A HISTÓRIA DO TECHNICOLOR

Embora a base da fotografia colorida fosse conhecida desde 1862, o Cinema enfrentou as primeiras décadas de sua existência em preto e branco mesmo. Apesar de terem sido feitas muitas tentativas, foi somente em 1920 que se conseguiu levar a cor para a tela, com algum grau de qualidade. O autor da proeza foi um engenheiro químico chamado Herbet T. Kalmus.

Nascido em Chelsea, Massachussets, em 9 de novembro de 1881, Kalmus formou-se na Universidade de Zurique em 1906. Aliando-se a dois amigos, o Dr. Daniel F. Comstock, seu ex-colega de universidade e o técnico W. Burton Wescott, fundou, em 1913, a sociedade Kalmus, Comstock & Wescott, onde começaram a desenvolver uma série de pesquisas.

Antes disso, houve outros pesquisadores pioneiros: em 20 de maio de 1895, Frank Jenkins havia apresentado a uma seleta audiência em Nova York uma película inteiramente colorida a mão. Um pouco mais tarde, em 1899, dois ingleses, Edward R. Turner e F. Marshall Lee, descobriram um método prático de produzir a cor natural no Cinema, isto é, sem utilizar cores e tons pintados a mão. Mais adiante, em 1909, surgiu comercialmente o processo Kinemacolor, de autoria do inglês George A. Smith, que, apesar de obter uma certa repercussão na Inglaterra, teve muito pouco êxito nos Estados Unidos. Todos esses processos, contudo, ainda eram bastante rudimentares. O grande passo foi dado mesmo por Kalmus e seus dois sócios.

Mr. Technicolor: Herbert T. Kalmus.

Em 1917, Comstock, Wescott e Kalmus, junto com a esposa deste, Natali, juntaram seus esforços com o Professor E. J. Wall, especialista em fotografia a cores, e mais Joseph A. Ball. Associaram-se ao produtor C. A. Willat e produziram um longa-metragem de ficção, The Gulf Between, exibido em Nova York, em 21 de setembro do mesmo ano. O processo ainda tinha algumas deficiências, mas era bem superior aos predecessores.

O grupo enfrentou algumas dificuldades de início, mas outros investidores foram atraídos e o Cinema a cores dava novos passos rumo à policromia total. Mas convém lembrar que, até então, o colorido obtido era um processo que utilizava apenas duas cores.

A Loew’s Incorporated (que depois seria conhecida como Metro) não investiu nas pesquisas que aperfeiçoavam cada vez mais o processo bicolor, mas adquiriu os direitos para realizar um longa-metragem utilizando o novo processo: surgiu assim Toll of the Sea (Flor de Lótus), dirigido por Chester Franklin e com direção de fotografia de Ray Rennahan, sob a supervisão de Joe Schenk. Lançado em novembro desse ano, Flor de Lótus obteve uma reação favorável da crítica: “As cores são claras, brilhantes e verdadeiras, sem serem desagradáveis”. O New York Times comentou ainda que esse filme era superior a um outro, The Glorious Adventure, produzido e dirigido por J. Stuary Balckton pelo processo Prizma, na Inglaterra. A prizma ameaçou processar a Technicolor acusando-a de violação de patente, mas jamais chegou a concretizar a ação judicial.

A cor era introduzida paulatinamente nos filmes. No início, a maioria deles utilizava apenas parcialmente o processo bicolor. Na superprodução Os Dez Mandamentos, Cecil B. de Mille necessitou do uso de cores em algumas seqüências: as cenas descrevendo o êxodo dos hebreus do Egito e sua perseguição pelos egípcios, filmadas pela câmara Technicolor, foram um sucesso indiscutível. Em 1923, Samuel Goldwyn e G. Fitzmaurice introduziram duas seqüências coloridas em Cytherea (Cytherea).

Entusiasmada pelo êxito conseguido na seqüência colorida de Os Dez Mandamentos, a Famous Players resolveu filmar Wanderer of the Wasteland inteiramente em Technicolor. O big-boss Jesse Lasky disse a Kalmus que a duração das filmagens teria de ser calculada “na base da rodagem em preto e branco”. A equipe trabalhou durante seis semanas em tempo integral, e mais uma vez a crítica aprovou o colorido. Entretanto, os laboratórios de Boston levaram quase um ano para produzir um número suficiente de cópias para os cinemas.

A esse êxito seguiu-se o interesse de Douglas Fairbanks em produzir O Pirata Negro (The Black Pirate), todo em cores. Fairbanks gastou 125.000 dólares apenas para testar a utilização das cores determinantes, maquilagem e locações próprias.

Apesar do sucesso de O Pirata Negro (foto abaixo), o Technicolor esforçava-se para resolver as dificuldades técnicas na confecção das cópias. O público, por sua vez, ansiava por mais e mais seqüências coloridas nos filmes em preto e branco.

Nessa época, muitos filmes utilizaram seqüências bicolores. Eis alguns deles:

* Uninvited Guest (1924): seqüência submarina os Mares do Sul;

* Pretty Ladies (Mosca Negra/1925): cenas de Ziegfeld Follies;

* The Merry Widow (A Viúva Alegre/1925), de Stroheim, apresentava uma brilhante coroação;

* The Phantom of the Opera (O Fantasma da Ópera/1925): a ópera de Paris era em cores;

* Stage Struck (este Mundo é um Teatro/1925): Gloria Swanson numa seqüência de sonho;

* The American Venus (A Vênus Americana/1926), de F. Tuttle: um luxuoso desfile de modas;

* The Wedding March (A Marcha Nupcial/1928), de Stroheim: uma cerimônia religiosa;

* The Fire Brigade (Os Bombeiros/1927): uma cidade inteira em chamas;

* Red Hair (Cabelos de Fogo/1928): Clara Bow em trajes de banho;

* The King of Kings (O Rei dos Reis)/1927): uma cena com Maria Madalena e a Ressurreição de Cristo.

Na primavera de 1924, o Technicolor tinha seis homens e quatro câmaras filmando, em Roma, a produção Ben Hur, mas pouco do material filmado foi aproveitado para a versão final: apenas as cenas da Natividade, em Technicolor, em Hollywood, e as realizadas em locações no deserto da Califórnia foram utilizadas. Devido ao alto custo das cópias e problemas na projeção, revelados em Wanderer of the Wasteland e O Pirata Negro, o Technicolor decidiu que o mercado imediato seriam os curta-metragens de dois rolos. E criaram duas subsidiárias para esse fim. Dirigido por Arthur Mause, a primeira safra se inspirava em quadros, como The Blue Boy, Mona Lisa, The Vision, etc. Seguem-se assuntos históricos, como: Buffalo Bill’s Last Fight, Cleopatra, A Rainha Virgem etc. Esses shorts ajudaram o Technicolor no processo de transição e transferência de métodos nas cópias.

Cena da Ressurreição de Cristo, na versão de 1927 de O Rei dos Reis, de Cecil B de Mille.

Tais shorts induziram a MGM, por intermédio de Nicholas Schenk, à produção de uma película sobre Leif Ericson descobrindo a América. O resultado foi The Viking (Deuses Vencidos/1928), com Pauline Starke e Donald Crisp. Dirigido por Roy William Neil, custou 325.000 dólares, sendo o primeiro filme a cores com sincronização de música e efeitos sonoros. O Technicolor atingiria o seu auge logo depois da passagem do silencioso para os falados.

Jack L. Warner foi um dos primeiros pioneiros na utilização daquela nova experiência. A Warner Brothers contratara com a Technicolor para produzir mais de vinte filmes. E usou colorido em algumas cenas de A Canção do Deserto (Desert Song), de Roy Del Ruth, com John Boles. Em seguida, produziu o primeiro filme todo falado e colorido, On With the Show (Toca a Música), de Alan Crosland. A Seguir, Goldiggers of Broadway (As Mordedoras), que faturou, para os cofres da Warner, cerca de 3.500.000 dólares.

Então, no período de 1929 a 1930, a warner Bros-First Nation lançou os seguintes filmes, em Technicolor: Bride of the Regiment (A Noiva do Regimento); Bright Lights, Show of Shows (A Parada das Maravilhas); Golden Dawn (Deusa Africana); Hold Everything (Com Unhas e Dentes); Kiss me Again (Beija-me Outra Vez); The Life of the Party (Gente de Amor); Song of the Flame (A Flama); Under a Texas Moon (Don Juan do México); Viennese Nights (Noites Vienenses); e outros.

A Paramount apresentou: Follow Thru (Mulheres à Beça); e Vagabond King (O Rei Vagabundo). A MGM lançou: The Rogue Song (Amor de Zíngaro). A Universal mostrou The King of Jazz (O Rei do Jazz). A RKO esperou até 1931 para produzir Fanny Foled Herself e Runaround (Inquisição Moderna/foto abaixo).

Após esses lançamentos, os produtores assediavam o Dr. Kalmus pedindo novos filmes coloridos, e alguns chegavam a pagar adiantamentos de até 1.500.000 dólares para futuras películas. Entretanto, os laboratórios da Technicolor não estavam em condições de atender a demanda; na verdade, não podiam produzir nem a décima parte dos pedidos.
Assim, as primeiras produções, que eram razoáveis, foram seguidas de outras bastante sofríveis. Isso, em parte, por culpa dos próprios produtores, que tinham uma concepção de colorido e estética bastante limitados.

O PROCESSO TRICOLOR

Apesar de tudo, Kalmus continuava as suas pesquisas em busca da perfeição cromática, e assim chegou a desenvolver um processo de três cores. Kalmus procuravam entretanto, alguém que estivesse interessado em adquirir os direitos do processo, e não alugá-lo, como vinha fazendo. Esse alguém acabou aparecendo na figura de Walt Disney.

Diversos longa-metragens já haviam incluído seqüências em três cores, como Dr. X, de Michael Curtiz e Mystery of the Wax Museum, também de Curtiz. A Metro utilizou três cores em The Cat and the Fiddle (O Gato e o Violino). E Darril F. Zanuck também as utilizou em A Casa dos Rotschild (1934).

Walt Disney, que havia visto esses filmes, se impressionou muito com o processo Trucolor, e pretendia aplicá-lo em suas Silly Simphonies. Disney pediu financiamento à United, sua distribuidora, mas o crédito foi negado, pois a United afirmou só estar interessada em distribuir as Silly Simphonies. Disney acabou se arranjando por conta própria e logo surgiu a primeira “sinfonia” em três cores: Flowers and Trees (Árvores e Flores). Logo Mickey Mouse passou também para a tricromia sendo The Band Concert (1935) o seu primeiro filme colorido.

O sucesso de Disney foi imediato. Vários concorrentes assediaram o Dr. Kalmus pedindo que produzisse outros desenhos animados. Mas os direitos já estavam reservados para Disney.

Acabou-se chegando ao seguinte acordo: com a permissão de Disney, outros desenhistas poderiam utilizar o processo, mas durante um ano ele seria exclusivamente de Disney. Logo os desenhos animados de duas cores se tornariam obsoletos, com a chegada dos tricolores.

Foi então que o Technicolor recebeu, de inesperado, a ajuda de John Hay Whitney e Meriam C. Cooper. Surgiu a Pioneer Pictures Inc., que laçou um short, La Cucaracha, que representava o mais alto desenvolvimento do Technicolor.

O encarregado dos figurinos e cenários foi Robert Edmond Jones. O short apresentava cores firmes e claras: quando um homem, num close-up, ficava rubro de cólera, podia-se ver a cor surgindo aos poucos em sua face. Alguns defeitos apareciam em fotografias posadas, mas Jones empregava as cores de modo simbolista e, depois realista.

Finalmente, surgiria o primeiro longa-metragem em três cores, de clima napoleônico, Vaidade e Beleza (Becky Sharp), dirigido por Rouben Mamoulian.

A Pioneer fora dissolvida e Whitney associou-se a David O. Selzinick na formação da Selzinick-International Films.

Na Inglaterra, surge Wings of the Morning (Idílio Cigano), 1937, com Anabella e Henry Fonda, que viera especialmente de Hollywood. Este primeiro colorido inglês versava sobre corrida de cavalos, apresentando tomadas documentais do Derby de Epson (foto abaixo).

O filme foi muito bem recebido, e mostrava suaves matizes na cor, em contraste com as películas americanas do período.

Walt Disney produz o primeiro desenho de longa metragem, Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs), em 1937. Daí em diante, o uso da triconomia foi se tornando uma constante nas produções Hollywoodianas.

Podemos citar, entre os primeiros:

* Vaidade e Beleza (Vanity Fair), com Miriam Hopkins. 1935.

* Pirata Dançarino (Dancing Pirate), com Steffi Duna. 1936.

* The Trail of Lonesome Pine (Amor e Ódio na Floresta), com Henry Fonda.* Ramona (Ramona), com Loretta Young e Don Ameche.

* Garden of Allah), com Marlene Dietrich.

* Star is Born (Nasce uma Estrela), com Frederic March e J. Gaynor. 1937.

* Vogues of 1938 (Vogas de Nova York), com Warner Baxter e Joan Bennett.

* Ebb Tide (O Tufão), com Frances Farmer e Ray Milland.

* Nothing Sacred (Nada é Sagrado), com Carole Lombard e Frederic March.

* Adventures of Tom Sawyer (As Aventuras de Tom Sawyer), 1938.

* Adventures of Robin Hood (As Aventuras de Robin Hood), com Errol Flynn.

E assim por diante. A moda foi se espalhando pelo mundo. No Brasil, o primeiro filme com uma seqüência em cores chamava-se João Ninguém (1937), dirigido por Mesquitinha e com um elenco formado por Paulo Gracindo, Grande Otelo e o próprio Mesquitinha.

Em pouco tempo o colorido dominaria quase que totalmente as telas. Vários outros processos foram sendo desenvolvidos, e em breve o monopólio da tricromia não seria apenas uma exclusividade da Technicolor. Mas o tempo acabou provando (veja abaixo) que, apesar de tudo, o processo desenvolvido pelo Dr. Kalmus acabou se tornando um dos mais eficientes em matéria de durabilidade.

A DIFÍCIL TÉCNICA DE SE CONSERVAR A COR

O cinema colorido está com seus dias contados isso porque as cores das películas vão se deteriorando com o passar do tempo, e após algumas décadas, a maioria dos filmes coloridos perde uma boa parte das tonalidades originais. Curiosamente, os filmes mais antigos, feitos pelo processo Technicolor, são os que melhor conservam as cores originais até hoje: é o caso do primeiro feito nesse processo, Becky Sharp, e de claśsicos como O Mágico de Oz, Pinóquio e outros, alguns deles com mais de 70 anos de idade. Mas o custo desse processo era tão caro que ele se tornou proibido, e os grandes produtores passaram a utilizar outros processos e materiais mais baratos para a fabricação de filmes coloridos. O passar dos tempos provou que processos como o Eastman Color era praticamente uma sentença de morte a fidelidade as cores originais. Assim,, se os filmes de mais de setenta anos ainda conservam razoavelmente todos os seus matizes, outros, com cinquenta anos ou menos, estão condenados.

O processo de deterioração sofrido por filmes como Lawrence da Arábia (1962), o mesmo tem acontecido com todos os outros filmes da era pós Technicolor. Tudo isso está levando o pânico às cinematecas e aos próprios estúdios, que volta e meia relançam suas produções tanto no cinema como na televisão. Como fazer para conservar a qualidade do colorido das películas?

Conservar um negativo em condições especiais de refrigeração é um paliativo, pois os negativos se conservam melhor do que as cópias propriamente ditas, mas isso está longe de ser o ideal. O custo de conservação é demasiadamente caro, e nada prova que os filmes não terão uma deteriorização rápida quando retirados da geladeira. Entretanto, o computador provou que poderia ser um bom aliado na luta pela conservação dos filmes coloridos: os filmes transpostos para o vídeo conservam com perfeição as cores originais por décadas a fio.

Mas o vídeo, em si, causa outros problemas ainda maiores: primeiro, a perda de uma boa parte das imagens (como é o caso das produções originalmente em Cinemascope, que não cabem no formato quadrado); e segundo, porque o sistema só é bom para o vídeo: os filmes jamais poderão ser transpostos de novo, decentemente, para o material original. O cinema colorido estará com os dias contados? Ou será que a tecnologia atual desenvolveu uma nova solução?

Fontes de Pesquisa: Revista Cinemin.

CULT COLLECTORS | Ser Cult É Ser Colecionador!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s