AGATHA CHRISTIE NO CINEMA

A morte de Agatha Christie, escritora britânica, na sua residência, em Wallingford, Inglaterra, em 12 de janeiro de 1976, deu-lhe um saldo de 100 obras e uma conta bancária com cerca de 20 milhões de dólares. Apesar de acusada de “escritora monstruosa” em sua terra natal, Agatha tem o talento reconhecido pelas afirmações de escritores famosos no gênero, como Horace McCoy e James Cain, que não hesitaram em colocá-la no Olimpo da literatura policial. – Jamais aparecerá outra igual, mesmo depois que morrer – disseram McCoy e Cain.

Essa mulher, simples e inventiva, cujos livros reeditados e filmados há mais de 70 anos, teve o raro privilégio de criar dois detetives exemplares: Hercule Poirot e Miss Marple. Hercule, um belga feioso, de grossos bigodes, com certas peculiaridades, é dono de um cérebro sem igual. Miss Marple, uma velha e simplória dona-de-casa, tem um raro faro policial.

Os leitores de Dame Agatha Christie – título concedido pela Rainha Elizabeth II, da Inglaterra – não são evidentemente aqueles que prestigiam os punks, nem os apreciadores da música pop. São, na verdade, os moradores dos cottages campestres ou as jovens tímidas da classe média alta e da nobreza, ou moças que organizam festas de caridade e tudo que comem pudim de frutas durante todo o ano.

Filha de pai americano e mãe inglesa, Agata Christie teve infância sossegada e juventude frustrada. Sua timidez não a deixou ser cantora, sonho interrompido ao casar-se cedo com Archibald Christie. Dele usou sempre o sobrenome.

Agatha e Archibald Christie.

Com a primeira Guerra Mundial, por causa do seu sentido patriótico, serviu como enfermeira e farmacêutica. Nas horas de folga, dedicava-se a escrever, o que provocava gracejo das colegas: – Por que não escreve um livro? Tal fato veio realmente a se concretizar em 1925, quando editou o primeiro romance – O Misterioso Caso de Styles. Após o sexto, O Assassinato de Roger Acroyd, já se tornara uma escritora de sucesso.

Agatha Christie com seu uniforme durante o período da WW1.

Sete meses depois, em pleno auge da fama, Agatha Christie desapareceu. Seu carro foi encontrado não muito longe de casa, mas sem qualquer bilhete, nem indício de crime. Ela simplesmente sumira. Quinhentos e cinquenta policiais procuraram-na por todo país. Afinal, encontraram-na num hotel de veraneio, em Harrogate. Era vítima de amnésia, causada pelo excesso de trabalho e tensão emocional (a mãe morrera um pouco antes e, logo depois, o marido a abandonara).

Todas essas desventuras estão retratadas no filme O Mistério de Agatha (Agatha, 1979), produção razoavelmente discreta de Michael Apted. Nessa realização, a fotografia e os efeitos luminosos de mestre Vittorio Storaro suprem, validam ou amenizam as soluções sugeridas no então inexplicado e misterioso desaparecimento, asseguradas por um desempenho maravilhoso de Vanessa Redgrave (foto abaixo).

Mas Agatha não esmoreceu. Conheceu o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, cujo casamento foi feliz, conforme narra no livro Autobiografia, editado post-mortem, em 1977. Ambos viajaram pelo Egito e Síria, anotando tudo. Disto, resultou, entre outros, o livro A Morte no Nilo. A argúcia do texto literário de Agatha Christie não podia passar despercebida pelos homens do Cinema. E, assim, vemos suas obras serem filmadas a partir da década de 30.

Agatha Christie em Nimrud, Iraque.

AMOR DE UM ESTRANHO (Love from a Stranger, 1937), com direção de Rowland V. Lee, quando exibido, provocou os aplausos do renomado crítico de Cinema A. Moniz Vianna, que assim se manifestou: (…) “tendo por base uma peça que Frank Vesper extraiu da novela de A. Christie, o diretor de Um Romance em Budapeste (Zoo in Budapest, 1933), conseguiu evitar a atmosfera teatral. Basil Rathbone interpreta o criminoso paranóico, uma reencarnação do Barba Azul, e Ann Harding, em sua mais sugestiva performance, fazia a sua derradeira esposa. Lee construiu a atmosfera de angústia e terror que o assunto requeria, como na última sequência que tornou antológica e, depois, foi dezena de vezes imitada, tendo, no mínimo, inspirado a Robert Siodmak uma das principais cenas de A Dama Fantasma (The Phantom Lady, 1944) – aquela em que a heroína se vê frente à frente com o criminoso na casa fechada e deserta. É fácil recordar o extraordinário suspense obtido por Lee com este episódio, bem como o irrepreensível desempenho de Rathbone, frio e inalterável, antevendo o instante em que estrangularia a aterrorizada Ann Harding.”

Ann Harding e Basil Rathbone, em Love from a Stranger, 1937.

Uma outra versão de Love From a Stranger, no Brasil intitulada Receios, foi realizada em 1945, por Richard Whorf, de resultado lastimável e muito inferior à obra de Lee. A estrutura do filme é mal-construída, pior solucionada e conduzida à implausibilidade.

O VINGADOR INVISÍVEL (And Then There Were None, 1945) é a melhor adaptação do romance O Caso dos Dez Negrinhos para o Cinema, e louve-se isso à direção competente do mestre René Clair, que soube dosar, em partes iguais, humor e suspense num entretenimento divertido: dez pessoas são convidadas a uma ilha, onde todos, um a um são assassinados. A solução da trama é concluída surpreendentemente para o espectador.

A segunda versão do mesmo romance, dirigida pelo inglês George Pollock, intitulou-se E Não Sobrou Nenhum/Ten Little Indians. Distancia-se em qualidade da realização talentosa de Clair. Seguiu-se uma terceira versão, de Peter Collinson, que conduziu as ações tediosamente, e mudou o local dos acontecimentos, estabelecendo-o num hotel situado no deserto iraniano. Ali, na estalagem, os convidados são ameaçados pela voz do anfitrião invisível, emitida através de um gravador. A voz do gravador é de Orson Welles.

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness For The Prosecution, 1957) é a adaptação de uma peça teatral. Versa sobre sensacional julgamento de um assassinato em Londres, e o tema foi excepcionalmente recriado para a tela, num clima de suspense. Billy Wilder e os roteiristas deram-lhe um tratamento adequado, com o acréscimo de sequências em flashbacks, fugindo às ações de um esquema teatral. Os que viram a peça e o filme concluem que o último leva a melhor, por várias razões: magnífico elenco (Charles Laughton sobressai-se no desempenho do ativo defensor), a direção ardilosa de Billy Wilder (que anima e diverte), a fotografia de Russell Harlan (que nunca é estática, apesar de a maior parte das ações correr no interior de um tribunal).

Marlene Dietrich e Charles Laughton em Witness For The Prosecution, 1957.

Miss Marple é uma velha e doméstica dama que cheira a lavanda, com uma educação vitoriana, completamente desprotegida nos dias de hoje, quando atingimos as profundezas da depravação humana – eis uma bela definição para uma senhora que se via em intrigas e que passeava tranquilamente pelos jardins e salas de estar de criminosos inescrupulosos e violentos. A figura de Miss Marple surge na interpretação bem-adequada da atriz inglesa Margaret Rutherford. Bom exemplo são os filmes SHERLOCK HOLMES DE SAIA (Murder at the Gallop, 1963) (em que tenta decifrar um duplo assassinato e recusa uma proposta de casamento) e CRIME A BORDO (Murder Ahoy, 1964), em que Miss Marple descobre uma trama de assassinato e roubo num navio-escola.

Margaret Rutherford em Murder at the Gallop, 1963.

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974) é um terrível mistério que transcorre em 1934, numa trama envolvendo um trem cheio de personagens exóticas – o Expresso do Oriente, de Instambul para Calais -, quando um milionário é assassinado. Os outros passageiros são: uma princesa (Wendy Hiller), uma americana temperamental (Lauren Bacall), uma missionária sueca (Ingrid Bergman), um diplomata húngaro (Michael York) e sua esposa (Jacqueline Bisset), um coronel (Sean Connery) e uma professora inglesa (Vanessa Redgrave). Felizmente se encontra no trem o detetive Hercule Poirot (Albert Finney), que logo chegará à conclusão de que todos tinham algo a esconder, inclusive a vítima.

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978), realização do inglês John Guillermin, com um elenco de astros, em direção discreta, procura ressuscitar personagens esquecidos de escritores da época. Evocam-se os militares dos países ocupados pela Inglaterra, o comportamento dos coronéis do Sudão e do Egito – tudo isso sob a batuta de Hercule Poirot (Peter Ustinov), um belga abelhudo e atrevido.

Angela Lansbury e Peter Ustinov em Death on the Nile, 1978.

ASSASSINATO NUM DIA DE SOL (Evil Under the Sun, 1982). Neste filme, o assassinato decorre como um enigma para se decifrar. A proprietária (Maggie Smith) de um hotel, que fora outrora uma atriz sem sucesso, recepciona os clientes que, na maioria, tinham tido relacionamento com a vida teatral. Em especial, uma estrela da comédia musical (Diana Rigg), odiada pela proprietária e pelos hóspedes.

Entre eles, encontram-se: um biográfo (Roddy McDowall), que se sente inseguro para publicar um livro e está à cata de indiscretas revelações; um casal de produtores da Broadway (James Mason e Sylvia Miles) que estuda e verifica se há interesse num roteiro; o milionário (Colin Blackley), que, por certos motivos, não pode separar-se da atriz. Situações típicas de Agatha: pouca ação e muitos questionamentos. Acontece que Hercule Poirot, no momento em férias, está nas cercanias quando o corpo é encontrado na praia. Conclusão: todos têm uma razão para se safar; todos estão sob suspeita; todos tem um álibi.

POIROT (Agatha Christie’s Poirot, 1989-2013 – UK / TV Series)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 8 de janeiro de 1989

SINOPSE: Hercule Poirot é um antigo polícia belga que se instala na cidade de Londres depois da guerra. Rapidamente se torna num impressionante e infalível detective privado, reconhecido pela alta sociedade inglesa como uma importante figura contra o crime. Em cada episódio da série, Poirot tem de resolver um misterioso crime – geralmente, homicídios – ao lado do seu fiel parceiro Hastings e do Inspector-Chefe Japp, da Scotland Yard.

1ª TEMPORADA COMPLETA:

Assista a primeira temporada completa no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE A SÉRIE: Esta série de televisão inesquecível, que durou quase vinte anos, é uma das minhas favoritas e uma das melhores séries de TV de todos os tempos, na minha opinião. Meticulosamente, adaptou todos os contos e romances em que Agatha Christie incluiu a sua personagem mais famosa: o infalível detetive belga Hercule Poirot. Há certamente mérito nestE personagem que, sem dúvida, contribuiu para o sucesso e reconhecimento da sua criadora, uma dos mais célebres, lidas e traduzidas autoras da ficção policial. Portanto, esta série acaba por ser uma merecida homenagem à criadora e à criação.

Temos que nos levantar e aplaudir o talento de David Suchet. Eu acho que é consensual dizer que ele foi o ator que melhor conseguiu dar vida ao detetive belga, famoso pelas manias em relação à limpeza, ordem, arranjo e refinamento. Ele foi Poirot, tornou-se na personagem. E acho que, para um ator, é provavelmente a maior conquista possível, redundâncias à parte. Também gostei das contribuições de Hugh Fraser (como Capitão Hastings), Pauline Moran (como Miss Lemon) e Phillip Jackson (como Inspector-Chefe Japp). Cada um contribuiu da melhor maneira para o sucesso da série.

Cada episódio adapta uma longa história ou conto da autora. Os roteiros são óptimos, o clima de mistério é muito agradável. A atenção aos detalhes, os trajes quase perfeitos, os cenários de época e a banda sonora impecável ajudaram a tornar a série memorável.

FICHA TÉCNICA: 
DIREÇÃO: Vários
ROTEIRO: Agatha Christie (roteiro), Christopher Gunning (criação)
GÊNERO: Crime, Drama, Mistério
ORIGEM: UK
DURAÇÃO: 600min
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ELENCO PRINCIPAL:
David Suchet … Hercule Poirot70 episodes, 1989-2013
Hugh Fraser … Captain Hastings / …43 episodes, 1989-2013
Philip Jackson … Chief Inspector Japp / …40 episodes, 1989-2013
Pauline Moran … Miss Lemon32 episodes, 1989-2013
David Yelland … George / …8 episodes, 1989-2013
Zoë Wanamaker … Ariadne Oliver / …6 episodes, 2006-2013
Richard Bebb … Newsreader / …5 episodes, 1989-1996
George Little … Dicker / …4 episodes, 1989-1994


PUNIÇÃO PARA A INOCÊNCIA (Ordeal by Innocence, 1985 – UK)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 17 de maio de 1985

SINOPSE: Detetive reabre investigações sobre um crime dado por resolvido pela polícia britânica e que envolve os interesses de um clã aristocrático. Para ele, o criminoso está na própria família.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

FICHA TÉCNICA:  DIREÇÃO: Desmond Davis, Alan Birkinshaw (uncredited)
ROTEIRO: Agatha Christie (based on the novel by), Alexander Stuart (screenplay)
GÊNERO: Mistério, Thriller
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 30min
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ELENCO PRINCIPAL:
Donald Sutherland … Arthur Calgary
Faye Dunaway … Rachel Argyle
Christopher Plummer … Leo Argyle
Sarah Miles … Mary Durrant
Ian McShane … Philip Durrant
Diana Quick … Gwenda Vaughan
Annette Crosbie … Kirsten Lindstrom
Michael Elphick … Inspector Huish
George Innes … Archie Leach
Valerie Whittington … Hester Argyle


UM BRINDE MORTAL (Sparkling Cyanide, 1983 – USA / TV Movie)


MISTÉRIO NO CARIBE (A Caribbean Mystery, 1983 – USA / TV Movie)


WITNESS FOR THE PROSECUTION (Witness for the Prosecution, 1982 – USA UK/ TV Movie)


ASSASSINATO NUM DIA DE SOL (Evil Under the Sun, 1982 – UK)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 17 de dezembro de 1957

SINOPSE: O detetive Hercule Poirot esclarece a morte de uma estrela de cinema num elegante hotel de uma ilha no Mediterrâneo. Atores famosos, canções de Cole Porter, um lindo visual e divertida interpretação de Peter Ustinov (Poirot) nesta história extraída de uma novela de Agatha Christie.

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SOBRE O FILME: Após o sucesso da primeira versão de Assassinato no Expresso Oriente, Agatha Christie voltou a ser um nome “quente” em Hollywood. No entanto, uma peça importante estava faltando: Albert Finney, que interpretou o genial detetive belga Hercule Poirot no longa de Sidney Lumet, chegando, inclusive, a ser indicado ao Oscar por sua performance, se recusou a retornar ao papel. Era preciso encontrar um novo Poirot – afinal, o investigador de bigodes compridos é um dos grandes personagens da autora, presente na maior parte das suas histórias. O escolhido foi ninguém menos do que o inglês Peter Ustinov (1921-2004), ele próprio um astro vencedor de duas estatuetas douradas – por Spartacus (1960) e por Topkaki (1964). E se em ambos seu reconhecimento foi pelo desempenho como coadjuvante, desta vez ele era o astro absoluto. E após Morte Sobre o Nilo, fez sua segunda aparição neste longa dirigido por Guy Hamilton (Ustinov estrelaria ainda mais quatro filmes inspirados na obra de Christie, sendo o mais notável Encontro Marcado com a Morte, 1988). Hamilton, conhecido por longas clássicos da série James Bond, como 007 Contra Goldfinger (1964) e 007: Os Diamantes são Eternos (1971), havia dirigido antes A Maldição do Espelho (1980), também inspirado em um livro de Agatha Christie, porém com a velhinha Miss Marple como protagonista. Ele agora retorna à ambientação de suspense e mistério com impressionante desenvoltura. Mais uma vez entre ricos e famosos, Poirot precisa desvendar quem teria provocado a morte de uma bela mulher, ao mesmo tempo em que lida com o caso de um diamante falsificado. Nomes estrelados como Maggie Smith, Jane Birkin, Roddy McDowall, Sylvia Miles, James Mason e Diana Rigg completam o elenco desta aventura escapista e repleta de um charme que segue vivo para os fãs da escritora.

FICHA TÉCNICA:  DIREÇÃO: Guy Hamilton
ROTEIRO: Anthony Shaffer (screenplay), Agatha Christie (novel), Barry Sandler (uncredited)
GÊNERO: Crime, Drama, Mistério
ORIGEM: UK
DURAÇÃO: 1h 57min
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ELENCO PRINCIPAL:
Peter Ustinov … Hercule Poirot
Colin Blakely … Sir Horace Blatt
Jane Birkin … Christine Redfern
Nicholas Clay … Patrick Redfern
Maggie Smith … Daphne Castle
Roddy McDowall … Rex Brewster
Sylvia Miles … Myra Gardener
James Mason … Odell Gardener
Denis Quilley … Kenneth Marshall
Diana Rigg … Arlena Stuart Marshall


TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (Witness For The Prosecution, 1957)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 17 de dezembro de 1957

SINOPSE: Quando Leonard Vole (Tyrone Power), é preso sob a acusação de ter assassinado uma rica viúva de meia-idade, Sir Wilfrid Robarts (Charles Laughton), um veterano e astuto advogado, concorda em defendê-lo. Sir Wilfrid, está se recuperando de um ataque do coração quase fatal e “supostamente” está em uma dieta, que o proíbe de ingerir bebidas alcoólicas e de se envolver em casos complicados. Mas a atração pelas cortes criminais é algo muito forte para ele, especialmente quando o caso é bem difícil. O único álibi de Vole, é o testemunho da sua esposa, Christine Vole (Marlene Dietrich), uma mulher fria e calculista. A tarefa de Sir Wilfrid fica praticamente impossível quando Christine Vole, concorda em ser testemunha, não da defesa, mas da acusação.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME:  O conto Testemunha de Acusação foi originalmente publicado numa revista americana, em janeiro de 1925. Seu enorme sucesso tornou o nome de Agatha Christie ainda mais relevante na América e acabou fazendo escola literária, inspirando escritores e roteiristas a criarem tramas de tribunal com as mais instigantes reviravoltas em seu desfecho. No início dos anos 1950, a própria Rainha do Crime fez uma adaptação de seu conto para o teatro, e foi principalmente na dinâmica dessa versão, somada à estrutura narrativa vinda do conto, que Billy Wilder e Harry Kurnitz se basearam para escrever o texto de Witness for the Prosecution, um dos grandes sucessos da carreira de Wilder e um dos primeiros filmes a contarem com uma forte campanha anti-spoiler, com pessoas na fila de alguns cinemas tendo que “jurar solenemente não entregar o final para quem não assistiu ao filme” e com um pedido gentil de manutenção de segredo estampado ao final da película.

A versão literária chegou às mãos de Wilder através de Marlene Dietrich, que trabalhara com ele em A Mundana (1948). A atriz tinha a intenção de interpretar Christine, esposa de Leonard Vole, mas só o faria se fosse pelas mãos de Wilder. As negociações para a produção ocorreram de forma rápida e as filmagens, mesmo com a presença de alguém já conhecidamente muito difícil de se trabalhar como Charles Laughton, não tiveram qualquer tipo de grande problema. O próprio Laughton, inclusive, foi surpreendentemente amável ao longo de toda a produção e entregou-se de corpo e alma ao papel, executando uma das performances mais interessantes de sua carreira como o advogado que está com sérios problemas de saúde, se recuperando de um ataque cardíaco, mas que não consegue deixar de trabalhar. E para “ajudar”, vê cair em suas mãos um caso realmente difícil.

Interpretado por Tyrone Power, aqui em seu último filme (ele viria morrer de infarto no set de filmagens de seu longa seguinte, Salomão e a Rainha de Sabá) Leonard Vole é o personagem menos interessante da fita, ofuscado pela furacão que é o advogado vivido por Charles Laughton, definitivamente a melhor atuação do longa; e por Marlene Dietrich, que brinca de maneira interessantíssima com o fato de sua personagem também ser uma atriz. A construção que faz dos sotaques, sua revelação final, sua explosão de ódio em dois diferentes momentos e suas expressões mais relaxadas dialogam bem com a concepção metalinguística da personagem, trazendo-lhe ainda mais profundidade.

Nas mãos de Wilder, Testemunha de Acusação se torna uma batalha diferente daquela que temos no original. E não digo isso pelas mudanças feitas nesta adaptação cinematográfica, que Agatha Christie disse ter gostado bastante. Refiro-me à questão de atmosfera mesmo. Talvez por ser um filme verdadeiramente de estúdio (até a cena na estação de trem foi feita em estúdio, e daí vemos a grandeza do diretor de arte), há uma relação muito mais íntima e emocionalmente à flor da pele entre os personagens, até porque todos estão passando por algum tipo de tormento e o roteiro faz com que todo mundo, inclusive quem não tem nada a ver com o crime, esconda alguma coisa. O advogado, por exemplo, faz tudo o que é mal para sua saúde e a enfermeira finge que não sabe que ele está bebendo álcool. Essas piscadelas morais ajudam, inclusive, a dar suporte àquilo que temos no desfecho, com a aproximação cúmplice entre os dois e a abertura de um novo caso para Sir Wilfrid Roberts, mesmo que isso vá enfraquecê-lo ainda mais.

As muitas batalhas que vemos na tela se enquadram em diferentes ordens, com gente escondendo coisas e gente dando a entender que não sabe o que está acontecendo. Mas uma nuvem ético-moral paira sobre toda a situação. Em um ponto da trama, temos a impressão que o advogado não está realmente interessado em saber se Vole é culpado ou não. Então temos a curiosa cena do reflexo do monóculo e reajustamos essa impressão, mais adiante engordada por uma fala do próprio personagem sobre o que acha de tudo aquilo, lamentando que o homem que acabara de salvar da forca tenha enganado não só a ele, Sir Wilfrid Roberts, mas à justiça britânica. A confirmação dessa impressão vem com o tom moralizante estampado no assassinato de Leonard por Christine, em pleno tribunal. Mas o roteiro segura a queda nesse poço moralista e cria mais um conflito, onde o advogado defenderá uma pessoa que ele viu acometer o crime. Entretanto, a estampa desse ato é outra: “isso não foi um assassinato. Foi uma execução“.

A reviravolta que ocorre no ato final e a grande direção de Wilder, mantendo ativo o suspense em torno da verdadeira execução do crime deram grande popularidade a Testemunha de Acusação, hoje um dos exemplos dos filmes do gênero. Não sou particularmente fã da linha cômica que costura a fita, mas vejo o propósito a que ela serve e como se encaixa nessa figura do advogado doente e viciado em trabalho que pega um caso tenso como este. Pode-se refletir sobre as escalas da justiça e em como muitas pessoas conseguem driblar o sistema, conseguindo safar-se dos crimes de cometeu. Na vida real, contamos apenas com uma “justiça divina” para compensar absolvição não merecida. Na ficção, a punição pode vir em poucos minutos, numa atitude que nos leva a discutir um tema em pauta até hoje: o olhar das leis para a vingança e a justiça com as próprias mãos.

FICHA TÉCNICA:  DIREÇÃO: Billy Wilder
ROTEIRO: Agatha Christie (in Agatha Christie’s international stage success), Billy Wilder , Harry Kurnitz (screen play)
GÊNERO: Crime, Drama, Mistério
ORIGEM: USA
DURAÇÃO: 1h 56min
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ELENCO PRINCIPAL:
Tyrone Power … Leonard Vole
Marlene Dietrich … Christine
Charles Laughton … Sir Wilfrid Roberts
Elsa Lanchester … Miss Plimsoll
John Williams … Brogan-Moore
Henry Daniell … Mayhew
Ian Wolfe … Carter
Torin Thatcher … Mr. Myers
Norma Varden … Mrs. Emily Jane French
Una O’Connor … Janet MacKenzie
Francis Compton … Judge
Philip Tonge … Inspector Hearne
Ruta Lee … Diana



Fontes de Pesquisa e textos: Revista Cinemin/Gil A. Araújo, IMDb, Filmow, Plano Crítico/Luiz Santiago.

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