DIABO: Uma Estrela da Sétima Arte

Aterrorizante ou sedutor, angustiante ou cômico, Lúcifer já estava nas telas desde o início do cinema. E até hoje causa sustos e calafrios.

Gösta Ekman (à esqu.) no papel de Fausto, e Emil Jannings, como Mefisto, no filme Fausto de F. W. Murnau, 1926.

Desde a invenção do cinema, o Diabo aparece nas telas. Em 1896, Georges Méliès rodou Le manoir du diable (A mansão do Diabo), depois Un petit diable (Um pequeno Diabo) e, em 1899, Le Diable au convent (O Diabo no convento). Méliès, que trabalhou com o mágino Harry Houdini, percebeu que, parando a câmera, e depois voltando a rodar, poderia fazer qualquer um desaparecer no inferno no meio da fumaça: nasciam os primeiros efeitos especiais. Ele utilizou ainda o mito de Fausto por quatro vezes, com Le cabinet de Méphistophéles (O Laboratório do Diabo), Faust et Marguerite (Fausto e Margarida, 1897), La damnation de Faust (A danação de Fausto, 1898) e Faust aux enfers (Fausto no Inferno, 1903).

A indústria cinematográfica americana por sua vez, utilizou-se do mito com outros quatro Fausto: Edwin S. Porter (1909), Cecil M. Hepworth (1911), Edward Sloman (1915 e 1926) e, D. W. Griffith, The Sorrows of Satan (Tristezas de Satanás / foto abaixo). Fascinado pelos personagens noturnos e atormentados, o alemão Murnau introduziu o Diabo no seu Fausto (1926), evocando como pano de fundo o mal que assombrava a Europa, tema já esboçado em Satanás (1920). A partir dos anos 1930, o cineasta, declarado decadente pelos nazistas, emigrou para os Estados Unidos, país de cultura fortemente protestante, para onde levou seu expressionismo. Mas, quando os filmes de faroeste e de gângsters atacaram as telas, Fausto foi jogado no quartinho dos fundos, até 1950.

Claude Autant-Lara adaptou a história de Fausto na Paris de 1925. Em Marguerite de la nuit (Margarida da noite, 1955), o velho doutor Fausto assina um pacto com o senhor Leon (Mefisto) para ganhar o amor de Marguerite. Com Michèle Morgan e Yves Montand, o filme se apresenta como um ensaio sobre o amor e o Mal. Variações mais recentes desenvolvem o tema com fantasia ou imaginação, como Phantom of the Paradise (Fantasma do Paraíso, 1974), de Brian de Palma, ópera-rock flamejante, e Mefisto (1981), de István Szabó, no qual o regime nazista torna-se a antecâmera do reino de Satã.

Na cultura judaico- cristã, fonte de um rico material para o cinema, o Diabo, anjo caído rebelado contra Deus, é a encarnação do Mal, e numerosos são filmes que o evocam. Em compensação, os filmes que nos quais ele aparece em carne e osso são raros. Ele bate à porta de um castelo sob a aparência de um respeitável viajante surpreendido pela tempestade em Les Visiteurs de Soir (Os Visitantes da Noite, 1942), de Marcel Carné. Desce à terra para separar um casaç em La Tentation de Barbizon (A Tentação de Barbizon, 1945), de Jean Stelli. O príncipe das trevas se apresenta de maneira mais clássica – com grandes chifres – em Legend (A Lenda, 1986) de Ridley Scott, e de forma mais disfarçada e não menos sombria, em Coração Satânico (Angel Heart, 1987), do cinesta inglês ALan Parker.

Em L’Arcidiavolo (Os Amores de um Demônio, 1966 / foto acima), de Ettore Scola, o demônio Belfegor e seu criado, tentam jogar um contra o outro o papa Inocêncio III e Lourenço de Médici, que acabavam de instaurar a paz. Variações cômicas sobre o Diabo, mais recentes, Ma vie est un enfer (Minha vida é um inferno, 1991), de Josiane Balasko, em que esta encarna uma mulher confrontada com um Diabo cheio de caretas (Daniel Auteil), e Assassins (Assassinos, 1997), de Mathieu Kassovitz, com Michael Serrault.

Essa forma leve de mostrar o Diabo não tem nada a ver com as produções americanas, onde se acumulam efeitos especiais. Assim, The Exorcist (O Exorcista, 1973), de William Friedkin, Oscar de Melhor Roteiro, o Diabo encarna em uma menina (foto abaixo). Mesmo esquema para The Profecy (A Profecia, 1976), de Richard Donner, em que uma criança, um garoto, é simplesmente o Anticristo, que no Apocalipse anuncia o fim do mundo.

Se a esses filmes falta sutileza, não é o caso de Rosemary’s baby (O bebê de Rosemary, 1968), de Roman Polanski, no qual vemos as bruxas como aliadas do Diabo. Polanski situou a intriga em um imóvel de Nova York que corresponde à descrição do romance de Ira Levin: “Uma monstruosa edificação elefantesca e vitoriana onde se imbrica uma quantidade de apartamentos de pé-direito muito alto”. É nesse lugar nada hospitaleiro que um jovem casal, Rosemary e Guy (Mia Farrow e John Cassavetes) escolheram fazer seu ninho. A solicitude de um casal de vizinhos idosos redobra quando eles sabem que Rosemary está grávida. E quando a jovem mãe vai ver seu recém-nascido, cujo berço está rodeado de pessoas muito velhas, bruxos e bruxas provavelmente, ela torna nos braços o ser hediondo que gerou: o Diabo.

Ao longo de O bebê de Rosemary, uma vida estranha fervilha no velho imóvel, sem que jamais as vozes que chiam nas paredes tenham um rosto. Como o mito de Fausto, o tema da casa mal-assombrada é um clássico do cinema. The Haunting (Desafio ao Além, 1963), obra de Robert Wise, em que um parapsicólogo tenta uma experiência em uma velha mansão e se vê sobrecarregado de almas perdidas. Assombrada também, The Legend of Hell House (A Casa da Noite Eterna, 1973), de John Hough. Já em Amityville horror (A cidade do horror, 1979), filme de Stuart Rosenberg, a intriga repousa sobre dois fatos reais: uma casa guarda a memória de um crime e obriga seus novos compradores a fugir.

É normal encontrá-los na televisão, os fantasmas e os adolescentes. A série de TV Bewitched (A Feiticeira) – abordado em um longa-metragem com Nicole Kidman -, Buffy, the vampire slayer (Buffy, a caça-vampiros), Sabrina, the teenage witch (Sabrina, a aprendiz de feiticeira): a maior parte dessas séries se dirige aos adolescentes.

Infantilizações e bobagens à americana? O romancista Martin Wincker, que analisa a questão com Christophe Petit em Totem des séries télé (Totem das séries de TV, edições Larousse), não é dessa opinião: “O universo terrificante com o qual são confrontados os personagens pode ser visto como a expressão das angústias e das dúvisas que afrontam todos os adolescentes.

ZÉ DO CAIXÃO, BELZEBU DOS TRÓPICOS

Reza o adágio popular que Deus é brasileiro. E o Diabo também é, pois Zé do Caixão, a criatura engendrada pelo cineasta José Mojica Marins há mais de 50 anos, é um belzebu dos trópicos. A mais importante figura demoníaca do cinema brasileiro marcou época em filmes como À meia-noite levarei sua alma (1963), Nesta noite encarnarei no teu cadáver (1966), Exorcismo negro (1974) e Delírios de um anormal (1978), obras realizadas com pouquíssimos meios materiais e muita criatividade, pioneiras do cinema fantástico entre nós.

Ímpio e sanguinário, Zé do Caixão nasceu como personagem de cinema, freqüentou histórias em quadrinhos, fotonovelas, shows populares e programas de televisão. Estabeleceu uma empatia afetiva com o público – especialmente o das camadas mais desfavorecidas da população – e se instalou no inconsciente coletivo brasileiro. Zé do Caixão é um personagem sincrético, pois combina características emprestadas de figuras míticas de outros contextos culturais. Duas delas têm claras relações com o diabo: o vampiro e Exu.

O aristocrático sugador de sangue tem vários traços demoníacos. Entre eles, a crueldade, a lascívia, e os ardis da sedução são os principais pontos em comum com Zé do Caixão. Zé se veste de preto, com capa e cartola, assim como o Conde Drácula, personagem de Bram Stoker que cristalizou o mito vampírico. No romance de Stoker, o vampirismo é metáfora do mal absoluto, o conde é assimilado ao Diabo e o traz inscrito em seu próprio nome, pois “drac” significa “diabo” em romeno. O personagem de Mojica Marins também traz o Diabo no nome. Zé do Caixão é o apelido de Josefel Zanatas; o sobrenome é um alíndromo, de “satanaz”, grafia antiga de “satanás”.

Direto e bestial como o vampiro, Zé não procura atenuar o pavor que inspira em seus simplórios vizinhos. No pesadelo de Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver, uma inventiva recriação do inferno de Dante, Zé se vê como o rei das trevas, sentado em um trono comandando os suplícios a que são submetidos os pecadores.

A indumentária também aproxima Zé do Caixão de Exu, divindade do panteão Nagô associada ao Diabo cristão. Evocação da agressividade envolvente do vampiro, a capa negra é igualmente uma referência a Exu: nos terreiros de umbanda, o pai-de-santo veste uma capa quando incorpora o orixá. Algumas estátuas de Exu o apresentam com capa, cartola, barba e roupas negras, representação costumeira do Diabo na cultura popular européia.

As relações de Zé do Caixão com o Diabo colocam a questão do lugar ocupado por este no imaginário religioso brasileiro. A figura e a ação do demônio são uma construção específica que se adapta às relações sociais e econômicas inscritas na sociedade brasileira desde a época colonial. No imaginário popular brasileiro, o Diabo perde boa parte da onipotência maléfica que ocupava na tradição européia. O historiador Carlos Roberto Figueiredo Nogueira indica três razões para isso em O nascimento da bruxaria (São Paulo, Imaginário, 1995). A primeira é o desenvolvimento da ortodoxia religiosa em Portugal, onde, durante a Inquisição, a repressão se concentrou mais nos judeus convertidos do que no Diabo e em seus agentes. A segunda é a fusão cultural estabelecida pelo processo de colonização, que não aboliu as crenças indígenas e africanas, as quais ignoravam o demônio. Houve uma reorganização dessas crenças em um vasto quadro sincrético, no qual elas se interpenetraram. Mesmo sendo temido, pois a ortodoxia dominante não cessou de afirmá-lo, o Diabo concorreu com outra figuras fantásticas originadas pelas culturas dominadas. A terceira razão está na ação da Igreja no Brasil, que adaptou seu esforço de catequeses a essa realidade. Diante das dificuldades encontradas para impor normas de conduta, as autoridades religiosas contemporizaram com o pecado, enfraquecendo as atribuições do grande tentador.

Se na Europa o Diabo vincula o homem a uma conduta específica, reprimindo os desejos de liberdade por causa de suas ligações com o Mal, na América ele se dissolve, torna-se figura familiar, cotidiana. A cultura popular brasileira é rica em provérbios e histórias que demonstram essa concepção relativizada do demônio. Zé do Caixão, mesmo sendo malvado, não pode ser visto fora dessa configuração particular: ele tem todo um lado prosaico, ingênuo até; às vezes perde sua soberba, protege as crianças. Como esse Diabo metamorfoseado, Zé é uma figura próxima do universo cultural dos dominados, e nessa perspectiva ele pode representar, para aqueles que se opõem ou são reprimidos pela ortodoxia religiosa ou pelas elites.


Fonte de Pesquisa/Texto: Revista História Viva/François Quenin (jornalista especializado em cinema).Revista História Viva/Alexandre Agabiti Fernandez (jornalista, doutor em cinema pela Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle e autor de tese sobre o cinema de José Mojica Marins).

CULT COLLECTORS | Ser Cult É Ser Colecionador!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s