povos é fazer com que o pior daquilo que existe em seu seio não se torne a causa de sua própria destruição. Uma despedida (dos westerns) um tanto problemática, mas verdadeiramente grandiosa de John Ford.

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: John Ford
ROTEIRO: Mari Sandoz (suggested by “Cheyenne Autumn” by), James R. Webb (screenplay by), Howard Fast (based on the novel “The Last Frontier” by)
GÊNERO: Western
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 2h 34min
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ELENCO PRINCIPAL:
Richard Widmark … Capt. Thomas Archer
Carroll Baker … Deborah Wright
Karl Malden … Capt. Wessels
Sal Mineo … Red Shirt
Dolores del Rio … Spanish Woman)
Ricardo Montalban … Little Wolf
Gilbert Roland … Dull Knife
Arthur Kennedy … Doc Holliday
James Stewart … Wyatt Earp
Edward G. Robinson … Secretary of the Interior Carl Schurz


WINCHESTER ’73 (Winchester ’73, 1950 – USA)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 12 de Julho de 1950

SINOPSE: Lin McAdam (James Stewart) e Frankie “High Spade” Wilson (Millard Mitchell), seu melhor amigo, chegam em Dodge City para um concurso de tiro, cujo prêmio é um rifle Winchester tão perfeitamente fabricado que é conhecido como “Um em Mil”. No saloon Lin se depara com Dutch Henry Brown (Stephen McNally), sendo que eles não atiraram um no outro pelo simples fato de que o xerife, Wyatt Earp (Will Geer), não permite que ninguém ande armado pela cidade. Após uma acirrada disputa com Dutch, Lin vence o concurso. Entretanto logo em seguida Lin é atacado por Brown e seus cúmplices, que lhe roubam o rifle e fogem através do deserto, indo parar em um lugar remoto onde está um negociante de armas, que espera o momento certo para negociar com os índios. Brown e seus amigos têm apenas o Winchester sem munição, pois ao fugirem deixaram suas armas em Dodge City. Como as armas ali são vendidas por um preço muito caro, Dutch pega toda a quantia que tem e vai jogar pôquer para tentar ter dinheiro para comprar as armas. Ele perde tudo, então pressionado pelo amigo vende o rifle por 300 dólares. Ao tentar recuperar a arma, Dutch aposta todo o dinheiro em uma única jogada e perde novamente. Mais tarde o mercador se encontra com os índios, que não gostam da mercadoria pois são armas usadas. Quando o chefe dos índios vê o rifle decide ficar com ele e mata o negociante. É o início da trajetória do rifle, que logo irá mudar de dono.

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SOBRE O FILME: As negociações para a produção de Winchester ’73 começaram em 1949 e desde o início já tinha um diretor designado para dirigi-lo: Fritz Lang. O cineasta chegou a fazer as preparações para o longa no início de 1950 mas acabou desistindo do projeto porque a Universal International Pictures não queria que ele também fosse co-produtor, através de sua empresa Diana Productions Company (pela qual já havia feito Almas Perversas e O Segredo da Porta Fechada).
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Com a cadeira vaga e um bom roteiro em mãos, o estúdio achou que seria interessante aceitar a indicação dada pelo ator James Stewart e contratar Anthony Mann para ocupá-la. Embora não tivesse o peso de Fritz Lang, Mann vinha trilhando um caminho notável no cinema noir e, em 1949, fizera para a MGM dois bons longas do gênero, Pecado Sem Mácula e Mercado Humano. Parecia uma aposta arriscada, mas como Mann não tinha problemas com prazos e nem estourava orçamentos, o máximo que o estúdio poderia ter em mãos era um filme sombrio e denso (nesse caso, um western), mais ou menos na linha dos longas que o cineasta mais se destacara até o momento.
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Winchester ’73 é uma obra seminal. Ela está entre os primeiros westerns a jogar com a problemática identidade pregressa do cowboy ou pistoleiro e de como essa situação do passado afeta negativamente sua vida atual. Além disso, o próprio personagem é visto de uma outra forma, mais pessimista e egoísta, sem o grande louvor e senso de heroísmo a que estava acostumado. Anthony Mann dava um passo decisivo para a criação de um degrau que durante toda a década de 1950 se transformaria na escada que sepultaria o western clássico em seu topo e deixaria aberta a porta para o revisionismo em todas as suas facetas a partir dos anos 60. Winchester ’73 pode não ser uma obra prima absoluta, mas com certeza é um western essencial (e obrigatório!) para quem quer entender as mudanças estéticas, formais e temáticas do gênero.

James Stewart, Will Geer, e Stephen McNally em Winchester ’73 (1950).

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO: Anthony Mann
ROTEIRO: Robert L. Richards, Borden Chase
GÊNERO: Western
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 32min
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ELENCO PRINCIPAL:
James Stewart … Lin McAdam
Shelley Winters … Lola Manners
Dan Duryea … Waco Johnnie Dean
Stephen McNally … Dutch Henry Brown
Millard Mitchell … High Spade
Charles Drake … Steve Miller
John McIntire … Joe Lamont
Will Geer … Wyatt Earp
Rock Hudson … Jovem Bull
Tony Curtis … Doan
John Alexander … Jack Riker
Steve Brodie … Wesley
James Millican … Wheeler
Abner Biberman … Latigo Means
John Doucette … Roan Daley
James Best … Crater
Chuck Roberson … Long Tom
Jay C. Flippen … Sargento Wilkes
Ray Teal … Delegado Noonan
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Fontes de Pesquisa/Textos: IMDb, Filmow, Cine Players, Plano Crítico.


Fontes de pesquisa/Textos: Revista Cinemin, IMDb, The Movie Database, Filmow.

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