A NOUVELLE VAGUE DO CINEMA TCHECO

Entre 1963 e 1969, o cinema tcheco, liderado por uma jovem geração de cineastas, experimentou uma explosão de vitalidade sem precedentes. Entre um realismo fortemente tingido de ironia e um gosto por metáfora, esta nouvelle vague acompanha e estimula as revoltas que estavam ocorrendo na sociedade da Checoslováquia.

Os estudantes da famosa FAMU (a mais notória faculdade de cinema de Praga)  tornaram-se dissidentes. Seu objetivo ao fazer filmes era conscientizar coletivamente o povo tcheco de que eles eram participantes de um sistema opressivo.

Encarnado por cineastas como Miloš Forman, Jan Němec, Jiří Menzel, Věra Chytilová – representou uma esperança de renovação e ousadia, e muitos desses filmes se tornaram clássicos. Essa matéria analisará esse momento de empolgação.

A Tchecoslováquia ficou então quinze anos no bloco soviético. O stalinismo implacável da década de 1950 foi sucedido, apesar das promessas de mudança, um status quo mortal. Mas sob os slogans sempre agitados, a ideologia está quebrando. Nos anos seguintes, o cinema tcheco será o sintoma contínuo das metamorfoses de um sistema sem saída, abalado pela impaciência da juventude. Ele acompanhará o movimento de um país inteiro em uma aventura de emancipação que culminará em 1968 na primavera de Praga.

Nos primeiros anos da década, com Milos Forman à frente, uma impressionante concentração de diretores emergiu da FAMU, a escola de cinema tcheca: Věra Chytilová, Jiří Menzel, Frantisek Vlácil, Jan Němec, Jaromil Jireš, Juraj Herz, Ivan Passer e outros, mergulhado no cinema de Eisenstein, Vigo, Dovjenko e Renoir, mas também – e isso não é nada por trás da cortina de ferro – de Godard, Cassavetes ou Shirley Clarke: um radicalismo contemporâneo com sotaques libertadores muitas vezes tingidos de ceticismo existencial, muito longe das injunções edificantes do realismo socialista.

O AUGE DO MOVIMENTO

A busca pelo natural, o desejo de aproveitar o ar de um tempo repentinamente rejuvenescido são o impulso comum de “novos cinemas”. Após o filme Konkurs, Forman refinou sua arte como pintor de retratos da juventude, ao mesmo tempo empático e cruel: ele era o aprendiz um tanto desequilibrado de Černý Petr (1964), dominado pelas censuras incessantes de seu pai; o florista azul de Lásky jedné plavovlásky (1965), seduzido e abandonado por um garoto com ar emancipado, mas escapando-se com grande dificuldade da possessividade de seus pais. Os horrores da transição para a vida adulta, o eterno conflito entre pais e filhos brincam com o modo de narrativa individual e subjetiva, que parece provocar a época: o desejo de liberdade e a transferência prejudicada por uma geração para o próximo.

O cenário sarcástico e às vezes amargo da comédia encontrado em muitos filmes do período será mais especificamente a marca do mais novo da New Wave, Jiří Menzel. Seu primeiro longa, Ostře sledované vlaky (1966 / Foto Abaixo), baseado no romance de Bohumil Hrabal, toma emprestado do escritor um gosto por paixões impróprias – ociosidade, obsessão sexual, rejeição ao heroísmo – como força de negação. opor-se à adversidade (ocupação alemã).

FÁBULAS DO TOTALITARISMO

Proibida desde que os comunistas chegaram ao poder, o trabalho de Kafka foi oficialmente reabilitado em 1963. As parábolas opacas do autor do Julgamento inspiram outro lado da Nova Onda. Josef Kilián, de Pavel Juráček e Jan Schmidt, é uma variação kafkiana que leva seu protagonista anônimo através de meandros burocráticos, onde a ameaça mais incômoda seria sua própria culpa sem objeto. Kafka, o teatro do absurdo, e um vínculo renovado com a tradição surrealista de Praga antes da guerra combinam uma tendência à alegoria – um gênero suspeito quando praticado in vitro, mas claramente perturbado aqui pela experiência de primeira mão do clima totalitário. Partindo da imprudência de uma campanha, O Slavnosti A Hostech (Jan Němec, 1966) evoca o mecanismo de submissão a uma figura arbitrária de autoridade, rapidamente atingida, no entanto, pela suspeita – assustadora – de seu vazio.

A tentação do indecifrável culmina em Sedmikrásky (1966 / foto abaixo), de Věra Chytilová, cujo golpe de gênio é oferecer um cenário de luxo visual dificilmente ultrapassável (a imagem virtuosa do diretor de fotografia Jaroslav Kučera) a um bloco de regressão e destruição pura – e sem dúvida o testemunho mais convincente da liberdade criativa agora possível.

FIM DE JOGO

Horí, má panenko, dirigido por Miloš Forman em 1967, encenam um baile de bombeiros que se transforma em desmoronamento sob a influência da estupidez e da ganância, uma metáfora transparente para um sistema no final da decomposição. Em janeiro de 1968, o “socialismo com rosto humano” anunciado por Alexander Dubček acelerou a mudança. A censura é abolida. O cinema acredita que pode finalmente fazer sem alusões evocar o horror do período passado. Mas em 21 de agosto de 1968, os tanques do Pacto de Varsóvia entraram na Tchecoslováquia e encerraram brutalmente a experiência da primavera de Praga (fotos abaixo).

Em 1970, a Nova Onda não existe mais, vemos um último lampejo no filme Kladivo na carodejnice, do diretor Otakar Vávra, lançado em janeiro de 1970. Muitos filmes são proibidos e, para os diretores, a escolha é clara: emigrar (Forman, Passer), não filmar mais ou compor com os requisitos de mediocridade do tempo que abre, o apropriadamente chamado “normalização” “

Věra Chytilová (foto abaixo), depois de anos de inatividade – da qual se extraiu com o golpe através de uma carta aberta, pode fazer em 1977, Hra o jablko, uma comédia ácida sobre jogos de poder em sedução. Juraj Herz, uma vez notado pelo arrepiante Spalovac mrtvol, cultiva seu gosto pelo horror em Upír z Feratu, mutilado pela censura após seu lançamento. Muitos dos diretores ativos nos períodos anteriores continuaram a trabalhar depois que a Nouvelle Vague se encerrou, incluindo Otakar Vávra e Jiří Menzel .  Olhar rapidamente por cima do muro, pedir notícias do que restou do cinema tcheco por meio de um punhado de filmes modestos mas tenazes das décadas de 70 e 80, não precisa ser uma promessa de amargura.

UM DIA, UM GATO (Az Prijde Kocour AKA When the Cat Comes, 1963) (Filme Completo / Legendado em Português)
Data do Lançamento: 20 de setembro de 1963

SINOPSE: Um contador de histórias, morador de uma pacata cidade na Tchecoslováquia, conta aos alunos de uma escola a vida do professor Robert (Vlastimil Brodský), a história de um antigo amor e seu gato de óculos escuros. Ao tirar os óculos, o gato colore as pessoas de acordo com seus sentimentos e personalidades. O caráter humano pelo ponto de vista de um gato, que apenas enxerga os humanos pelo que realmente são.

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SOBRE O FILME: Os anos 1960 trouxeram para o cinema um criativo fôlego nas produções de todo o mundo. Do Japão a Cuba, as cinematografias nacionais (algo que Truffaut não acreditava existir, com exceção do Expressionismo Alemão, do cinema Revolucionário Soviético e do Neorrealismo Italiano), tornaram-se exemplos vigorosos de experimentação e alinhamento da política ao produto cinematográfico.

Expressivos no mundo inteiro, os chamados “Cinemas Novos” constituíram um filão artístico muitíssimo representativo para a história da sétima arte. Além disso, as produções de caráter crítico tornaram-se comuns e cada continente teve um filme ou cineastas que se destacaram por obras que equilibravam poesia, experimentalismo e crítica social ou profunda análise da alma humana. Na República Tcheca, um dos muitos exemplos desse período é o filme Um Dia, Um Gato (1963), dirigido por Vojtech Jasny.

A história se passa em um vilarejo que recebe uma comitiva circense, da qual fazem parte um mágico, um gato que usa óculos, e a própria Juventude. O tal gato possui poderes mágicos e quando seus óculos são retirados o felino passa a enxergar as pessoas pelas cores que lhes definem a personalidade: os mentirosos são roxos, os ladrões, cinzas; os falsos, amarelos e os apaixonados, vermelhos. Na primeira apresentação do mágico ao público do vilarejo a Juventude retira os óculos do gato e a plateia, espantada por ver as pessoas tingidas de diversas cores, foge do local. No pandemônio, o gato escapa. Caberá ao um professor local e sua turma da terceira série encontrar o animal antes que ele caia nas mãos de homens inescrupulosos do vilarejo.

Um Dia, Um Gato é um filme simples em sua forma, uma crônica muito bem contada (inclusive pela opção de usar um narrador que se dirige à câmera, fazendo do espectador um cúmplice ansioso pela história) e plasmada com imensa docilidade na grande tela, um exemplo de como questões sociais, políticas e antropológicas podem ser vistas por um ângulo fantasioso sem que percam a força ou a importância.

DIREÇÃO: Vojtech Jasný
ROTEIRO: Jirí Brdecka, Vojtech Jasný (story and screenplay), Jan Werich (screenplay and dialogue)
GÊNERO: Comédia, Família, Fantasia
ORIGEM: Tchecoslováquia
DURAÇÃO: 1h 31min
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ELENCO PRINCIPAL:
Jan Werich … Oliva
Emília Vášáryová … Diana
Vlastimil Brodský … Robert
Jirí Sovák … Diretor
Jirina Bohdalová … Julie
Karel Effa … Janek
Vlasta Chramostová … Marjánka
Alena Kreuzmannová … Gossip
Stella Zázvorková … Ruzena


O CHORO (Krik AKA The Cry, 1964) (Filme Completo / Legendado em Português)
Data do Lançamento: 14 de fevereiro de 1964

SINOPSE: O retrato do cotidiano de um jovem casal em meio aos momentos que passam separados, e através de memórias, fantasias e sequências documentais. Ivana (Eva Límanová) anseia por uma vaga na seção de maternidade, enquanto Slávek (Josef Abrhám) ocupa-se com o trabalho de reparador de aparelhos televisivos.

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SOBRE O FILME: A chamada ‘Nova Onda Tcheca’ também foi mais um movimento cinematográfico que foi bastante influenciado pelo Neo-Realismo italiano.

Um claro exemplo disso é ‘Krik’, no qual vemos pessoas comuns e cenas filmadas in loco, ao natural, fora dos estúdios (pelas ruas de Praga), o uso de atores não-profissionais (a protagonista Ivana, é interpretada por uma ‘não-atriz’), que são características presentes nas obras neo-realistas.

Essa influência se mistura com as críticas políticas e sociais, uma poesia, um lirismo e uma fantasia que estão presentes na Nova Onda Tchecoslovaca, que também sofreu uma significativa influência do Surrealismo, que exerceu um grande impacto cultural no país durante as décadas de 1920/1930.

Aliás, não é à toa que com uma efervescência cinematógráfica e cultural tão rica, com tantas críticas políticas e sociais sendo feitas em um grande número de filmes, durante vários anos, e que foram reconhecidos internacionalmente, a Tchecoslováquia tenha passado por uma radical experiência política de caráter democrático, que foi a chamada ‘Primavera de Praga’, em 1968.

‘Krik’ é um belo filme de Jaromil Jires. Nele, temos momentos intimistas, realistas, políticos, sociais, poéticos e de pura fantasia, no qual fica clara a busca por uma renovação da linguagem cinematográfica, o que faz dele um dos mais relevantes filmes desta ‘Nova Onda Tchecoslovaca’. Este foi um movimento que ganhou bastante destaque no cenário mundial, conquistando inúmeros prêmios internacionais, durante a década de 1960.

O filme foi produzido em 1963, logo depois de ‘O Sol em uma Rede’ (de Stefan Uher), tendo sido um dos primeiros filmes do movimento, sendo que muitos o consideram como o marco inaugural da ‘Nova Onda Tchecoslovaca’.

O filme de Jires gira em torno de um casal (Slavek e Ivana), que mora em Praga, que se conheceu de forma acidental e que, pouco tempo depois, já estava morando junto. Slavek é um técnico que conserta aparelhos de TV e, assim, não é à toa que o filme começa (tal como acontece em ‘O Sol em uma Rede’, de 1962) mostrando antenas de TV sobre os edifícios de uma cidade tcheca (Praga, a capital do país).

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DIREÇÃO: Jaromil Jires
ROTEIRO: Ludvík Askenazy, Jaromil Jires
GÊNERO: Drama
ORIGEM: Tchecoslováquia
DURAÇÃO: 1h 20min

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ELENCO PRINCIPAL:
Eva Límanová … Ivana
Josef Abrhám … Slávek
Eva Baborovská … medicka Zuzana
Ladislava Bissingerová … Porodní asistentka
Stepanka Cittová … dívka Alena
Helena Fingerlandová … Mondénní zena
Jirí Jánoska … Rasista poste
Eva Kopecká … Ucitelka
Antonín Krcmár … Kluk na poste
Helena Kristálová … Medicka
Jirí Kvapil … Mladý lékar
Josef Kábrt … Redaktor
Jirí Nemecek … Tonda z alba fotografii (voice)


PEDRO, O NEGRO
(Cerny Petr AKA Black Peter)
Direção: Milos Forman
Data do Lançamento: 17 de abril de 1964

SOBRE O FILME:
Petr (Ladislav Jakim) tem 17 anos. Seus pais são super protetores e preocupados com seu futuro. Ele acaba de começar seu primeiro emprego e de conhecer uma potencial primeira namorada. Pedro, o Negro é um clássico filme de formação, a história de alguns poucos dias na vida de Petr, em que sua relação com emprego, família e vida social se transformam. O grande ponto de virada para Petr é o emprego. Não é um trabalho qualquer, mas o de dedo duro responsável por vigiar, à paisana, os clientes que tentarem furtar algum produto. É impossível não traçar um paralelo entre as pressões da saída da adolescência do jovem e o seu emprego como uma figura de repressão necessária numa sociedade em que as dificuldades financeiras tornam os pequenos furtos um evento freqüente.

Pedro, o Negro lembra muito os filmes de Aintone Doinel que François Truffaut realizou, mas um Doinel numa sociedade necessariamente muito mais dura do que a França de então. Há, sobretudo, a idéia de transferência de um modo de vida que deveria passar de pai para filho, mas é emperrado num conflito de gerações. O primeiro longa de ficção pura de Milos Forman, Pedro o Negro é o verdadeiro filme de fundação do cinema novo tcheco, e seu tom agridoce seria de grande influência sobre conterrâneos como Jiri Menzel e Jan Kodar. As seqüências em que Petr sai com os amigos podem ser vistas como rascunho para as grandes seqüências de evento social que marcariam os trabalhos seguintes de Milos Forman. A observação de que a falta de produtos no país leva freqüentemente aos furtos seria uma idéia recorrente nos longas seguintes.

ELENCO PRINCIPAL:
Antonín Pokorny … Thief
Bozena Matuskova … Petr’s mother
Frantisek Kosina … Shop manager
Frantisek Prazak … Sako’s friend
Frantiska Skalova … Customer
Jan Vostrcil … Petr’s father
Jaroslav Bendl … Mara
Jaroslav Kladrubsky … Stockkeepper
Josef Koza … Mason master
Ladislav Jakim … Petr
Majka Gillarova … Asa’s friend
Pavel Sedlacek … Lada
Pavla Martinkova … Asa
Vladimír Pucholt … Cenda
Zdenek Kulhanek … Zdenek
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DIAMANTES DA NOITE
(Démanty noci AKA Diamonds Of The Night)
Direção: Jan Nemec
Data do Lançamento: 25 de setembro de 1964

SOBRE O FILME:
Démanty noci (Diamantes da Noite, no Brasil) é um dos filmes mais interessantes feitos na perspectiva do Holocausto. Digo isto pois ele afasta-se do drama dos horríveis campos de concentração e extermínio da Alemanha Nazista para explorar os traços de dois jovens que lutam para não serem deportados.

O primeiro filme com direção de Jan Němec tem poucas linhas de diálogo. Durante a Segunda Guerra Mundial, dois amigos fogem do trem que os levaria para um campo de concentração e passam a ser perseguidos por um grupo de caçadores da região. Misturando o real com o imaginário, ambos lutam pela sobrevivência em meio a uma estranha floresta.

A fotografia deixa claro o intuito de surpreender a cada tomada. Aqui, a imagem vale muito mais do que qualquer palavra colocada na boca dos personagens, uma vez que podemos notar claramente a noção do filme em movimento – os dois estão sempre correndo, se movimentando, e as raras cenas em que os dois aparecem sentados ou deitados são justamente as mais importantes para desfazer os nós propostos pelo diretor.

O final do longa é extremamente simples e satisfatório. Jan não dá as respostas para seu espectador. Ao contrário, ele convida cada um a tirar suas próprias conclusões a partir de algumas dicas que são apontadas ao longo da exibição. Se o destino final dos dois amigos é triste ou feliz, fica a critério de cada um – baseado sempre na experiência única e pessoal em torno dos 60 minutos de exibição.

ELENCO PRINCIPAL:
Ladislav Jánsky … 1º Garoto
Antonín Kumbera … 2º Garoto
Irma Bischofova … A Mulher
Ivan Asic
August Bischof
Josef Koblizek
Josef Koggel
Josef Kubat
Rudolf Lukásek
Bohumil Moudry
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A PEQUENA LOJA DA RUA PRINCIPAL
(Obchod na Korze AKA The Shop on Main Street)
Direção: Ján Kadár, Elmar Klos
Data do Lançamento: 08 de outubro de 1965

SOBRE O FILME:
Tony Brtko (Jozef Kroner) é um carpinteiro bondoso, ingênuo e orgulhoso, que não aceita o domínio ditatorial infligido contra o país, mostrando-se resistente em participar da construção do monumento nazista no meio da cidade e se submeter aos desmandos do poder para conseguir privilégios para si e sua esposa, a ambiciosa Evelyn (Hana Slivková). Quando Mark, o oficial nazista cunhado de Tony, propõe que ele seja o “arianizador” de uma loja cuja proprietária é judia, o protagonista vê-se num dilema: se aceita a proposta, acaba chancelando a desumanidade do regime; se não aceita, continua na penúria e abre espaço para um outro joguete da polícia política gerir o estabelecimento, quiçá de maneira violenta contra sua antiga dona. Ao longo de todo o filme, o comportamento de Tony estará nesse fio da navalha. Pessoalmente, seu caráter humanista sente ojeriza por todo jogo de poder, mas nas aparências ele deve fingir que, de fato, tomou a loja da senhora Lautmann (Ida Kaminska). Por baixo dos panos, o carpinteiro a ajuda nas vendas e ainda reforma os móveis já envelhecidos da casa anexa ao comércio, ganhando seus rendimentos com o apoio da comunidade judia da região.

A Pequena Loja da Rua Principal é um brilhante estudo de personagem que coloca em debate questões éticas fundamentais, como a submissão e a rebelião, bem como o conflito entre princípios morais e interesse pessoal, aproveitando para denunciar, subterraneamente, o controle ditatorial da URSS nos anos 60. Não à toa são profusos os enquadramentos que incluem espelhos, elementos cênicos que duplicam os personagens (apontando para a já citada ambivalência de tom que marca o entrecho) e que, sobretudo, sempre mostram cristalinamente as pessoas, como se cada uma devesse se escrutinar e ver o cabimento ou não de cada uma de suas escolhas. Quem já assistiu Alemanha, Ano Zero (1948), encontrará, no final da obra-prima de Kadár e Klós, um correlato original da desconcertante dureza do neorrealista Rosselini.

ELENCO PRINCIPAL:
Adám Matejka … Piti Báci
Alojz Kramar … Balko
Eugen Senaj … Blau
Frantisek Papp … Andoric
Frantisek Zvarík … Marcus Kolkotsky
Gita Misurová … Andoricová
Hana Slivková … Evelyna Brtková
Helena Zvaríková … Rose Kolkotsky
Ida Kaminska … Rozalie Lautmann
Jozef Króner … Antonin Brtko
Luise Grossová … Eliasova
Martin Gregor … Jozef Katz
Martin Hollý … Imro Kuchar
Mikulas Ladizinsky … Marian Peter
Tibor Vadas … Tobacconist
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OS AMORES DE UMA LOIRA
(Lásky jedné plavovlásky AKA Loves Of A Blonde)
Direção: Miloš Forman
Data do Lançamento: 12 de novembro de 1965

SOBRE O FILME:
Autoridades do partido comunista tcheco constatam que uma pequena cidade do interior está em déficit de homens, com as jovens trabalhadoras do local sentido a falta de companheiros e se sentindo solitárias. O exército então destaca um batalhão de reservistas para o local, onde são recepcionados em um baile. Acontece que esses militares são senhores de meia-idade, nada atraentes e, alguns, até casados. Três operárias estão nesse baile e uma delas, Andula passa a noite com o pianista da festa. Este lhe promete namoro e um encontra em Praga. Acreditando na promessa do rapaz, Andula vai atrás dele na capital e é mal recebida pela família do namorado.

Um filme onde a espontaneidade das situações impera, onde realidade e fantasia se misturam, não se tem a clara noção de que tudo não passa de uma fantasia da moça, que está descobrindo a sexualidade em um mundo em crise. Forman novamente mostra os jovens tchecos em volta da opressão paterna (leia-se nas entrelinhas da burocracia do partido comunista). Um belo pequeno filme. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1967.

ELENCO PRINCIPAL:
Hana Brejchová … Andula
Vladimír Pucholt … Milda
Vladimír Mensík … Vacovský
Ivan Kheil … zálozák Manas
Jirí Hrubý … Burda
Milada Jezková … Matka
Josef Sebánek … Otec
Josef Kolb … Pokorný
Marie Salacová … Marie
Jana Novaková … Jana
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PÉROLAS DAS PROFUNDEZAS
(Perličky na dně AKA Pearls of the Deep)
Direção:
Vera Chytilová … (segment “Automat Svet”)
Jaromil Jires … (segment “Romance”)
Jirí Menzel … (segment “Smrt pana Baltazara”)
Jan Nemec … (segment “Podvodníci”)
Evald Schorm … (segment “Dum radosti”)
Data do Lançamento: 07 de janeiro de 1966

SOBRE O FILME:
Com o pano de fundo de uma Tchecoslováquia reprimida, são apresentadas cinco vinhetas não relacionadas, cada uma mostrando a necessidade e o desejo de conexão humana.

Um manifesto para a Nova Onda Tcheca, essa antologia de cinco partes mostra a amplitude da expressão e a versatilidade dos diretores do movimento. Baseado nas histórias do lendário escritor Bohumil Hrabal, os curtas variam do surreal a arrepiante, ao observador causal ao romântico casual, mas todos têm uma visão cortante e astuta do mundo.

ELENCO PRINCIPAL:
Pavla Marsálková, Ferdinand Kruta, Alois Vachek, Miloš Čtrnáctý, František Havel, Josef Hejl, Josefa Pechlatová, Václav Žák, Antonín Pokorny, Věra Mrázková, Vladimír Boudník, Alžběta Laštovková, Dana Valtová, Ivan Vyskočil, Karel Jeřábek.
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TRENS ESTREITAMENTE VIGIADOS
(Ostre sledované vlaky AKA Closely Watched Trains)
Direção: Jirí Menzel
Data do Lançamento: 16 de outubro de 1966

SOBRE O FILME:
Ostře sledované vlaky (Trens Estreitamente Vigiados, no Brasil) é o maior filme da história da Tchecoslováquia. Além de ser extremamente bem sucedido no mercado Europeu na época de seu lançamento, o longa dirigido por Jirí Menzel também marca o rompimento definitivo da New wave tcheca com o chamado “cinema tradicional” bancado pela União Soviética.

Na metade final da Segunda Guerra Mundial, o jovem Milos (Václav Neckár) segue a tradição de sua família e trabalha no controle de trens de uma pequena estação dominada pelos nazistas e seus aliados. Após se apaixonar por uma moça da região, ele passa a sofrer pressão de seu colega de trabalho, um mulherengo convicto, para dar o passo adiante e transar com a mulher o quanto antes. Acontece que Milos, que jamais esteve com uma mulher anteriormente, sofre com seus transtornos de ansiedade, o que torna a tarefa ainda mais complicada.

A fotografia do filme é bastante peculiar. Ela ressalta detalhes e nunca dá atenção demasiada para o cenário. A transição de cenas salta de rosto para rosto e é minimalista, indicando a influência do neorrealismo italiano (base para nove de dez diretores tchecos do período). O que torna Trens especial é justamente sua escala de análise bastante reduzida: os produtores buscaram tratar de uma história bastante singular (adaptada de um popular livro da época), afastando a sombra do nazismo.

Se a New Wave tcheca já havia ganhado a atenção dos críticos com Os Amores de uma Loira, foi com Trens Estreitamente Vigiados que o movimento fixou sua bandeira e dividiu os diretores daquele país em duas categorias: os “rebeldes” e os “clássicos”. Dois anos antes de Trens ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, a Academia premiou o também tcheco A Pequena Loja da Rua Principal, um forte drama ambientado na Segunda Guerra Mundial. Enquanto os eslovacos preferiram seguir com o padrão de roteiro baseado na escola russa do pós-guerra, os tchecos foram os grandes responsáveis pelo rompimento referido anteriormente. Em uma breve comparação, enquanto A Pequena Loja propõe contar um drama de guerra para então construir seus personagens e sua história, Trens diferencia-se ao trazer elementos até então proibidos, como nudez, sensualidade e uma ponta de humor negro e fazer destes elementos as peças fundamentais do roteiro, com a Segunda Guerra servindo apenas de ambientação.

Fundamental para entender o cinema tcheco, Trens Estreitamente Vigiados é um clássico que merece todas as honras possíveis. Um típico exemplo de um longa à frente de seu tempo, as linhas de diálogos bem construídas e as cenas irreverentes o colocam na lista dos melhores filmes da década de 1960.

ELENCO PRINCIPAL:
Václav Neckár … Milos Hrma
Josef Somr … Hubicka
Vlastimil Brodský … Zednicek
Vladimír Valenta … Max
Alois Vachek … Novak
Ferdinand Kruta … Tio Noneman
Jitka Scoffin … Masa
Jitka Zelenohorská … Zdenka
Nada Urbánková … Victoria Freie
Libuse Havelková … Esposa de Max
Milada Jezková … Mãe de Zdenka
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AS PEQUENAS MARGARIDAS
(Sedmikrásky AKA Daisies)
Direção: Vera Chytilová
Data do Lançamento: 30 de Dezembro de 1966

SOBRE O FILME:
Sedmikrásky é um filme interessante. Vários fatores realmente chamam atenção para o filme, e não somente a estética do filme, em conjunto com sua fotografia e montagem criativa. Em contraposição, o filme explora, de forma sutil, o contexto histórico de sua produção: foi feito na Checoslováquia (hoje República Checa e Eslováquia) em 1966, quando ainda estava sob tutela da União Soviética. A União Soviética havia, com o partido comunista nacional, dado um golpe na Checoslováquia em 1948, no evento que ficou conhecido como “Golpe de Praga”. O país perde grande parte de seus direitos de liberdade econômica (que mais interessava à União Soviética) e de imprensa, e é justamente isso e a sociedade sob o poder comunista que é abordado no filme, principalmente em suas tão amplas alegorias.

O enredo, se interpretado de forma narrativa, é bem simples e se resume à história das duas irmãs: Maria I e Maria II. O filme começa com ambas sentadas, e uma mexe no nariz (remetendo a uma forma de normalização e padrão de comportamento behaviourista) e a outra toca um trompete (remetendo a censura), reclamando sobre não poderem fazer aquilo que gostam, e por isso decidem ser, como elas mesmo intitulam, “devassas”. Daí, as duas começam suas aventuras, que se consistem basicamente em romper com esteriótipos de comportamento, onde se nota uma possível influência da teoria de Michel Foucault a cerca da normalização. Elas costumam sair com vários homens, e costumam não gostar de nenhum deles, ignorá-los e os levar sempre no final a estação de trem (que parece ser uma alegoria para uma passagem para o Ocidente capitalista), enfatizando uma visão reversa a cerca dos esteriótipos machistas do cinema.

Suas aventuras e brincadeiras costumam transitar entre uma dinâmica de peripécias e morbidez. O roteiro é alegórico e segue bastante a proposta de “barato audiovisual” das novas ondas do cinema, afinal faz parte da Czech New Wave, sendo o que de fato importa, a noção de liberdade das meninas, apresentada principalmente pela mimésis. Seus atos de “transgressão” são mais uma metáfora do real do que de fato uma obra narrativa, com algum tipo de moral. No período da produção do filme (1966) a União Soviética havia passado por um relaxamento das formas de arte, principalmente em detrimento da morte de Stalin em 1953, cargo que foi logo em seguida ocupado por Kruschev. Kruschev representava uma linha diferente do partido bolchevique (ligado à energia), e já no início de seu governo (1956 em diante), o ministério de cinema passa ser uma secretária dentro do Ministério da Cultura Soviético. Muda-se as leis para filmes do país e cria-se o sindicato dos cineastas.

Novas formas de arte cinematográficas são assimiladas tanto dos novos países do Leste Europeu, que passavam a compor a União Soviética, quando de países da Europa como a França. Transformado a forma dos filmes, que eram marcados pela perspectiva do realismo soviético, passando principalmente pelo sentido vanguardista de cinema de Vertov, de planos gerais objetivos. Deleuze, afirma que “Vertov cria um agenciamento maquínico de imagens-movimento, um sistema de variação universal, um sistema em que todas as imagens variam umas em função das outras em todas as suas partes e em todas as suas faces.”

Quando ocorre essa mudança, um novo grupo de cineastas, como Tarkovsky, ganham espaço e forma um novo tipo de cinema, ligado mais a perspectiva do indivíduo e da natureza. Entretanto, em 1965 Kruschev deixa o governo, que é assumido por Brejnev. Brejnev faz parte da linha do partido mais alinhada aos ideais de Stalin, e os direitos já concedidos começam a passar por tentativas de boicote. É nesse contexto que a diretora, Věra Chytilová, realizou o filme, que após o lançamento foi considerado pelas autoridades da Checoslováquia consideraram o filme como “depicting the wanton”, que traduzindo seria algo como “devasso” (será que tal classificação se dá só por que era uma diretora e não um diretor?). A diretora foi proibida de trabalhar em seu próprio país até 1975. Entretanto, apesar das dificuldades, seu filme teve uma grande influência no sentido estético, na utilização dos cortes dinâmicos relacionados às montagem; tanto no que tange os protestos do fim dos anos de 1960, tanto como influenciaria fortemente a estética dos videoclipes musicais, posteriormente.

Daises representa a crítica a própria crítica. O protesto ao sistema revolucionário, que ao se instaurar no poder, age por sua vez de forma centralizadora, impondo normas, formas de agir e de pensar, e até mesmo formas de estilo cinematográfico, onde a falta de normalização se contrapõe justamente ao construtivismo formalista russo de Eisenstein, como o realismo vanguardismo realista soviético, onde não existe uma forma mais certa (ou normalizada) para ser humano, onde a arte pode ser vivida tanto em seu sentido kantiano (pela elevação espírito), quanto pelo princípio humeano (empirista), sendo Daises justamente uma mistura dos dois: estética e mensagem.

ELENCO PRINCIPAL:
Ivana Karbanová … Marie II
Jirina Myskova
Jitka Cerhová … Marie I
Marcela Brezinová
Marie Cesková
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A FESTA E OS CONVIDADOS
(O Slavnosti A Hostech AKA A Report on the Party and Guests)
Direção: Jan Nemec
Data de Lançamento: 30 de Dezembro de 1966

SOBRE O FILME:
Um grupo de pessoas a caminho de uma festa é abordado por estranhos comandados por um valentão sadista que tem controle inabalável sobre seus seguidores. Depois de uma interrogação e cruéis jogos psicológicos, um outro estranho aparece e eles são guiados até o elegante e absurdo banquete ao ar livre, mas a fuga de um deles desencadeia medidas inusitadas. Nesse filme que se assemelha as obras do cineasta espanhol Luis Buñuel, Nemec satiriza o conformismo e documenta o processo de auto-engano e racionalização que leva a aceitação das restrições, mostrando o livre-arbítrio e a liberdade como difíceis de manter e facilmente descartados.

A situação social e política do Tchecoslováquia da segunda metade dos anos 1960 é fator determinante para se entender as metáforas e simbologias que grassam à vontade na narrativa de “A festa e os convidados” (1966). Mas o alcance temático e sensorial desse estranho filme não é delimitado a um único aspecto regional e temporal. O diretor Jan Nemec consegue estabelecer um espectro universal para a sua obra. Para isso, serve-se de uma encenação bastante livre e anti-naturalista, em que os fatos se sucedem dentro de uma lógica muito particular, namorando fortemente o surrealismo. Aliás, a festa em que convidados são tratados como prisioneiros nos faz lembrar tanto episódios delirantes semelhantes em “O anjo exterminador” (1966) e “O discreto charme da burguesia” (1972), ambos da lavra de Luis Buñuel, mestre do onirismo cinematográfico, como os escritos de Kafka sobre os absurdos de uma sociedade sob jugo de incompreensíveis desmandos estatais. A atmosfera opressiva e obscura constante de “A festa e os convidados” reforça o clima de pesadelo a se associar com os ventos autoritários que sopravam no seu país de origem, mas também servem como ilustração para a presença de um Estado tirânico que pode se manifestar em qualquer lugar do planeta.

ELENCO PRINCIPAL:
Ivan Vyskocil … Hostitel
Jan Klusák … Rudolf
Jiri Nemec … Josef
Pavel Bosek … Frantisek
Karel Mares … Karel
Evald Schorm … Manzel
Jana Pracharová … Paní
Zdena Skvorecka … Eva
Milon Novotny … Zenich
Helena Pejsková … Marta
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O RETORNO DO FILHO PRÓDIGO
(Návrat ztraceného syna AKA Return of the Prodigal Son)
Direção: Evald Schorm
Data de Lançamento: 10 de março de 1967

SOBRE O FILME:
O engenheiro Jan está tentando reorganizar a vida depois de uma tentativa de suicídio, e age como um típico personagem “Marcello” de Fellini: em constante crise de identidade e sempre usando óculos de sol ao estilo Godard. Ambientado tanto dentro do hospital psiquiátrico quando em meio a dilemas externos da sociedade considerada normal, o filme acompanha a trajetória de readaptação de Jan ao seu trabalho, seus amigos, sua família e sua transtornada esposa Jana, ao mesmo tempo em que o personagem tem de lidar com questões morais e existenciais. Enquanto isso, Jana tenta compensar a solidão arranjando um amante.

Evald Schorm foi um dos diretores políticos mais diretos dos cineastas tchecos do New Wave. Esse drama psicológico cru sobre um engenheiro incapaz de se adaptar ao mundo ao seu redor após sua tentativa de suicídio é, no fundo, um retrato assustador de alienação social e compromisso moral.

ELENCO PRINCIPAL:
Anna Lebedova … Jana’s Mother
Antonín Lebeda … Jana’s Father
Dana Medrická … Olga
Jana Brejchová … Jana
Jan Kacer … Jan
Jirí Kilian … Zdenek
Jirí Menzel … Jirí
Milan Morávek … Doctor
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MARKETA LAZAROVA
(Marketa Lazarová)
Direção: Frantisek Vlácil
Data de Lançamento: 24 de novembro de 1967

SOBRE O FILME:
Marketa Lazarova é um épico medieval poderoso, situado no século Xlll. Baseado na obra do escritor Vladislav Vancura, o filme segue a rivalidade entre dois clãs guerreiros, os Kozliks e os Lazars, assim como o amor condenado dos filhos dos rivais, Mikolas Kozlik e Marketa Lazarova. Com reminiscências da obra de Tarkovski e Kurosawa, fundado sobre a rica tapeçaria da ficção tcheca, este filme ambicioso e cheio de camadas é a coroação de Vlácil e um dos marcos do cinema mundial.

Em sua terra natal, Marketa Lazarová, de František Vláčil, foi aclamado como o maior filme tcheco já feito; para muitos espectadores do resto do mundo, será uma revelação. Baseado em um romance de Vladislav Vančura, essa descrição emocionante e poética de uma disputa entre dois clãs medievais rivais é uma evocação feroz, épica e meticulosamente projetada dos confrontos entre cristianismo e paganismo, humanidade e natureza, amor e violência. A abordagem de Vláčil foi recriar as texturas e mentalidades de um modo de vida antigo, em vez de criar um drama histórico convencional, e o resultado é deslumbrante. Com sua cinematografia widescreen, edição e design de som inventivos, Marketa Lazarová é um filme de ação experimental.

ELENCO PRINCIPAL:
Josef Kemr … Kozlík
Magda Vásáryová … Marketa Lazarova
Nada Hejna … Katerina
Jaroslav Moucka … Jan
Frantisek Velecký … Mikolás
Karel Vasicek … Jirí
Ivan Palúch … Adam ‘One-handed’
Martin Mrazek … Václav
Václav Sloup … Simon
Pavla Polaskova … Alexandria
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O BAILE DOS BOMBEIROS
(Horí, má panenko AKA The Firemen’s Ball)
Direção: Miloš Forman
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 1967

SOBRE O FILME:
Horí, má panenko (O Baile dos Bombeiros, no Brasil) foi uma das produções mais polêmicas da New Wave tcheca.
Baseado em uma história vivenciada por Forman, Ivan Passer e Jaroslav Papousek em uma pequena cidade que organizava um jantar festivo em homenagem aos bombeiros, essa comédia nos mostra como um pequena unidade se prepara para homenagear seu chefe de 86 anos com um presente inesquecível. No entanto, uma série de furtos, a desorganizada escolha da moça mais bela e até mesmo um incêndio acabam tornando tal ocasião ímpar.

O filme ficou apenas três semanas nos cinemas da Tchecoslováquia. Durante o período da Primavera de Praga, os censores do governo de Alexander Dubček deixaram as sessões abertas ao público, apesar de um certo desconforto com a temática. Com a invasão da União Soviética e seus aliados, este filme foi colocado na lista de obras “banidas para sempre” – uma espécie de livro negro que também mostrava o nome de Forman como uma persona non grata. Após o produtor Carlo Ponti ser ameaçado de morte por emissários de Moscou, Milos perdeu o financiamento e esteve perto de ser condenado em uma ação do governo tcheco – que buscava o retorno de seu empréstimo para esta produção. Se não fosse por François Truffaut e Jean-Luc Godard, provavelmente o diretor tcheco enfrentaria uma pena de dez anos na prisão.

Seguindo o apresentado em Os Amores de uma Loira, a esmagadora maioria das pessoas utilizadas neste filme são amadores. Todos os bombeiros mostrados na tela realmente trabalhavam no combate ao fogo (o que rendeu uma grande dor de cabeça para alguns deles após 1968). O roteiro tem um toque especial: com um toque rápido e carregado de diálogos, desde o primeiro minuto fica claro que o diretor está apontando diretamente para a corrupção do Partido Comunista e para todo o diálogo sujo feito pelos burocratas em nome do povo.

Após apresentar o supra sumo da New Wave tcheca e virar uma referência local, O Baile dos Bombeiros seria a última produção de Forman em seu país natal. Com a chegada de Gustáv Husák e o retorno da forte influência soviética (período da normalização) – Hollywood seria o destino do diretor, que, como sabemos, nos brindaria com pérolas sagradas do cinema anos depois.

ELENCO PRINCIPAL:
Jan Vostrcil … Predseda plesového výboru
Josef Sebánek … Clen plesového výboru
Josef Valnoha … Clen plesového výboru
Frantisek Debelka … Clen plesového výboru
Josef Rehorek … Clen plesového výboru
Vratislav Cermák … Clen plesového výboru
Jan Stöckl … Retired Fire Chief
Václav Novotný … Clen plesového výboru
Frantisek Reinstein … Clen plesového výboru
Frantisek Paska … Clen plesového výboru
Ladislav Adam … Clen plesového výboru
Josef Kolb … Josef
Stanislav Holubec … Karel
Frantisek Svet … deda Havelka
Josef Kutálek … Ludva
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UM VERÃO CAPRICHOSO
(Rozmarné léto AKA Capricious Summer)
Direção: Jiří Menzel
Data de Lançamento: 24 de maio de 1968

SOBRE O FILME:
Três quarentões passam um dia de sol bebendo vinho, fumando cigarros, tomando banho no lago e conversando sobre religião, filosofia, guerra e espiritualidade. Porém, uma tempestade se aproxima, o que acabará com a diversão do grupo. Após o acontecimento de diversos imprevistos, o trio encanta-se por uma acrobata recém chegada à cidade e assistente do mágico Arnostek (Jiri Menzel).

Essa comédia obscena e desordenada, mas esfarrapada, foi a continuação de Menzel para o Closely Watched Trains, que ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 1967.

Embora o cenário das casas de banhos de rios rurais possa parecer menor em comparação com a Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o Capricious Summer estabelece um clima distinto de insatisfação existencial e melancolia efervescente.

O verão caprichoso refere-se a um trio de arquétipos tchecos de meia-idade. Há um militar tenso, um padre pretensioso e um trabalhador desleixado chamado Rudolf, que cospe muito e anseia por cometer adultério. Suas rotinas mundanas e argumentos familiares são interrompidos pela chegada de um mágico desajeitado interpretado por Menzel (um ator antes de se tornar diretor).

Os homens ficam especialmente impressionados com a bela assistente loira do mágico Anna (Jana Preissova). Eles consideram Anna com uma dualidade de Madonna / prostituta de adoração impressionada e carnalidade desumanizante. “Ela não tem nada”, sussurra Rudolf, enquanto ele a observa de mãos dadas.

À noite, Rudolf foge imediatamente para o tribunal e para a cama de Anna. Enquanto isso, sua esposa sonha com os truques baratos do mágico e os “feitos” desajeitados da fisicalidade. Rudolf é incapaz de continuar com isso, mas sua esposa descobre assim mesmo e corre para o mago.

Comediante por natureza, Menzel preenche as margens de quase todos os quadros com cores locais e piadas à vista, muitas vezes tecendo pedaços de palhaçada na cena. A narrativa aqui é tão frágil e incidental quanto nos trens vigiados de perto. Parece uma peça de teatro animada por barras gloriosas do cinema.

No entanto, Menzel mostra um talento especial para o figurino como caracterização de Wes Anderson, criando sequências mágicas e mudando de tom rapidamente. O verão caprichoso alterna do lírico para o ridículo e vice-versa. É tão temperamental e imprevisível quanto o mau tempo ou o coração humano.

ELENCO PRINCIPAL:
Rudolf Hrusínský … Antonín Dura
Vlastimil Brodský … Maj. Hugo
Frantisek Rehák … Priest / abbé / canon Roch
Míla Myslíková … Katerina Durová
Jana Preissová … Anna (as Jana Drchalová)
Jirí Menzel … Arnostek (Tightrope Walker)
Bohus Záhorský … Starik
Vlasta Jelínková … Sluzebna
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A PIADA
(Zert AKA The Joke)
Direção: Jaromil Jires
Data de Lançamento: 28 de fevereiro de 1969

SOBRE O FILME:
Narrada com o afastamento de um pensamento passageiro e editada com a rapidez da memória, The Joke luta entre o prazer da juventude e a resignação da meia-idade, revelando a estreita divisão entre amor e ódio e a fragilidade dos relacionamentos humanos. Ao enredar beleza e música na prisão do passado, Jaromil Jireš revela o rancor crescente na Checoslováquia comunista, revelando a política estudantil como um clube social burguês mantido na Terceira República, corrupto em sua fé cega e em uma positividade desapegada.

Reaproveitando o thriller de vingança como uma ruminação melancólica, Jireš troca a raiva pré-requisito pela misantropia triste, permeando as noções desanimadas de Ludvik (Josef Somr) com movimentos poéticos, transformando suas farpas sarcásticas em atos de oposição. Passagens de reminiscência chegam a cheirar essa subjetividade sardônica, transformando eventos comunitários em uma mentalidade singular e amarga, revelando ainda mais intensidades de traição e conluio.

Ativado por um encontro casual com a esposa de um ex-companheiro (Jana Dítětová), Ludvik planeja um jogo de humilhação sexual para compensar uma década de ostracização, revivendo seus anos de faculdade em flashes de pânico que se espalham pela banalidade da vida adulta. À medida que os sentimentos de seu passado esperançoso se precipitam no presente sombrio, Jireš expõe a permanência da expulsão de Ludvik do Partido Comunista, construindo um personagem quebrado pelas provocações de seus críticos mais severos e cicatrizes de suas experiências mais traumáticas.

A crueldade da memória de Ludvik, que maliciosamente insere seu corpo de meia idade na adolescência como um espinho, contamina completamente a forma, introduzindo ironia acérgica nos hinos do passado, pervertendo-os como a trilha sonora do sexo aberrante e do trabalho em grupo em cadeia. Essa justaposição não apenas desperta um ambiente sóbrio e perturbador, mas expõe as hipocrisias inerentes ao socialismo, exibindo o abismo entre os privilégios da elite educada e o desespero dos trabalhadores pobres a cada edição entre hino e sofrimento.

Essa abordagem fatalista drena deliberadamente a política e a vingança de sua intriga cinematográfica, deixando para trás uma declaração diatônica e acrimoniosa da desconexão humana. Sua falta de histeria paranóica e iluminação mercurial, que beneficiavam espíritos afins, como The Ear, alimenta a continuidade temática às custas da ação crescente, deixando a narrativa num limbo metafórico sem a capacidade de ilustrar suas concepções intelectuais na tela. Deixados sem uma âncora emocional ou visual, pontos astutos sobre a traição da nostalgia e persistência da classe social ficam presos atrás de um vidro, sufocados sob a carranca de uma obra de galeria de rosto de pedra.

ELENCO PRINCIPAL:
Josef Somr … Ludvik Jahn
Jana Dítetová … Helena Zemánková
Ludek Munzar … Pavel Zemánek
Evald Schorm … Kostka
Vera Kresadlová … Brozová
Jaromír Hanzlík … Tenente
Jaroslava Obermaierová …Marie
Michal Pavlata … Jindra
Milos Rejchrt … Alexej
Milan Svrciva … Jaroslav
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O CREMADOR
(Spalovač mrtvol AKA The Cremator)
Direção: Juraj Herz
Data de Lançamento: 14 de março de 1969

SOBRE O FILME:
Spalovac mrtvol (O Cremador, no Brasil) é um filme que apresenta um lado do cinema tcheco que até então estava fora do alcance do público. Com uma história carregada de humor negro ambientada em um dos períodos mais turbulentos da história da Tchecoslováquia.

Com muito orgulho, Kopfrkingl (Rudolf Hrusínský) comanda um pequeno crematório na cidade de Praga. Com o avanço da Alemanha Nazista e a ameaça de invasão e ocupação do regime de Adolf Hitler, aos poucos o homem é persuadido a se unir ao Partido Nazista e adotar a ideologia alemã. E é nessa conversão que ele revela seu lado sombrio – não poupando nem mesmo sua família.

O mais interessante deste filme é a forma com que o roteiro é construído. Aos poucos entramos na vida desta pacata família e observamos como o protagonista é suscetível as influências externas. Ele deixa de apenas ver sua tarefa neste mundo como a libertação das almas para se colocar à disposição dos nazistas para levar a cremação a um nível completamente diferente. Egomaníaco, Kopfrkingl não aceita críticas ao seu trabalho e passa a planejar cuidadosamente cada passo em direção ao que chamava de “indústria da cremação”.

A fotografia em p/b apresenta tons cartunescos que deixam claro que o filme não é somente um drama de guerra ou um thriller. Os produtores apostaram na mescla destes gêneros com uma crítica a elite tcheca da década de 1930, a mesma que fechou os olhos para Hitler e aplaudiu de pé a anexação. Isto fica evidente em uma memorável cena onde Kopfrkingl é cumprimentado pela primeira vez com a saudação nazista, e coloca um sorriso enorme no rosto ao retribuir seus colegas com o mesmo gesto.

Recomendo vivamente ao leitor que se interessar por este longa dar uma lida em minhas outras críticas sobre os filmes da New Wave tcheca (mesmo que não tenha visto nenhum deles). Acredito que a contextualização do período seja algo fundamental para o entendimento do quanto o diretor Juraj Herz arriscou ao romper com o padrão comunista (exaustivamente discutido aqui no site). O filme foi lançado em alguns cinemas de Praga e marcaria o começo do fim da New Wave, já que aos poucos os censores do novo governo de Gustáv Husák passaram a interferir diretamente sobre os novos projetos da indústria cinematográfica do país.

ELENCO PRINCIPAL:
Rudolf Hrusínský … Kopfrkingl
Vlasta Chramostová … Lakmé / Dagmar
Jana Stehnová … Zina
Milos Vognic … Mili
Zora Bozinová … Reinkeová
Ilja Prachar … Walter Reinke
Eduard Kohout … Bettleheim
Jirí Menzel … Dvorák
Míla Myslíková … Hloupá zena
Vladimír Mensík … Manzel hloupé zeny
Helena Anýzová … Bledá Divka
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O MARTELO DAS BRUXAS
(Kladivo na carodejnice AKA Witchhammer)
Direção: Otakar Vávra
Data de Lançamento: 23 de janeiro de 1970

SOBRE O FILME:
O drama histórico tcheco Kladivo na Carodejnice foi lançado pouco depois do Witchfinder General de Michael Reeves e pode ser comparado a ele de algumas maneiras. Ambos são sobre o pânico que domina a sociedade quando a histeria das acusações de bruxaria começa a colocar vizinho contra vizinho. É claro que ambos são sobre outras coisas também, desde comentários sobre violência até, no caso de O Martelo das Bruxas, uma fábula alegórica branda sobre o comunismo e a total corrupção moral do desejo de poder.

Uma relação cinematográfica mais próxima é The Devils, de Ken Russel, mas, se possível, este filme é ainda mais sombrio que a obra-prima. Quando uma velhinha tenta, de maneira tola, roubar uma hóstia de comunhão da igreja, os eventos entram em uma investigação que encontra quase todo mundo em uma área de duas cidades da Morávia acusado de conspirar com o diabo. Por fim, coloca dois homens um contra o outro, Lautner (Romančík), um homem de Deus falho, e o monstruoso inquisidor Boblig (Šmeral). O filme acompanha os eventos historicamente precisos dos julgamentos, uma vez após a outra, mulheres (e homens) inocentes “confessam” a bruxaria após tortura brutal.

Embora isso não ocorra em representações de violência e nudez, não há elemento de exploração aqui. Em vez disso, trata-se de coisas sérias com um argumento claro sobre a opressão política e a violência contra as mulheres, e é quase impossível não ficar com raiva da hipocrisia desenfreada que está ocorrendo, até porque é algo que fizemos várias vezes como pessoas, aparentemente recusando-se a aprender as lições da história. Os desempenhos são excelentes para todos os envolvidos, com Romančík uma liderança notável e convincente que se apega irremediavelmente à fé que devastadoramente diminui quando ele se encontra no centro de uma vingança de Boblig. E como Boblig vaidoso, venal e sedento de poder, Šmeral é assustadoramente bom, dando-nos provavelmente um dos vilões mais perversos e imorais do cinema de todos os tempos.

Otakar Vávra, que dirigiu e co-escreveu o filme com Ester Krumbachová, nos apresenta um filme medido e friamente prático que ainda administra muitos momentos de tristeza visual. A cinematografia de Josef Illík é notável, e o design da produção aqui é excelente. A impressão em preto e branco deste Blu-ray Second Run geralmente está em boa forma e, apesar de alguns danos aqui e ali, é uma apresentação mais do que aceitável do filme. Quanto aos extras, você recebe um ensaio visual de 22 minutos da crítica Kat Ellinger que fornece um contexto histórico e cultural. Você também recebe um livreto valioso escrevendo sobre o filme de Samm Deighan, e The Light Penetrates the Dark, um curta experimental de 1931 de Vávra.

ELENCO PRINCIPAL:
Cestmír Randa … Winkler
Vladimír Smeral … Boblig
Josef Kemr … Ignác
Jirina Stepnicková … Dorota Groerová
Elo Romancik … Lautner
Sona Valentová … Zuzana
Blanka Waleská … Condessa De Galle
Lola Skrbková … Maryna
Marie Nademlejnská … Davidka
Miriam Kantorková … Tobiasová
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Fontes de Pesquisa e Textos:
A Arte de Milos Forman
Anti-Dicas de Cinema
Convergência Cinéfila
Criterion Collection
Cult Collectors
Dalenogare
Filmow
Francisco Coêlho
IMDb
Kinestocope
Obvious Magazine
Paris Czech Centre
Plano Crítico
Starburst Magazine
Tudo sobre o seu Filme
Universo Pop

Leiam mais sobre o tema nesse link:
https://www.tudosobreseufilme.com.br/2020/04/o-que-foi-nouvelle-vague-tcheca

CULT COLLECTORS | Ser Cult É Ser Colecionador!!!

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