O BOULEVARD DO CRIME | A Filmagem de um Inesquecível Clássico do Cinema Francês

Considerado por David Lean e Luchino Visconti como um dos melhores filmes de todos os tempos, O Boulevard do Crime é a obra-prima da dupla Carné-Prévert, uma crônica romanesca cheia de riquezas profundas que será eternamente admirado pelos fãs de Cinema.

A ideia da realização de O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis) surgiu numa tarde de janeiro de 1943, quando Marcel Carné e Jacques Prévert, uma das mais famosas duplas de diretor-roteirista do Cinema, encontraram-se no Promenade des Anglais, em Nice, com o ator Jean-Louis Barrault. Durante a conversa travada num café, Barrault narrou-lhes um episódio da vida de Jean-Gaspard-Baptiste Debureau (1796-1846), mestre da mímica, que se notabilizou por sua criação de Pierrot no Théâtre des Funambules de Paris, nos meados do século XIX. Certo dia, Debreau, reagindo a um insulto dirigido à sua amante, matou o ofensor a golpes de bengala; no julgamento, toda a população acorreu ao tribunal, curiosa e ouvir o som da sua voz.

Marcel Carné e Jacques Prévert, em foto de meados dos anos 40.

Carné e Prévert ficaram entusiasmados com a história. Eles tinham acabado de receber uma negativa dos produtores quanto à possibilidade de rodarem La Lanterne Magique, cujo roteiro já estava pronto. Como não era fácil, durante a ocupação alemã, abordar livremente os temas contemporâneos que haviam caracterizado os seus trabalhos antes da guerra, resolveram aproveitar o personagem lembrado por Barrault num filme sobre os saltimbancos e artistas de teatro que, por volta de 1830, funcionavam no pitoresco Boulevard du Temple, chamado Boulevard du Crime porque ali se situavam várias casas de espetáculo, onde se encenavam melodramas sangrentos. Les Enfants du Paradis eram os atores, “filhos” (enfants) do público que frequentava as galerias dos teatros (paradis).

Dando início às pesquisas preparatórias, Carné encerrou-se no Museu Carnavalet à procura de documentos e gravuras relativas à monarquia de Louis-Philipe, enquanto Prévert, na Riviera, mergulhava no estudo das vidas não só de Deburau, mas também de outras figuras históricas daquele período, tais como o renomado ator Frédérick Lemaître (1800-1876), grande intérprete de Shaskespeare, também consagrado por sua composição de Robert Macaire na peça L’Auberge des Adrets, e Pierre-Frásçois Lacenaire (1800-1836), criminoso célebre, egomaníaco e intelectual, que impressionou a sociedade da época por seu tranquilo cinismo. No roteiro, afinal completado após seis meses de trabalho, numa fazenda em Tourette-sur-Loup, perto de Nice, estas personalidades reais, extraídas da crônica cotidiana, transformaram-se nos personagens principais da trama, mesclada com outros seres fictícios.

O enredo contava os amores de Garance (Arletty) que, tendo sido amante durante algum tempo de Lacenaire (Marcel Herrand), passava para os braços de Frédérik Lemaitre (Pierre Brasseur) e depois se colocava sob a proteção do Conde de Montray (Louis Salou), sem deixar de amar, profunda e incessantemente, o tímido Baptiste Debureau (Jean-Louis Barrault), mesmo depois dele ter casado com Nathalie (Maria Casarès). Com a morte do Conde, assassinado por Lacenaire, Baptiste e Garance resolvem fugir juntos, mas, compreendendo que não podia ser feliz com ele, ela parte, e Baptiste, desesperado, persegue-a em vão no tumulto dos folguedos de Carnaval. Desde logo os dois cineastas perceberam que a duração do filme excederia os padrões convencionais e, desejando ampliar a construção dramática de algumas obras anteriores (Jenny, Cais das Sombras, Trágico Amanhecer), nas quais as vidas separadas dos personagens tornavam-se de súbito inexplicavelmente ligadas, procuraram o equivalente cinematográfico para a forma de narrativa dos romances de Balzac, Eugène Sue ou Victor Hugo.

Daí encontramos em Les Enfants du Paradis o sopro e a magnitude da Comédia Humana, Os Mistérios de Paris e Os Miseráveis. Além de focalizar os infortúnios do amor e a Paris romântica, misteriosa e popular, o entrecho prestava antes de tudo uma homenagem ao teatro, e mostrava as relações entre a vida e a arte. A pantomina ou o drama transpunham e estilizavam a cena as situações reais. Por exemplo, os acidentes de uma noite, aquela em que Baptiste deixa Garance sozinha no quarto de pensão, sem consumar o ato físico do amor, e ela recebe minutos depois a visita de Lemaitre, são transportados mais tarde para a pantomina no quadro “O Namorado da Lua”. É então Garance uma estátua e Baptiste o apaixonado que procura despertá-la; um guarda o afugenta, e ele volta com um buquê, mas, vencido pelo cansaço, adormece. Surge aí Lemaitre, toma-lhe as flores da mão, e desperta a estátua, levando-a consigo, Pierrô, Arlequim, Colombina… os eternos personagens da Comédia dell’Arte. No meio da pantomina, Baptiste vê nos bastidores Lemaitre beijando Garance e ele pára repentinamente. A realidade se confunde com a representação, o palco copia a vida e a vida repete os dramas vividos no palco, segundo o conceito shakespereano (em As You Like It, ato II, cena VII).

O script de Prévert intitulava-se originalmente Funambules. Boa parte da intriga realmente tratava do Teatro dos Funâmbulos, onde se exibiam os acrobatas e os mímicos, e a primeira imagem na tela, a de um equilibrista caminhando na corda bamba, pode servir como resumo de uma das mensagens do filme, ou seja, a de que a vida é de uma aventura arriscada manobrada pelos fios do destino. Entretanto, Funambles não servia para exprimir a fusão das duas presenças essenciais, a do intérprete e a do espectador que cercavam cada combatente do celulóide. Como bem observou Edward Turk em notável artigo, Les Enfants du Paradis foi concebido como um filme espetacular sobre o ato de ver e ser visto num mundo onde a distinção entre a vida das ruas e teatro, audiência e ator, realidade e ilusão, se desagregam à medida em que cada qual se cruza, se nutre e se encontra uma na outra.

No set de filmagens de Les Enfants De Paradis, 1945.

Os críticos gastaram muita tinta tentando determinar a verdadeira autoria de O Boulevard do Crime, mas, de fato, Carné e Prévert atuaram em perfeita coesão, e sua colaboração foi enriquecida pelas sugestões do diretor de arte Alexandre Trauner que permaneceu com eles em Tourette-sur-Loup. Em dezembro de 1940, o governo de Vichy criara o Comitê de Organização da Indústria Cinematográfica (COIC), com a finalidade de reconstruir a indústria fílmica francesa “numa base sólida e racional”, o que significava, acima de tudo, a eliminação dos profissionais judeus. Por isso, Trauner, judeu húngaro, teve que trabalhar clandestinamente e, por precaução, seu nome não ia aparecer nos letreiros, constando apenas os de León Barsacq e Raymond Gabutti, seus auxiliares. Outro que funcionou Às escondidas foi Joseph Kosma, responsável por parte da música do filme; só Maurice Thiriet e Georges Mouque (partitura para as pantominas) receberiam os créditos.

Jean-Louis Barrault e Gaston Modot em Les enfants du paradis (1945)

No elenco central, a fita reunia algumas das maiores expressões do teatro e da tela como Barrault, Brasseur, Arletty, Herrand, Salou e a novata Maria Casarès, filha do político espanhol exilado, Casarès Quiroga. Posteriormente ela se revelaria como grande atriz na Comédie-Française em 1952 e, a partir de 1954, no Théâtre National Populaire, em memoráveis produções ao lado de Gérard Philipe. Foi um pouco difícil conseguir Barrault, pois a Comédie-Française já o havia contratado para dirigir Le Soulier de Satan, de Paul Claudel, numa nova e abreviada versão, musicada por Honneger. O diretor da Comédie não gostava de Cinema e fez de tudo para impedir a saída do ator. Carné chegou a pensar em substituí-lo por Jacques Tati, então mais associado à mímica, mas finalmente Barrault obteve a liberação. Por curiosidade, entre os fabulosos coadjuvantes (Pierre Renoir, Gaston Modot, Marcel Pérès, Jane Marken, Palau, etc.) estava o mestre da mímica de Barrault (e de Marcel Marceau), Etienne Decroux, no papel de Anselme, pai de Baptiste.

As filmagens começaram a 16 de agosto de 1943. As sequências exteriores no Boulevard du Crime e a maioria dos interiores seriam rodadas nos estúdios La Victorine, em Nice, mas, três dias depois, a produção foi interrompida. A invasão da Sicília pelas tropas americanas em julho e agosto haviam alarmado tanto o governo de Vichy, que este ordenou o retorno imediato de toda a equipe para Paris, indefinidamente. Pouco após, por causa de algumas gotas de sangue judeu detectadas na descendência do produtor André Paulvé, os nazistas sentenciaram-no à inatividade. Durante os dois meses que se seguiram, tudo parecia indicar que Les Enfants du Paradis iria ser arquivado, mas, efetuadas certas negociações, a Pathé concordou em assumir a produção. As filmagens reiniciaram-se a 9 de novembro e duraram um ano, com os gastos finais, sem precedentes, de 58 milhões de francos.

Ausente do cast na nova fase estava Robert Le Vigan, encarregado de viver Jéricho, o esfarrapo comerciante de roupas usadas, encarnação prévertiana do destino (no primeiro esboço do roteiro, Jéricho era morto no desenlace por Baptiste). Diante da invasão, conhecido por suas ideias anti-semitas e seu apoio a Vichy, Vigan fugiu para Sigmaringen na Alemanha; em seu lugar colocaram Pierre Renoir, irmão do cineasta Jean Renoir. Por outro lado, oficiais e soldados alemães se imiscuíram entre os figurantes, a fim de se certificarem de que uma certa percentagem dos componentes da equipe pertencia a sindicatos favoráveis aos ocupantes enquanto agentes da Gestapo caçavam prováveis membros da Resistência.

Depois da impressionante reconstituição de uma aldeia de Flandres do século XVIII para o filme Quermesse Heróica/1935, de Jacques Feyder (no qual Carné exerceu a função de assistente do diretor), nenhum outro cenário tão grandioso foi construído para um filme francês. Os décors ergueram-se num lote adjacentes aos estúdios La Victorine, que havia servido como sítio do castelo esbranquiçado de Os Visitantes da Noite, porém como o solo sofreu um declive, 800 metros cúbicos de terra tiveram de ser cavados e redestribuídos.

Foram necessários 35 toneladas de material para andaimes, 350 toneladas de gesso e 500 metros quadrados de vidro para construir as quase 50 fachadas dos teatros e outros edifícios. Carné planejara filmar, com o concurso inestimável do fotógrafo Roger Hubert, diversas sequências noturnas com o Boulevard fortemente iluminado, mas, como ainda não se usava a técnica da “noite americana”, teve de pedir licença às autoridades alemãs. Negada a permissão, muitas cenas foram sacrificadas, mas, duas delas, consideradas indispensáveis (aquela em que Baptiste chega ao Grand Théâtre e outra quando ele e Lemaitre param para beber numa tenda perto do Boulevard), puderam ser filmadas mais tarde em estúdio, utilizando-se maquetes iluminadas das fachadas dos prédios.

Todo o suntuoso e extenso cenário do Boulevard apresentou-se de maneira soberba na sequência antológica do Carnaval, indubitavelmente um dos momentos mais líricos do Cinema. Nela intervieram cerca de 180 extras, orientados pelo assistente de direção Pierre Blondy, mas o primeiro ensaio revelou que os dançarinos mascarados inconscientemente tendiam a se agrupar no fundo do quadro, deixando muito espaço na frente. Carné encontrou uma solução prática: mandou colocar cestas de vime em pontos estratégicos, usando-as como obstáculos invisíveis pelas câmeras que evitavam os figurantes se ajuntarem.

As filmagens em Nice terminaram poucos dias antes da invasão dos aliados na Normandia, em junho de 1944, e as adicionais, em Paris (Joinville) atrasaram. Carné, porém, não se incomodou com isso, porque desejava que Les Enfants du Paradis fosse o primeiro filme francês a ser lançado após a Libertação. Em janeiro de 1945, a fita estava totalmente pronta. Três cópias em negativo foram escondidas: uma na caixa-forte do Banco da França, outra no cofre da Pathé e a terceira na adega de uma vila no sul do país. A estréia de gala ocorreu a 9 de março, no Palais de Chaillot, em Paris. A longa duração do filme (195 minutos) constituía um problema para a distribuidora, a Gaumont: seus dirigentes pensaram em dividi-lo em duas partes, intitulando-as Le Boulevard du Crime e L’Homme Blanc (Isto é, Pierrot), exibindo-as como se fossem duas fitas. Carné e o produtor executivo Raymond Borderie protestaram veementemente, propondo novo esquema, aceito com relutância: a exibição seria feita em dois segmentos, seguidos, numa só sessão, aumentando-se os preços dos ingressos. Todavia em muitos países exibiram-se versões condensadas de 161 e até de 144 minutos, inclusive no Brasil onde somente no relançamento, em 1977, o público pôde assistir à versão integral.

Embora pareça incrível, Carné, apesar de todos os esforços para mostrar aos nazistas e ao resto do mundo que a cultura fancesa não estava completamente submetida ao inimigo, ainda teve d enfrentar insinuações de colaboracionismo, por ter sido empregado pela Continental, firma produtora filial da UFA, criada para realizar filmes na França, e por ter feito dois filmes com a atriz Arletty que, na data de estréia de Les Enfants du Paradis, estava presa em Drancy, face ao seu relacionamento íntimo com o oficial alemão Hans Sohering. Com efeito, durante a ocupação, o diretor fora coagido a assinar um contrato com a Continental, mas conseguiu rompê-lo poucos dias depois e jamais filmou uma única tomada para a dita companhia.

Em 1946, Les Enfants du Paradis recebeu menção honrosa no festival de Veneza e, em 1979, o prêmio Cesar especial, tributos justíssimos a uma realização artística excepcionalmente inteligente, cheia de encanto e poesia, sempre apreciada por todos os que se voltam, de preferência, para as coisas do espírito.

Assista o filme clicando no player acima. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

FICHA DO FILME:

O BOULEVARD DO CRIME (1945)
Les enfants du paradis (título original)
Drama, Romance | Estréia: 09 Março 1945 (Paris)

Direção: Marcel Carné
Roteiro: Jacques Prévert (cenários e diálogos)

Elenco principal (em ordem dos créditos):
Arletty Arletty … Claire Reine, dite Garance
Jean-Louis Barrault … Baptiste Debureau
Pierre Brasseur … Frédérick Lemaître
Pierre Renoir … Jéricho
María Casares … Nathalie
Gaston Modot… Fil de Soie
Fabien Loris … Avril
Marcel Pérès … Le directeur des Funambules
Palau … Le régisseur des Funambules
Etienne Decroux … Anselme Debureau (as Étienne Decroux)
Jane Marken … Mme Hermine (as Jeanne Marken)
Marcelle Monthil … Marie
Louis Florencie … Le gendarme des ‘Adrets’
Habib Benglia … L’employé des bains turcs
Rognoni Rognoni … Le directeur du Grand Théâtre
Jacques Castelot … Georges
Paul Frankeur … L’inspecteur de police
Albert Rémy … Scarpia Barrigni
Robert Dhéry … Célestin
Auguste Bovério … Le premier auteur de ‘L’auberge des Adrets’
Paul Demange … Le deuxième auteur de ‘L’auberge des Adrets’
Louis Salou … Édouard comte de Montray
Marcel Herrand … Pierre-François Lacenaire

Companhia da Produção:
Société Nouvelle Pathé Cinéma

Especificações Técnicas:
Tempo de projeção:
3 hr 9 min (189 min)
3 hr 10 min (190 min) (França)
2 hr 43 min (163 min) (editado) (USA)
Sound Mix: Mono
Color: Black and White
Aspect Ratio: 1.37 : 1
Negative Format: 35 mm
Cinematographic Process Spherical
Printed Film Format 4K DCP (restored)
35 mm

Fonte de Pesquisa: Revista Cinemin/A.C. Gomes de Mattos, IMDb e The Movie Database.

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