LUIS BUÑUEL: 92 Anos de Surrealismo

Logo no seu filme de estréia, Un Chien Andalou, Luis Buñuel chocou o público com cenas como a que mostra um olho sendo cortado por uma navalha. Buñuel criou um novo estilo e sua vida foi uma sucessão de escândalos, e somente após os 50 anos de idade ele foi consagrado mundialmente. Buñuel morreu em julho de 1983, aos 83 anos de idade.

Luis Buñuel nasceu em 22 de fevereiro de 1900 em Calanda, província de Taruel, na Espanha, promogênito de sete irmãos, filho de uma abastada família que a princípio pensou que ele se tornaria emissário de Deus. Durou pouco essa vocação: aos 15 anos, perderia completamente a fé e largaria o colégio dos jesuítas e se tornaria um “ateu graças a Deus”, como ele próprio depois se autodefiniria, e a Igreja, juntamente com a burguesia, seria sua principal inimiga durante os anos seguintes de sua longa existência.

Com cerca de oito anos, foi ao cinema pela primeira vez e ficou tão impressionado com as imagens da tela que, assim que pôde, abraçou a Sétima Arte com unhas e dentes, num casamento feliz, embora tumultuado, que duraria até os últimos dias de sua existência. Seu primeiro filme, entretanto, só ficaria pronto em 1928, embora tivesse sido rodado em duas semanas: Un Chien Andalou (foto abaixo), feito de parceria com Salvador Dali (que ele conhecera em 1918 numa república de estudantes em Madri) surgiu de uma conversa entre os dois, em que se relataram os sonhos tidos na véspera. Escrito e roteiro, Buñuel viajou parta Paris e realizou as filmagens. Dali apareceu apenas no último dia das filmagens e pouco tempo depois, uma seleta de surrealistas assistia à première mundial, como complemento a um outro filme de Man Ray. Buñuel, precavido, levou no bolso do casaco algumas pedras para se defender em caso de necessidade, mas não chegou a fazer uso delas.

Fortemente impressionados com as imagens que viam na tela – uma das primeiras cenas do filme mostra um olho sendo cortado por uma navalha – os surrealistas reconheceram no filme do jovem cineasta a transposição perfeita para a Sétima Arte do seu movimento, e gostaram. A crítica nem tanto – as reações foram as mais iradas possíveis, e muitos consideraram Buñuel um louco – mas Un Chien Andalou virou moda nas conversas de intelectuais nos salons de thé parisienses, e isso só serviu para irritar ainda mais o jovem Luís, que se sentia frustrado: sua intenção mesmo era chocar as pessoas. Isso ele só conseguiu plenamente com seu segundo filme, L’Age d’Or (1930), o primeiro grande escândalo dentre os muitos que o acompanhariam a partir de então.

Lançado em outubro de 1930, durante dois meses L’Age d’Or foi exibido normalmente no Studio 28, em Paris. Mas na noite de 3 de dezembro, um grupo de manifestantes invadiu a sala de projeção jogando bombas de fumaça e começou o maior quebra-quebra, que se estendeu até à exposição paralela de quadros surrealistas no salão contínuo ao cinema. Poucos dias depois, a Censura proibia compĺetamente o filme, e a imprensa atacava com todas as armas o cineasta, que a essa altura já não estava mais nem em Paris: o representante da MGM, que tinha visto o filme, concluiu que Buñuel, apesar da sua proposta estapafúrdia, poderia render alguma coisa para o cinema americano. Assim, ele ganhou de presente um estágio em Hollywood, e a única coisa que teria que fazer seria observar os grandes cineastas trabalhando. Mas durou pouco o estágio: um dia um produtor lhe perguntou qual era a sua opinião sobre um filme com a atriz Lili Damita, falando em espanhol, e a resposta mal humorada de Buñuel – “Não quero ouvir prostitutas” – lhe custou a imediata expulsão de Hollywood.

Buñuel voltou direto para a Espanha, disposto a rodar o seu terceiro filme, Las Hurdes (1932 / foto abaixo), um documentário cruel sobre a região homônima que fica na fronteira entre Portugal e Espanha. Financiado com as 20 mil pesetas que um amigo ganhara na loteria, o filme provocou de tal forma a ira do governo espanhol que isso praticamente significou o fim da carreira do cineasta: uma interrupção que duraria cerca de quinze anos, durante a qual, para sobreviver, Buñuel trabalharia em diversas atividades ligadas ao Cinema – principalmente como produtor – mas sem assinar nenhum filme, no eixo Madri-Paris-Nova York.

Em 1947, após um período de férias no México, Buñuel sentiu que esse país poderia lhe dar enfim a tranquilidade de que tanto necessitava para dirigir sem problemas. No México, nesa primeira fase, realizou nada menos que 14 filmes. O primeiro, Gran Casino (1947) foi um fracasso. Mas o sucesso comercial seguinte, El Gran Calavera (1949) permitiu ao produtor Oscar Dancigers financiar o seguinte, Los Olvidados (1950), o primeiro grande marco na carreira do diretor desde Las Hurdes. Um belo filme sobre a delinquência juvenil nas grandes cidades, arrebatou vários prêmios e tirou finalmente Buñuel do listão dos cineastas malditos. Fez mais do que isso: Los Olvidados marcou também a retomada de um estilo que se faria presente em todos os seus filmes desde então.

Cena do filme: Os Esquecidos (Los Olvidados, 1950).

Agora Buñuel já era um diretor de prestígio, e realizava de dois a três filmes por ano, mas essa fase mexicana foi entremeada por muitos baixos e poucos altos, embora todos tragam a marca registrada buñuelana. A rigor, porém, além de Los Olvidados, podem-se destacar apenas mais duas obras-primas: El (O Alucinado/1953) e Ensayo de un Crimen (1955), além de Robinson Crusoé (1953), adaptação cinematográfica do romance homônimo de Daniel Defoe e também sua primeira experiência com a cor.

Em 1956, Buñuel volta à França, e lá realiza mais dois filmes, Cela s’Apelle L’Aurore e La Morte en Ce Jardin, mas é novamente no México que realizará sua próxima obra-prima: Nazarin (1957), a história de um padre que tenta seguir à risca a bondade pregada pelo Evangelho, e uma preparação natural para o clássico seguinte, Viridiana. Mas, antes disso, realizaria ainda Los Ambiciosos (1959), co-produção franco-mexicana, e The Young One (1960), seu único longa produzido com capital norte-americano.

Viridiana (1961 / foto acima) marca a volt do cineasta à sua pátria, graças a uma anistia que também trouxe de volta vários outros intelectuais espanhóis. De início, houve uma certa liberalidade: a censura franquista liberou o roteiro, fazendo cortes mínimos que não prejudicavam a obra. Mas quando o filme foi exibido, o escândalo foi comparável aos dos primeiros filmes de sua carreira. Cenas como a do banquete dos mendigos, que é uma reprodução fiel da Santa Ceia, tendo um cego no lugar de Cristo, causaram a interdição total do filme na Espanha, a demissão dos censores e uma nova expulsão de Buñuel, que acabou voltando ao México e rodando lá o delicioso El Angel Exterminador (1962), uma narrativa declaradamente surrealista que mostra um grupo de burgueses retidos no salão de uma mansão por uma parede invisível e que vão sucumbindo à fome, à doença e à morte. Desta vez não houve escândalos.

Quase todos os filmes seguintes de Buñuel seriam rodados na França, e com a colaboração do roteirista Jean-Claude Carrière, a quem ele ditaria mais tarde seu livro de memórias Meu Último Suspiro, com excessão de Aimon del Desierto (México, 1965) e Tristana (Espanha, 1970). A carreira do cineasta estava completamente consolidada, e essa sua última fase mostra filmes reconhecidos unanimamente pela crítica e por uma certa parcela do público (de modo geral, os filmes de Buñuel nunca tiveram grandes bilheterias). O mais agressivo talvez tenha sido A Bela da Tarde (Belle de Jour/1967). A história de uma burguesa que sofre de frigidez no relacionamento com o marido e que passa a frequentar um bordel durante as tardes. Os outros são brincadeiras surrealistas em que Buñuel aperfeiçoou ao máximo sua linguagem, como La Voie Lactée (O Estranho Caminho de São Tiago/1968), que é a peregrinação de dois vagabundos até Santiago de Compostela, que encontram pelo caminho personagens históricos e bíblicos sempre envolvidos em situações religiosas ou evangélicas. Buñuel aprendera a ridicularizar seus tradicionais inimigos – a Igreja e a Burguesia de maneira sutil e jocosa. Le Charme Discret de la Burgeoisie (1972) é a história de um grupo de burgueses que jamais consegue concluir uma refeição eternamente interrompido pelas mais diversas circunstâncias, e valeu ao cineasta o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1972. Le Fantôme de la Liberté (1974) é uma estranha inversão de valores, onde cartões postais da cidade de Paris são considerados obscenos e as pessoas se reúnem à mesa para defecar e se recolhem a compartimentos reservados para comer.

O último filme de Buñuel foi feito em 1977: Cest Obscur Objet du Désir é uma relação sadomasoquista entre um casal que nunca consegue fazer amor, principalmente devido às artimanhas da protagonista, vivida simultaneamente por duas atrizes que se revezam em cena.

Buñuel gostava de mostrar em seus filmes situações que jamais chegavam a se realizar, numa eterna frustração desde o início de sua carreria: em L’Age d’Or um casal tenta durante todo o filme manter uma frenética relação sexual que jamais se completa. Em O Anjo Exterminador, os burgueses tentam a todo custo sair de um salão onde houve uma festa, mas são retidos por uma parede invisível. Em Le Charme Discret, é um banquete que jamais se realiza, e em Cet Obscur Objet du Désir o casal protagonista jamais chega às vias de fato. Usando fórmulas simples como essas, Buñuel conseguiu criar uma linha completamente original e pessoal que lhe garantiu um lugar eterno na galeria dos melhores cineastas de todos os tempos.

A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée, 1969 – França, Itália, Alemanha)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 28 de fevereiro de 1969

SINOPSE: Dois peregrinos vagabundos viajam em direção ao caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, um lugar místico e de influente religiosidade. Em meio à sua jornada, acabam se deparando com diversos personagens bíblicos e históricos, confrontando alguns mistérios do cristianismo e suas heresias.
Em Via Láctea, Buñuel faz aquela que talvez seja sua maior e mais irônica crítica à igreja, utilizando-se de histórias veridicamente registradas nos escritos cristãos.

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SOBRE O FILME: Provavelmente o filme mais subestimado e talvez o menos visto da 2ª fase francesa de Buñuel (ao lado de Esse Obscuro Objeto do Desejo), A Via Láctea é um amálgama de elementos como razão, fé, fanatismo, fatos históricos, sexualidade e críticas à igreja que o diretor abordou em suas obras de temática religiosa durante toda a carreira. O roteiro, assinado por Buñuel e Jean-Claude Carrière, não traz uma única história ou se centra em um único motor narrativo, o que torna o filme um exercício bastante exigente. Num olhar rápido sobre a obra, poderíamos resumi-la como a história de dois peregrinos que vão para Santiago de Compostela e, no meio do caminho, assim como prevê a cartilha da peregrinação, encontram obstáculos e tentações.

Contudo, A Via Láctea não é um filme sobre peregrinos, até porque o próprio conceito é deturpado no roteiro, só para mostrar uma espécie de “decisões automáticas” de religiosos e descrentes. Um lado aceita enfrentar as maiores adversidades para encarar algo que não acredita. O outro lado ignora todas as leis que acha verdadeiras e parte para uma missão sem propósito. Esses são os perfis da dupla de peregrinos do filme. E é através deles que Buñuel e Carrière expõem o ciclo vicioso e assassino da fé ou os fins justificados pelos meios nada sutis que a Instituição Religiosa (aqui a católica, mas que pode ser qualquer uma outra) encontraram para fazer valer sua doutrina através dos tempos.

Há até uma espécie de ironia na peregrinação de Jean e Pierre, visto que o primeiro encontro deles é justamente com o diabo, que praticamente define o final da jornada. Embora caminhassem em nome da fé e do sacrifício (mesmo sem fé ou sem propósito), eles na verdade seguiam para um momento de prazer fugaz com uma prostitua que geraria os chamados “dois filhos do pecado”.

É nessa brincadeira narrativa que as metáforas e as indicações oníricas e surrealistas ganham corpo e abrilhantam o roteiro, contando com uma fotografia e figurinos estupendos. Os tempos históricos se misturam. Os peregrinos seculares que rumam para o pecado têm sua linha do tempo ligada à obediência de Cristo, ao questionamento da imaculada concepção, da transmutação do pão no Corpo, da Santíssima Trindade e da própria doutrina eclesiástica. É como se o roteiro fosse um grande novelo histórico e alguém bem malvado o fosse desenrolando, refletindo acontecimentos separados no tempo, mostrado o início sangrento para algo considerado puro e, principalmente, fazendo perguntas e exibindo teorias ou outras formas de explicar qualquer coisa além do dogma.

Particularmente não entendo a divisão da crítica (especialmente a francesa) em relação ao filme. A história mantém um equilíbrio tão grande, que não podemos dizer que o longa é de todo uma crítica, uma defesa, um deboche, um questionamento, um desprezo à religião. Na verdade, A Via Láctea é um pouco de tudo isso. É o momento mais verdadeiro de Buñuel em relação à igreja, e digo isso porque os dados apresentados no filme, embora trabalhados de maneira metafórica ou surrealista, são reais. A crônica teológica ou mesmo a Bíblia serviram de fonte para o texto, que se aproveita desses elementos para colocar no mesmo novelo-fílmico o Marquês de Sade, Jesus, Maria, os discípulos, os peregrinos, uma prostituta, um padre louco, os inquisidores, os revolucionários, o Papa, a polícia/Exército e São Pedro.

A religião e a fé são um produto da História e é só olhando para a História que o fiel vai ter ciência da origem daquilo que ele crê. Em nenhum momento Buñuel ridiculariza ou escanteia a fé. Exemplo máximo disso é a aparição de Maria para um dos “caçadores” que havia atirado em um rosário. O que o diretor faz é dissecar tudo o que foi produzido em nome da fé, na maioria das vezes, de má-fé. Já na abertura temos isso sutilmente apresentado, quando vemos a contestação do próprio Papa sobre reconhecer os restos mortais de São Tiago. Aliás, a questão da fabricação de relíquias, artefatos sagrados, milagres e afins aparece no filme como raiz da maior parte dos tempos históricos, mostrando que cada tempo e cada lugar fabricou os seus próprios demônios, milagres e símbolos santificados.

A Via Láctea ou O Estranho Caminho de São Tiago é um filme-tese de Buñuel, um amálgama de suas realizações ao longo dos anos. Se o olharmos em perspectiva, perceberemos que ele é um complemento maduro das experiências obtidas em NazarinO Anjo ExterminadorViridiana ou Simão do Deserto, só para citar alguns. Mas é preciso ter um olhar além do óbvio. Caso contrário, o filme será apenas uma confusa profusão de heresias, pecados e injustiças contra a Santa Madre Igreja, atitudes que (alguém certamente dirá) serão fatalmente julgadas pelo Deus do Amor. Quer prova maior de que fé, doutrina e Instituição + hierarquias não combinam? As contradições saltam aos olhos. E é exatamente dessas contradições entre fé e toda a hipocrisia e sujeira que ergueram em torno dela através da História do mundo que A Via Láctea trata.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière
GÊNERO: Drama
ORIGEM: França, Itália, Alemanha
DURAÇÃO: 1h 42min
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ELENCO PRINCIPAL:
Paul Frankeur … Pierre
Laurent Terzieff … Jean
Alain Cuny … L’homme à la cape
Edith Scob … La Vierge Marie
Bernard Verley … Jésus
François Maistre … Le curé fou
Claude Cerval … Le brigadier
Muni … La mère supérieure
Julien Bertheau … Richard ‘maître d’hôtel’
Ellen Bahl … Madame Garnier
Michel Piccoli … Le marquis de Sade

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Luiz Santiago.


SIMÃO DO DESERTO (Simón del desierto, 1965 – México)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 27 de agosto de 1965

SINOPSE: Simão Stilites é um evangelista penitente, ou um santo milagreiro que resolveu não mais pisar em terra firme, passando a viver no alto de uma coluna no meio do deserto. Para suas pregações aparecem pessoas de todos os lugares. Embora não seja, ou não demonstre ser presunçoso, Simão tem consciência de que suas orações são milagrosas e não se recusa a fazê-las (há um contraponto religioso-ideológico ferrenho com Nazarin). Do alto de sua coluna, essa espécie de João Batista sem o batismo segue a mesma premissa da “voz que clama no deserto”, lidando com a inveja de alguns de seus visitantes religiosos e com as tentações do diabo, que chega a se disfarçar de Jesus Cristo para convencê-lo a descer de seu posto e mudar de vida.

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SOBRE O FILME: O roteiro deste filme baseia-se na história de Simão Stilites que, dizem, viveu 37 anos no topo de uma coluna pregando a cristandade, até sua morte em 459 A.C..
Luiz Buñuel usa a história para um ataque divertido e cínico contra a religião e o fanatismo. Assim, o personagem central do filme, Simão, é um fanático religioso que passa sua vida no alto de sua coluna, no meio do deserto, rezando, pregando pela salvação, abençoando os peregrinos e ditando regras de conduta. O demônio, disfarçado, tenta seduzi-lo o tempo todo…

Com Simão do Deserto (1965), Luis Buñuel finaliza o seu triplo ataque cáustico a tudo o que é demasiado, exercício iniciado em Viridiana, seguido por O Anjo Exterminador e terminado aqui. O filme é uma comédia cínica e desconcertante sobre o fanatismo, a idolatria e a suposta santidade de algumas pessoas e objetos. Ao contrário de Viridiana, Simão não é desvirtuado pelo pecado e pelos pecadores que o cerca. Por ser considerado um santo, ele é tentado por algo “mais forte”: o próprio diabo (Silvia Pinal).

Aqui Buñuel brinca com o Apocalipse e coloca toda a humanidade no deserto mexicano e no Brooklin, às portas da perdição, ou seja, do seu próprio desejo. Não se ouve mais o Hino dos Peregrinos ou os tambores de Calanda, como no começo do filme. Na desvirtude de Simão, que está sentado à mesa de um bar bebendo e fumando, o que se ouve é rock’n roll. Buñuel escarnece de todo e qualquer fanatismo e mostra que por detrás de atitudes pias e penitentes, há um profundo desejo de perder-se.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel (based on a story by), Julio Alejandro (screenplay and dialogue)
GÊNERO: Curta/Comédia/Drama
ORIGEM: México
DURAÇÃO: 43min
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ELENCO PRINCIPAL:
Claudio Brook … Simón
Enrique Álvarez Félix … Hermano Matías / Young monk
Hortensia Santoveña … Madre de Simón / The mother
Francisco Reiguera … Monje viejo / Old monk
Luis Aceves Castañeda … Hermano Trifón / Monk
Enrique García Álvarez … Hermano Zenón / Old monk
Antonio Bravo … Monje / Monk
Enrique del Castillo … El mutilado / The Mutilated One
Eduardo MacGregor … Hermano Daniel / Monk
Silvia Pinal … El diablo / The Devil

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Luiz Santiago


O ANJO EXTERMINADOR (El ángel exterminador, 1962 – México)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 16 de dezembro de 1962

SINOPSE: Um casal da elite da sociedade aristocrata convida um grupo de amigos para um jantar em sua luxuosa mansão. Mas, depois do evento, eles descobrem que estão presos em uma sala. Não há nada físico, como grades, que os prenda ali mas, ao mesmo tempo, ninguém consegue sair ou entrar daquele local: algo os faz de réfens. Enquanto os dias passam, todas as máscaras e convenções sociais vão desaparecendo, dando lugar aos instintos mais primitivos de cada um.

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SOBRE O FILME: Se em Viridiana, Luis Buñuel dessacralizou a beatice e a caridade, instaurando a desvirtude através da apostasia, em O Anjo Exterminador (1962), o cineasta traria a desvirtude à aristocracia. Neste filme, o diretor despe a alta classe de seu “discreto charme”, retira a pompa da ocasião em que se reúnem, arranca as etiquetas, expele as verdadeiras personalidades de cada um e ainda critica a igreja, na sequência final do filme, quando a polícia abre fogo contra a multidão na praça e um bando de ovelhas entram na casa de Deus: providência divina de alimento para os que ali permaneceriam trancados… ou metáfora da união entre fascismo e igreja?

Eis a trama de O Anjo Exterminador: uma festa de gala é oferecida na mansão de um rico casal. Os convidados e os anfitriões acabam de chegar de uma audição de Lucia de Lammermoor, de Donizetti. As horas se passam, e quando os convidados preparam-se para despedir-se, algo estranho acontece: ninguém consegue transpor os umbrais da sala ou entrar na mansão – vê-se aqui um alusão ao episódio do extermínio dos primogênitos do Egito, narrado nos capítulo 11 e 12 do livro de Êxodo, no Antigo Testamento. Os dias se passam com as pessoas trancadas na sala. Ninguém consegue manter uma aparência social aceitável por tanto tempo e então as máscaras pessoais caem. A desvirtude de Buñuel está instaurada.

O tema religioso, ao contrário do que muita gente pensa, não é o motivo principal desta obra. A religião aqui é apenas mais uma obrigação social a ser cumprida pelos aristocratas e artistas. Na realidade, todos pretendem pavonear seus corpos e seu intelecto, exibir felicidade e saúde, fingir ser o que não são. Mas o sortilégio exterminador tem outros planos para esse jantar na Rua da Providência (um nome irônico para o que vemos acontecer com esses pobres coitados).

No início da obra ouvimos um oratório e, no final, o badalar dos sinos da igreja que recebe as ovelhas desesperadas: último refúgio do falso cristão? Lobos fascistas ou burgueses vestidos em pele de cordeiro? População alienada que corre para uma dose de ópio enquanto a polícia atira, na praça? A pergunta não cala: o que significa a cena final de O Anjo Exterminador? A “noite da verdade” que constitui a primeira parte do filme já começa de modo estranho. Antes mesmo da chegada dos convidados, os empregados sentem uma necessidade imperiosa de sair da casa. O prato principal da noite é derrubado pelo garçom e ninguém come o jantar. Famintos, os convidados passam à sala para uma sonata de Paradisi executada ao piano. Mais tarde, a repetição desse momento será a chave para o fim do sortilégio.

O Anjo-Buñuel extermina a falsa moral e as aparências neste filme. Maçons, feiticeiras, histéricas e doentes terminais dividem o espaço com um morto, um casal suicida, um pervertido sexual… A tão estampada virtude burguesa é aniquilada. Por fim, o Anjo abre as portas da casa para fechá-las novamente, na igreja. Padres e fiéis encurralados pelo Anjo-Buñuel, que lhes exige uma vida autêntica. Fora das portas do templo, o extermínio prossegue, mas não pelas mãos do Anjo, que repudia a política da força e da repressão. O resultado dessa segunda fase de revelações de personalidades nem a câmera de Buñuel tem estômago de esperar para ver.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel (screenplay by), Luis Alcoriza (story by)
GÊNERO: Drama/Fantasia
ORIGEM: México
DURAÇÃO: 1h 35min
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ELENCO PRINCIPAL:

Silvia Pinal … Leticia ‘La Valkiria’
Jacqueline Andere … Alicia de Roc
José Baviera … Leandro Gomez
Augusto Benedico … Carlos Conde
Luis Beristáin … Cristián Ugalde
Antonio Bravo … Sergio Russell
Claudio Brook … Julio
César del Campo … Alvaro
Rosa Elena Durgel … Silvia
Lucy Gallardo … Lucía de Nobile

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Luiz Santiago


OS ESQUECIDOS (Los Olvidados, 1950 – México)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 9 de dezembro de 1950

SINOPSE: Nos subúrbios da Cidade do México um grupo de jovens delinquentes passa os dias cometendo pequenos roubos. Um fugitivo de um reformatório, Jaibo (Roberto Cobo), por ser mais velho e experiente se torna o líder natural deles. Um dia, na companhia de Pedro (Alfonso Mejía), Jaibo se descontrola e espanca Julian (Javier Amézcua) até a morte, pois supostamente este o teria delatado. Pedro, que tem uma grande necessidade de carinho materno mas é ignorado por sua mãe (Estela Inda), carrega um sentimento de culpa por se considerar cúmplice de Jaibo, que se comporta como se nada tivesse acontecido. Jaibo ainda tenta seduzir a mãe de Pedro, que não lhe dá nenhuma abertura, fazendo com que o confronto entre Jaibo e Pedro seja algo inevitável.

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SOBRE O FILME: Os Esquecidos foi a primeira obra grandiosa que Luis Buñuel realizou em terras mexicanas. Sua jornada no país começou com o drama musical Gran Casino (1947), uma história de amor com canções entoadas por duas grandes estrelas da música mexicana na época. Dois anos depois veio o sucesso El Gran Calavera, filme que animou o produtor Óscar Dancigers a procurar outras parcerias e dar a Buñuel a liberdade de fazer um filme de seu gosto. O resultado veio em 1950, com Los Olvidados.

Já na introdução, o diretor expõe uma situação característica das grandes cidades do mundo, a saber, o abandono social e descaso político para com crianças, adolescentes e jovens dos subúrbios. Problemas como falta de alimentação adequada, educação e estrutura familiar são aludidos e já temos bem clara a ideia de um ciclo vicioso que se agarrou ao próprio funcionamento desses grandes centros, onde sempre haverá lotes de famílias miseráveis e caminhos abertos para candidatos ao crime.

Em uma estrutura narrativa simples e de forma clássica, Buñuel nos apresenta pouco a pouco o cotidiano de uma área periférica da cidade. Na história central, Jaibo foge do reformatório e logo ao chegar em sua antiga região, encontra amigos e desconhecidos que de pronto o admiram e ouvem com atenção suas histórias. Esse grupo ouvintes é formado por adolescentes e crianças que passam a maior parte do seu tempo nas ruas roubando ou cometendo atos de vandalismo e violência. De pronto, Jaibo se torna um herói, o protótipo do bandido “macho”, corajoso e sagaz, que conseguiu fugir do reformatório e, em pouco tempo, já estava distribuindo dinheiro e bebida para seus “amigos”.

A narrativa ganha o seu foco de tensão quando Jaibo mata a Julián na frente de Pedro, um adolescente que tenta seguir um caminho de vida honesto mas é tragado aos poucos para a delinquência, especialmente quando trava amizade com Jaibo. Diante desses elementos dramáticos e de suas repercussões, o diretor consegue pintar um panorama social bem específico sobre a “criação” dos menores infratores e, que apesar de ser uma realidade de 1950, continua verdadeira em nossos dias.

Mas em vez de realizar um filme-denúncia parcial, defendendo os adolescentes como pobres coitados que foram obrigados a entrar para o crime, Buñuel expõe a situação e não toma partido. Vemos também a pior face desses esquecidos. Se por um lado temos como justificativa uma estrutura social falha (mais precisamente institucional, uma vez que falamos de Estado e família), por outro, há diversos caminhos que se apresentam para quem vive nesse tipo de situação. Jovens como Julián, por exemplo, que trabalha para sustentar a família — inclusive o pai alcoólatra — é um caso. A esse grupo adicionamos as tentativas de Pedro em fugir da delinquência, arrumando empregos, mas sempre tendo de correr atrás dos atos comprometedores de seu amigo, a quem só percebe como uma má companhia quando já é tarde para consertar as coisas.

Nem mesmo as vítimas óbvias como o Don Carmelo, o cego, escapa da câmera crítica do diretor, que o flagra agredindo e explorando o pequeno Ojitos ou assediando a jovem Meche. Buñuel não elege nenhuma vítima absoluta e nem cogita a palavra “inocente”. Os Esquecidos nos traz então os dois lados da moeda, denunciando as falhas estruturas sociais e apontando os erros de autoridades, mães, pais e filhos. Todo o conjunto da máquina social parece estar doente.

Não é de se espantar que Buñuel tenha levado o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes no ano seguinte. Sua capacidade em guiar uma película desse porte, com bom desenvolvimento psicológico dos personagens e incursões surrealistas perfeitamente contextualizadas é um ganho notável. O roteiro, que escreveu em parceria com Luis Alcoriza, dá todas essas possibilidades para a câmera e guia a obra para um desfecho nada otimista, todavia, com alternativas para melhora expostas desde o início.

O olhar atento para os direitos da criança e do adolescente é uma função que infelizmente hoje tem sido mal usado (quando usado), muitas vezes ajudando a minimizar o efeito catastrófico que algumas ações desses menores infratores tem sobre a vida de outros cidadãos. Buñuel clama por socorro mas não inocenta os culpados. O dever para com o meio social também deve estar em pauta, coisa que muitos assistentes sociais e demais autoridades se esqueceram completamente.

Os Esquecidos mostra uma realidade dura e que se estendeu pelas décadas até o nosso século. Com o aumento das cidades e da população, o problema do menor infrator e da família disfuncional se tornou corriqueiro e hoje é tratado quase com desdém, alcançando apenas uma ação notável quando a mídia se dispõe a investigar. Na outra ponta, vemos surgir grupos exterminadores que pensam como o cego Don Carmelo, não cansando de louvar os tempos em que um governante carniceiro dava cabo de qualquer coisa que não seguisse o que se havia imaginado como certo para a sociedade. Resta-nos ver quantas décadas a mais teremos para que se lembrem dos esquecidos como necessitados e não como inocentes de seus atos só porque foram influenciados pelo meio. Do jeito que a coisa anda, é bem provável que ele próprio tenha se esquecido disso, e possivelmente continuaremos a ver cenas horrendas de corpos rolando por lixões em morros… e a desesperadora palavra “fim” se seguir à cena, dando audiência para um jornal qualquer.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel (screenplay by), Luis Alcoriza (story by)
GÊNERO: Crime/Drama
ORIGEM: México
DURAÇÃO: 1h 25min
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ELENCO PRINCIPAL:

Estela Inda … La madre de Pedro
Miguel Inclán … Don Carmelo, el ciego
Alfonso Mejía … Pedro
Roberto Cobo … El Jaibo
Alma Delia Fuentes … Meche
Francisco Jambrina … El director de la escuela granja
Jesús García … El padre de Julián
Efraín Arauz … Cacarizo
Sergio Virel … Miembro pandilla
Jorge Pérez … Pelón
Javier Amézcua … Julián
Mario Ramírez … Ojitos

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Luiz Santiago


TERRA SEM PÃO (Las Hurdes, tierra sin pan, 1933 – Espanha)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 30 de dezembro de 1933

SINOPSE: Documentário mostra de forma crua e extremamente realista a pobreza e miséria da região do norte da Espanha. Denúncia pungente de 1932, esse curta-metragem de Buñuel reflete suas preocupações sociais e forte personalidade.

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SOBRE O FILME: É muito difícil escrever sobre Terra Sem Pão sem algum tipo de contextualização. Qualquer pessoa que simplesmente assistir a esse “documentário” de Luis Buñuel sem uma preparação vai torcer o nariz ou tirar conclusões erradas, mesmo considerando sua curtíssima duração, meros 27 minutos. Essa desorientação foi o que senti quando assisti ao filme pela primeira vez há anos, mas tudo mudou em conferidas posteriores, já com o benefício de pesquisa.

No entanto, mesmo com a contextualização, definir e criticar Terra Sem Pão não é tarefa fácil.

A primeira coisa que se deve ter em mente é que seu diretor e roteirista é Luis Buñuel, o cineasta que trouxe de verdade o surrealismo para o cinema com Um Cão Andaluz e chocou os conversadores e a Igreja Católica com A Idade do Ouro, duas pequenas pérolas que desafiam descrições. Terra Sem Pão foi o terceiro filme de Buñuel e seu único “documentário”, ou seja, toda sua carga surrealista foi transportada para seu primeiro trabalho em sua terra natal, a Espanha.

Os leitores mais atentos repararão que, toda vez usei a palavra “documentário”, nos parágrafos anteriores, coloquei-a entre aspas. É que Terra Sem Pão, ou Las Hurdes no original, não é exatamente um documentário. Muitos o classificam como o primeiro mockumentary, que significa uma espécie de “documentário falso”, exatamente o que é, por exemplo, o excepcional Isto é Spinal Tap, de Rob Reiner. No entanto, Terra Sem Pão não é exatamente falso ao nos apresentar, muito brevemente, as agruras dos habitantes da região batizada de Las Hurdes, no extremo norte da província de Cáceres, na Espanha, uma vez que foi baseado no estudo etnográfico de Maurice Legendre intitulado Las Jurdes: Étude de Géographie Humaine, de 1927.

A pobreza extrema da região é de fato quase uma lenda, havendo relatos dessas condições terríveis desde que todo o local perdeu sua população com o fim da invasão árabe na Espanha, ainda no século VIII. Mas Buñuel, apesar de ele próprio ser de família rica, sabia que Las Hurdes ainda carecida de cuidado pelo governo central e acabou utilizando o filme para criticar a herança da ditadura de Primo de Rivera, que ainda se podia sentir em 1933, ano do “documentário”.

E ele conseguiu. Com louvores até, ao menos nesse tocante específico.

O “documentário surrealista” – por falta de expressão que melhor classifique Terra Sem Pão – foi bancado por Ramón Acin Aquilué, um anarquista espanhol que viu e se impressionou com o trabalho de Buñuel na França e que, em um bar em Saragoça, disse a Buñuel que, se ganhasse na loteria, bancaria um filme do diretor. E ele ganhou. E cumpriu a promessa.

A obra conta com uma narrativa fria em francês (inserida posteriormente, pois o filme, originalmente, não a continha e Buñuel fazia a narração ao vivo durante as projeções), que não toma partido em relação ao que está sendo mostrado. E o que é mostrado é absolutamente terrível. Miséria absoluta, mortes de crianças, homens e mulheres deformados e com problemas mentais em virtude de relações incestuosas e um sem-número de doenças e situações que fariam qualquer um desligar o vídeo em questão de minutos.

No entanto, conta a lenda – e a lenda, nesse caso, é verdadeira – que, apesar de Buñuel ter filmado efetivamente na região e com seus habitantes, as situações vividas foram tratadas artificialmente, ou seja, todos estão, de uma forma ou de outra, atuando para o cineasta. A miséria é verdadeira, as imagens são verdadeiras, mas há toda uma encenação, incluindo as mortes verdadeiras de dois animais pela equipe de filmagem: um burro foi lambuzado em mel para que abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. Sim, isso mesmo que vocês leram e as imagens estão todas lá nesse “documentário”.

No final das contas, a transposição do trabalho surrealista de Buñuel da ficção para o documentário (ou algo que se assemelhe a um) não funciona muito bem. Se conseguirmos ultrapassar a morbidez de várias das imagens, talvez consigamos nos prender à narrativa, mas, se isso ocorrer – como foi no meu caso – será pela absoluta peculiaridade do que é Terra Sem Pão. E essas peculiaridades são ainda mais ressaltadas e esquisitas, ao verificarmos os aspectos comentados acima, que trazem estofo, mas não necessariamente justificam as bizarrices que testemunhamos.

Banido da Espanha franquista, Terra Sem Pão também não foi tão bem recebido no resto do mundo, sendo uma estranha obra que consegue se destacar por sua bizarrice na já pouco usual – só para não repetir “estranha” – filmografia do mestre aragonês. Merece ser vista pelos cinéfilos de plantão e por aqueles que tiverem sua curiosidade atiçada pelo que escrevi.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel, Rafael Sánchez Ventura, Pierre Unik (commentary)
GÊNERO: Documentário/Curta
ORIGEM: Espanha
DURAÇÃO: 30min
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ELENCO PRINCIPAL:

Abel Jacquin … (voice)
Alexandre O’Neill … (voice)

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Ritter Fan


A IDADE DO OURO (L’Age d’Or, 1930 – França)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 28 de novembro de 1930

SINOPSE: Um casal da elite da sociedade aristocrata convida um grupo de amigos para um jantar em sua luxuosa mansão. Mas, depois do evento, eles descobrem que estão presos em uma sala. Não há nada físico, como grades, que os prenda ali mas, ao mesmo tempo, ninguém consegue sair ou entrar daquele local: algo os faz de réfens. Enquanto os dias passam, todas as máscaras e convenções sociais vão desaparecendo, dando lugar aos instintos mais primitivos de cada um.

Assista o filme no player acima ou CLICANDO AQUI. Use a linha de comando no canto inferior direito para visualizar em tela cheia (fullscreen).

SOBRE O FILME:

Com Um Cão Andaluz, Luis Buñuel e Salvador Dalí foram recebidos de braços abertos no mundo muito particular dos surrealistas. Capturando a atenção do investidor e entusiasta do movimento Visconde de Noailles, que tinha como hábito presentear a esposa com um filme por ano (fantástico, não?), a dupla conseguiu dinheiro para sua próxima empreitada: A Idade do Ouro (1930).

No entanto, os então amigos começaram a se desentender com o roteiro. As sequências que surgiram de um acordo entre eles, trancados em um quarto para escolher tudo aquilo que não poderia ser explicado para formar Um Cão Andaluz, não fluíram sem rusgas na segunda vez. E, para piorar, Dalí apaixonou-se por Gala Éluard, mulher que Buñuel detestava, o que os levou à separação final, que nunca mais seria remendada. Apesar de tudo, o nome de Dalí continuou nos créditos da versão final do filme.

A Idade do Ouro é a continuação espiritual de Um Cão Andaluz. A mesma estrutura de sequências aparentemente sem explicações é vista na tela, começando com trechos de um filme tipo National Geographic sobre os hábitos dos escorpiões. Dentre os vários hábitos curiosos que descobrimos, aprendemos que a cauda dos bichos é dividida em cinco segmentos e o que se segue nos próximos 60 minutos são cinco segmentos dessa “cauda” unidos tematicamente por críticas à religião e à burguesia.

E vocês repararão que usei a expressão “tematicamente”, pois, com 60 minutos de duração, seria próximo do impossível ou enfadonho demais reunir imagens inexplicáveis uma atrás da outra. A coesão mínima de uma narrativa foi meio que forçada pela duração. Afinal de contas, mesmo Um Cão Andaluz, com apenas 16 minutos, já nos permite divagar sobre o significado do que está na tela, mesmo que o objetivo dos roteiristas tenha sido outro.

Assim, vemos bispos pendurados em um desfiladeiro na praia transformando-se em esqueletos, campesinos aleijados usando armas como muletas e uma longa sequência de uma festa burguesa em que vemos um casal tentando consumar seu amor, mas sendo constantemente interrompido por diversas distrações, durante as quais acabamos aprendendo muito sobre eles e o que vemos não é agradável e sim extremamente crítico.

Tudo converge para a já icônica cena em que a mulher, lânguida de desejo, literalmente faz sexo oral com o dedão de uma estátua de mármore e com o último segmento, inspirado na obra 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade. Antecedendo esse segmento, vemos intertítulos explicando que, em um remoto castelo, homens e mulheres participam de uma orgia depravada por 120 dias. E então, emergindo da porta do castelo vemos o Duque de Blangis e, surpresa surpresa, ele é a cara de Jesus Cristo!

Não é de se espantar que a reação ao filme não tenha sido das melhores fora do círculo dos surrealistas. Tamanha foi a indignação dos extremistas que cinemas foram sabotados e o filme foi levado de volta para análise dos órgãos de censura na França e ele foi banido. O próprio Visconde de Noailles recolheu as cópias e as manteve sob seu poder, sem distribuí-las por 40 anos.

Mas A Idade do Ouro sobreviveu em circuitos limitados a museus como o Museu de Arte Moderna em Nova Iorque e em exibições privadas aqui e ali, até que, na década de 70, alcançou novamente e para sempre o circuito comercial — e nós, agora, podemos nos deliciar com as bizarrices de um dos maiores diretores que já viveu.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel (scenario), Salvador Dalí (scenario), Marquis de Sade (novel)
GÊNERO: Drama/Comédia
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 1h
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ELENCO PRINCIPAL:

Gaston Modot … The Man
Lya Lys … The Woman
Caridad de Laberdesque … Marquise’ Chambermaid / Girl at Blangis’ Castle
Max Ernst … Bandit Leader in the Hut
Artigas … Governor
Lionel Salem … Duke of Blangis
Germaine Noizet … Marquise of X
Duchange … Orchestra Conductor
Bonaventura Ibáñez … Marquis of X

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Ritter Fan.


UM CÃO ANDALUZ (L’Age d’Or, 1929 – França)
(Filme Completo / Legendado em Português)
Data de Lançamento: 06 de junho de 1929

SINOPSE: Com roteiro co-escrito por Salvador Dalí, Luis Buñuel estreou como diretor neste curta-metragem, o marco inicial do surrealismo no cinema. Com clara influência da psicanálise, Buñuel e Dalí exploram o inconsciente humano, numa seqüência de cenas oníricas, incluindo o célebre momento em que um homem, interpretado pelo próprio diretor, corta, com uma navalha, o olho de uma mulher.

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SOBRE O FILME:

Um Cão Andaluz foi criado para servir de rompimento ao padrão cinematográfico então vigente – na verdade até hoje vigente – que determina, em linhas bem gerais, que tudo que está na tela deve fazer sentido (direto ou indireto), fazendo parte de uma narrativa coesa. Quando Luis Buñuel trabalhou com o polonês Jean Epstein em filmes como A Queda da Casa de Usher (1928), ele aprendeu a firme técnica imposta pelo diretor. Tudo era calculado. Tudo seguia um raciocínio. Apesar de dever muito a Epstein, Buñuel decidiu partir para a ruptura total, literalmente trazendo sonhos para as telas. E como sonhos não necessariamente têm estrutura formal — um começo, meio e fim — assim ele fez, junto com Salvador Dalí.

Se vocês, nesse momento, procuram algum tipo de sinopse da obra, podem esquecer. Trata-se de um curta-metragem de 16 minutos que é uma colagem de imagens tiradas de sonhos de Buñuel e Dalí, propositalmente sem significado. Vemos de um olho cortado por uma lâmina de barbear até formigas saindo da mão de um homem, passando por um ciclista caindo no chão sem maiores explicações, um homem puxando as tábuas dos Dez Mandamentos, dois padres e dois pianos de cauda com animais mortos em cima, além de uma mulher sendo apalpada, um passeio na praia, corpos enterrados na areia, tudo isso com uma trilha sonora (escolhida por Buñuel) composta de trechos de obras de Wagner e tangos argentinos.

Mas a necessidade humana de procurar significado em tudo é assombrosa. É quase impossível assistir a Um Cão Andaluz sem tentar ligar os pontos ou preencher as lacunas com alguma coisa que nos é familiar. Mesmo depois de ler a biografia do autor, que afirma com todas as letras que o objetivo foi extirpar do roteiro tudo aquilo que tivesse um semblante de significado, ainda sim eu procuro fazer as ligações. Afinal de contas, por exemplo, em determinado momento o homem quer matar a mulher, mas é impedido pelas tais cordas que contém os Dez Mandamentos. Um dos mandamentos qual é? Não matarás. E atrás das placas o que vem? Dois padres, meio que reiterando essa ideia. Mas há outras possibilidades e interpretações, especialmente porque estamos lidando com um filme que tenta reproduzir um ou vários sonhos, sem narrativa principal, a não ser uma caixa listrada – sem explicação – que conecta as várias sequências.

A experiência sensorial que Um Cão Andaluz proporciona é quase imbatível na história do cinema. O efeito do filme em cada um será muito pessoal. Uns ficarão frustrados com a bizarrice e maluquice aparentes, outros se divertirão com a profusão de imagens originais. Outros, ainda, não se contentarão e tentarão interpretar cada aspecto do que Buñuel colocou na tela. Pouco importa o efeito que o filme terá em cada um de nós. Uma coisa, porém, é muito certa e inegável: você não se esquecerá do que viu. E, eu garanto, são poucos filmes que entram para esse panteão dos verdadeiramente inesquecíveis.

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DIREÇÃO: Luis Buñuel
ROTEIRO: Luis Buñuel (scenario), Salvador Dalí (scenario)
GÊNERO: Curta/Fantasia/Horror
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 16min
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ELENCO PRINCIPAL:

Simone Mareuil … Young Girl
Pierre Batcheff … Man
Luis Buñuel … Man in Prologue (uncredited)
Pancho Cossío … Stroller (uncredited)
Salvador Dalí … Seminarist (uncredited)
Juan Esplandiu … Stroller (uncredited)
Robert Hommet … Young Man (uncredited)
Marval … Seminarist (uncredited)
Fano Messan … Hermaphrodite (uncredited)
Jaume Miravitlles … Fat Seminarist (uncredited)

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Fontes: IMDb, Filmow, Plano Crítico/Ritter Fan.


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